A GALIZA COMO TAREFA – divergentes I – Ernesto V. Souza

Há poucas palavras tão fascinadoras como “sempre”: a olhos do filósofo abre debates de ecos clássicos, na boca do político ata e desata vínculos sagrados, para o historiador é a pista de que algo provavelmente arredor deva ser revisado e para o revolucionário é um muro tentador que assaltar.

Trata-se, para o gramático, de um simples advérbio de tempo, sim; mas o escritor e o leitor atento descobrem de imediato que aquele é um advérbio sonoro e com pretensões, que se apresenta sendo ab ovo e também com um fachendoso e soberbo ad eternum como daqueles fidalgos que eram desque o mundo era mundo.

Popularmente na Galiza é matizado com “de”, ficando o “de sempre” um bocadinho menos absoluto, mais como um hábito, uma tradição, um sabermos que um costume, objeto ou artefato leva aí, por perto, bastante tempo e parece parte da paisagem ou resulta sentimentalmente familiar.

Sempre é, sem dúvida, um advérbio muito mentireiro; é apenas ouvir aquilo de “sempre as cousas foram deste jeito”, “sempre foi destarte”, “sempre se fez ou disse assim” e depois da perplexidade terminar concluindo que as referências não remontam a mais de duas, três, quatro gerações (no máximo) sem alguma confusão, mentira ou cuidadosa falsificação.

O tempo, sabemos, é mestre do relativo mas as nações, como as religiões são “eternas”. Nesta contradição é que se equilibra o mundo e a história vai-se escrevendo.

Serafim da Silva Neto, soube ver bem que a fixação da “língua comum” fora um fenómeno urbano que estabelecera “nítida oposição entre ela e os falares regionais”  e que já “no tempo de D. Denis” essa oposição era “significante e claramente perceptível”. (História da Língua Portuguesa, Rio de Janeiro: Presença, 1988. 5ª ed. p. 397 )

Efetivamente, o panorama dialetal daquelas épocas recuadas não era tão extraordinário: de modo geral opunha-se o Norte, ricamente diferenciado, ao Sul, mais uniforme. Motivações históricas, geográficas e políticas explicam facilmente o caso.

A ascensão de uma burguesia, como temos apontado, nos séculos XIII e XIV, e o foco de atração política, social, administrativo, artístico, comercial, universitário e económico em que se converte Lisboa, contribuiu para a unificação desse comum e para o definitivo deslocamento cara o modelo mais compacto do Sul, até tomar o seu rumo moderno nos tempos de João I. Ao mesmo passo que se purgava de elementos nortenhos (galegos, góticos e dessa rica alternância dialetal), constituía o português o seu próprio sistema depois implementado sobre as concepções humanísticas.

Em paralelo, há que destacar que antes de haver língua havia mar e, por causa disto, o português já era e seria durante 250 anos uma língua franca, do comércio ou das relações euro-afro-asiáticas, que de Lisboa a Malaca, passando por Ceuta incorporava à língua comum sistematicamente elementos exteriores e até exóticos, o que a convertia talvez na primeira que possa reclamar o título de global, quando nem gramáticas, nem línguas de Estado havia.

Divergentemente, nesse fundamental século XV, na Galiza “a nossa linguagem” perdeu (ou não consolidou) o status como língua, iniciando-se um processo de substituição pelo castelhano que implicou uma redução progressiva que a converteu num instrumento de comunicação oral sem projeção pública de qualquer tipo.

O contraste é brutal, porque precisamente é aí que ao Norte deixa de escrever-se o galego. Em apenas cinquenta anos passará a ser língua ágrafa – porque, simples e tacitamente deixa de usar-se nos ofícios (deixa de ser oficial). Os concelhos, nomeadamente, seriam o seu último reduto. A data simbólica pode ser acaidamente a construção do Hospital Real de Santiago (1486). Aí e já todo documento público e privado de caráter culto (quitando raras e normalmente reivindicativas exceções)  foi escrito em castelhano.

O Rexurdimento no século XIX e com ele a reivindicação e o processo de recuperação e reconstrução da língua não pode ser explicado como se fosse um fenómeno puramente cultural ou abstração de reclamações, protestos, ações, polêmicas, que ocorreram nos campos económicos, sociais e políticos. Nestas circunstâncias, o signo literário – pela simples razão de se veicular num sistema não apenas não padronizado senão também agredido – adquire conotações que obrigam a que se explique fora de si próprio. (vid. Dobarro Paz, X. Mª: “Rexurdimento”, In Gran Enciclopedia Gallega T.26 pp 172-174)

O processo de construção do padrão galego, paralelo ao processo de substituição e destruição do idioma, deve ser entendido nesse contexto, e após as extraordinárias vicissitudes históricas e políticas do século XX até hoje, com as implicações lógicas para a construção de um modelo que partindo dessa rica variedade (ainda hoje viva e determinante), negligenciou o português e sistematicamente reivindicou o identitário, o sabor localista, o diferencialismo com o castelhano.

Um sistema, que nessa exibição do diferente e do marcadamente obscuro, curioso e próprio, hiper-corrigiu o modelo dando à bela fantasia, à evocação da terra e à sonoridade um papel predominante na escolha “enxebrizante” da língua moderna, que simbolicamente foi definida como a “de sempre” e “de nós”.

Mas sempre, sempre, como dizia meu avó, é muito tempo.

463- En el Corolario del discurso décimo quinto, Paralelo de las Lenguas, que se halla en el tomo primero de Theatro Crítico Universal del P. Mtro. Feyjoó, Benedictino, y de nación Gallego, se hallarán las razones de semejanza, y diferencia de los dos dialectos, Gallego, y Portugués. Es inconcuso, como allí se dice, que la conquista de Portugal, y la población segunda, se empezó entrando desde las partes mas boreales de Galicia, concurriendo á todo los de aquellos paises. Así se vé que hay muchos lugares en lo más boreal de Portugal, que tienen los mismos nombres que otros tantos en Galicia; y que los apellidos más famosos, se hallan igualmente en las dos naciones. (201)

465- Antes del siglo duodécimo en todos aquellos paises solo se escribia en Lengua Latina, como consta de los instrumentos que subsisten; lo mismo sucedía en Castilla. Así, qualquier instrumento que se exhibiere antes de aquel siglo, y escrito entonces en vulgar Portugués, ó Gallego, ó es falso, ó muy sospechoso. Despues, sin saber quándo, se introduxo escribir en vulgar. Pero los Gallegos, por deferencia á la lengua Castellana dominante, hacian, ó recibian los instrumentos públicos en vulgar Castellano; lo que aun hoy executan. No así los Portugueses; pues como tenian Monarca propio, introduxeron en las escrituras públicas, y privadas, aquel vulgar primitivo, que era comun á las dos clases de Gallegos Lucenses, y Bracharenses; el qual, con el tiempo, y con el exercicio de escribirse, se hizo como dialecto distinto, y es el que hoy llamamos Portugués; si bien tiene aún tanta semejanza con el vulgar Gallego, que hoy se habla, que no todos los saben discernir. (202)

466- Por eso no se debe extrañar, ó no es del caso, que en el idioma Portugués escrito se hallen hoy infinitas voces, que no se hallan en el idioma Gallego solo hablado. La comunicación con los Moros de las fronteras, las conquistas Orientales, y Occidentales, y el haber escrito sobre Artes, y Ciencias, y en materias Eclesiáticas, han sido el origen de aquel exceso de voces. Pero dudo que en cuanto á voces radicales, y primitivas, haya exceso alguno; pues hay muchas voces de estas en el idioma Gallego hablado, que no se hallan en el Portugués escrito, ni en sus Diccionarios. (202-203)

467- Aunque hé dicho que el idioma Gallego no se escribia, ni se escribe, se entiende en instrumentos públicos, y en libros; pues en contratos particulares, y en cartas, tal qual vez se escribia y aun se usa; pues hé visto instrumentos de los siglos décimo cuarto, y décimo quinto escritos en este idioma. Y si hoy se quisiese escribir, tanto como en Castilla, y en Portugal, es el idioma capaz de todo, agregándose las mismas voces extrañas que se han aplicado aquellos dos dialectos; pues las voces Trópico, Paralaxe, Cosmografia, Liturgia, Synopsis, Antropophago, &c. siendo puras Griegas, y pronunciables en Gallego, no sé por qué, con exclusiva, se han de llamar Portuguesas, Francesas, ó Castellanas.(203)

MEMORIAS PARA LA HISTORIA DE LA POESIA, Y POETAS ESPAÑOLES. OBRAS POSTHUMAS DEL R.MO P. FR. MARTIN SARMIENTO BENEDICTINO.  T.I .- .JOACHIN IBARRA IMPRESOR, MADRID MDCCLXXV.

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