14. Caderno de notas de um etnólogo na Grécia – Europeísmo e nazismo… Das Jahr 2015 III

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

(Conclusão)

Hans Peter Ipsen por exemplo, jurista nazi que tinha feito carreira no seio das autoridades militares ocupantes em Bruxelas durante a guerra, torna-se em seguida o maior especialista do direito das Comunidades europeias na Alemanha Federal. Do mesmo modo, entre todos os economistas e homens de negócios nazis, membros “do Círculo Europeu” (“Europakreis”) que se reuniam na Esplanada Hotel de Berlim sob o Terceiro Reich, alguns deles tiveram um importante papel na política e na economia da Alemanha.

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Fiasco organizado. Atenas, 2012-2015

Entre eles, Ludwig Erhard, Ministro federal da Economia de 1949 à 1963 e chanceler federal de 1963 à 1966, considerado como o pai “do milagre económico alemão”, seguidamente, os banqueiros, Hermann Abs, presidente de Deutsche Bank (1957-1967) e Karl Blessing, membro do Conselho de administração do Reichsbank alemão sob Terceiro Reich (1937-1939) e… Presidente do Deutsche Bundesbank (1958-1969). Estes homens, tendo perdido desde o começo dos anos 1940, toda e qualquer convicção quanto à vitória final do Terceiro Reich durante a guerra, consideravam no entanto, que nenhuma reconstrução económica da Europa se poderia fazer, de outra maneira que não fosse através do predomínio da Alemanha. Dito de outra maneira, a Alemanha podia perder a guerra, mas ganhar a paz. Sob este ponto de vista então – sublinha Mark Mazower – os piores temores dos eurocépticos são fundados, o que faz em todo caso aparecer a CEE, como uma visão dos nazis, (páginas 571-572). Sublinho uma vez mais que este livro continua a não ser traduzido em língua francesa, e que geralmente, as biografias dos personagens históricos anteriormente evocados, são inexistentes ou evasivas na documentação em língua francesa, e muito exactamente, quando se trata do período nazi. É necessário então documentarmo-nos em fontes diferentes, consultando a bibliografia (e mesma a Internet), em inglês ou alemão.

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Grécia 2015.

 

Os números : 50% de pobreza e uma queda de 25% no PIB em cinco anos Por exemplo, wikipedia em francês, menciona pois que quando Robert Schuman (como se sabe, ministro sob a Terceira República, sob o Governo de Vichy e sob a Quarta República), se refugiou sobre as suas terras lorenas, foi detido pela Gestapo e posto no segredo na prisão de Metz antes de ser transferido para Neustadt (actual Rhénani-Palatinato), a 13 de abril de 1941, graças à uma redução das condições de detenção obtida por Heinrich Welsch. Contudo, é necessário ler (um pouco ) o alemão, para saber que Heinrich Welsch, Ministro-Presidente do Sarre em 1955 e 1956 tinha sido o Representante especial da autoridade do Comissário do Reich para a reunificação da Áustria ao Reich alemão, e de 1940 a 1945, o Chefe da administração judicial alemã na Lorena ocupada. O nosso lamentado Yórgos Ioánnou, muito humilde na sua existência e nas suas maneiras… de estar e se relacionar com outros, de maneiras contadas como se diz às vezes, era todo o contrário de um escritor presumido, ignorava eventualmente algumas das histórias… paralelas do europeísmo, revisitadas por Mark Mazower. Contudo, o grande escritor não ignorava o sentido da história. O nosso lamentado Yórgos Ioánnou, muito humilde na sua existência e nas suas maneiras… de estar e se relacionar com outras, de maneiras contadas como se diz às vezes, era completamente o contrário de um escritor presumido, pedante, ignorava eventualmente algumas destas histórias… paralelas do europeísmo, revisitadas por Mark Mazower. Contudo, o grande escritor não ignorava o sentido da história. Daí a sua hostilidade face ao europeísmo de 1978… como do de 1940. Ioánnou carregava consigo mesmo os estigmas da Ocupação Alemã, a exterminação muito importante da comunidade judaica de Salónica, a sua cidade, os estigmas da fome e, por fim, do sangue vertido e isto até mesmo à experiência da guerra civil. No dia seguinte ao Segunda guerra mundial, as receitas entradas fiscais do Estado (degradado) na Grécia, mal cobriam 6% das suas necessidades e despesas (Mazower, página 273).

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Grécia 2015.

 

Os números : 50% de pobreza e uma queda de 25% no PIB em cinco anos Mark Mazower (e não é o único entre os historiadores), considera, de acordo com as suas fontes, que a guerra civil na Grécia teria sido uma política deliberada por parte dos ocupantes Alemães. A fome na Grécia, a única fome na Europa do Sul e no Ocidente, com excepção da que sofreram os Países Baixos mas por outras razões, recordava sobretudo “a gestão dos territórios” conquistados mais a Leste, (Polónia, União Soviética), e os… milhões de mortes, entre massacres e fome organizada através destes espaços. Em todo caso, as autoridades ocupantes alemãs, nada fizeram para poupar a fome aos Gregos, mais de cem mil mortes foram calculados só em Atenas e em Cyclades, durante o primeiro inverno da Ocupação em 1941. “Não nos devemos preocupar com os Gregos. Outros, depois deles, serão atingidos pelo mesmo fenómeno. ”, declarava então Hermann Göring na Primavera 1942. E a imprensa alemã da altura acrescentava: “ Será realmente necessário desperdiçar os alimentos destinados às forças do Eixo para manter com vida os habitantes das cidades gregas? Sabendo então, que estas pessoas são sobretudo ladrões, traficantes, contrabandistas, intermediários e preguiçosos”. Ou ainda, “é necessário saber até onde irão as forças do Eixo, tão duramente provadas na sua luta, tratando-se de alimentar na Grécia, uma população de alguns milhões de preguiçosos” (Mazower, página 280). … Um argumentário bastante paralelo, em suma, do que está a ser utilizado neste momento… quando se fala … de dever dos Gregos e do seu comportamento relativamente à “sua” dívida, o que não quer dizer contudo que os Alemães de hoje são os nazis de ontem, mas talvez antes, que certos estereótipos e sobrevivências culturais podem então durar muito tempo (na Alemanha, na Grécia ou em qualquer outro lugar) e, sobretudo, que as elites não mudam porque a geopolítica permanece, seja ou não com a mundialização, de resto.

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Esquerda alemã, Janeiro de 2015

 

Resumamos. A pretensão de matar o governo SYRIZA/ANEL está em curso de execução por estas mesmas elites europeístas, com… a amável participação dos desastrosos nepotistas de Atenas. Nenhum recuo Syrizista será para eles suficiente na medida em que, aconteça o que acontecer, este governo comporta consigo mesmo o germe da resistência. E que saibamos, amigos (políticos) de SYRIZA na Alemanha estão bem conscientes, daí um certo mal-estar não forçosamente expresso publicamente. Outros amigos alemães quereriam também parar a máquina infernal do interior, são muito minoritários, em todo caso de momento. Além disso, do ponto de vista das elites, vai ser necessário contar alguma coisa aos outros povos da desastrosa UE, sobretudo agora. Porque as elites europeístas do tempo da mundialização não parecem querer poupar à termo os habitantes do Eurocentro, do destino agora reservado aos Gregos e aos outros… povos do Sul.

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SYRIZA no governo. “Quotidien des Rédacteurs”, janvier 2015

 

Mark Mazower nota que o directório de ideias e de práticas no qual os nazis se basearam (para o aumentar também ), é na verdade muito profundamente europeu, e mais precisamente colonialista. Contrariamente às outras Potências (França, Grã-Bretanha), a Alemanha tentou colonizar a Europa, tal foi, de facto, a grande… inovação do século XX. Entre estas práticas, o duplo sistema jurídico, o duplo estatuto, “mutatis mutandis” que vai do indigenato … à cidadania, por exemplo. Assim e ainda, os regimes políticos impostos em nome da dívida e pelo memorando, também comportam efectivamente um parâmetro deste tipo. Isto não é ainda completamente visível por todos e… no entanto. Deste ponto de vista, o europeísmo “progressista” do Partido da esquerda europeia (SYRIZA incluído ), roda então num vazio abissal e, sobretudo, isto vê-se. Os trabalhadores na Grécia questionam-se então em nome de que princípio é que os direitos do trabalho, a Segurança Social, os salários ou por último, o sentido da vida e da morte não são mais os mesmos na Grécia e na Alemanha. Com tudo isto e apesar de tudo isto, depois de cinco anos de sangria social, humana e simbólica, a dívida não deixa de estar a aumentar.

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Wolfgang Schäuble e a tempestade… grega. Imprensa grega, Fevereiro 2015

 

Conduzir à morte o governo SYRIZA/ANEL, ou então a sua submissão total, sob a forma por exemplo de uma nova coligação que inclua o PASOK e o partido iniciado entre Berlim e Bruxelas “To Potami” (Rio), o que significa a mesma coisa para a Esquerda e para ANEL, não é tão fácil quanto parece e se previa. As elites esquecem-se às vezes, que os povos também conseguem colocar o seu grão de areia na história. Os nossos analistas e escritores de ontem e de hoje, prevêem bastante claramente às vezes as fendas do tempo humano que é o nosso; eles conseguem por aí colocar, e à sua maneira, o grão de areia necessário. A sua única herança à maneira de Yórgos Ioánnou. Até à próxima vez. Enfim, é a primeira vez que um líder de uma das três componente da Troika, formada pelo FMI, pela Comissão e o BCE, diz em face das câmaras. “O dinheiro foi dado para salvar os bancos franceses e alemães, não para salvar a Grécia”, declarou Paulo Batista, um dos 19 eleitos entre os 24 membros do conselho de administração do Fundo Monetário Internacional. Rixas e combates de rua… à escala planetária. “Das Jahr 2015”, Ano 2015.

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Rixa… em Atenas, 2015 * Photo de couverture: La Grèce de Yór

 

Caderno de notas de um etnólogo na Grécia – Europeísmo e nazismo… Das Jahr 2015 II

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