É VERDADE QUE O PS NÃO PREPAROU O ELEITORADO NEM O AVISOU DE POSSÍVEL CONSENSO À ESQUERDA? – por VASCO LOURENÇO

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Car@s associad@s

A situação que vivemos e a necessidade de esclarecimento que se impõe, perante as manobras da direita no poder, levam-me a difundir um email que recebi e a acrescentar-lhe um episódio que poderá ajudar-vos a compreender melhor o tipo de luta e o tipo de procedimentos de alguns dos intervenientes.

Desculpem-me, se considerarem que estou a ir além do que, como presidente da A25A, posso ir… A importância do que está em jogo, leva-me contudo a não hesitar. Somos apartidários, não somos neutros, politicamente!

A questão é muito simples: a direita está desesperada por ver o poder a fugir-lhe das mãos. Daí que utilize todos os argumentos que pense poderem servir os seus intentos. Mentem, com todo o descaramento, com todos os dentes que têm na boca. Com uma desfaçatez, que tenta camuflar a sua falta de credibilidade. Imitando a madrasta da Branca de Neve, “espelho meu, haverá alguém mais mentiroso que eu?”, perguntam os Coelhos, Portas e, agora Ângelos Correia. Até parece que eles são exemplares no que respeita à sua relação com os eleitores, durante a campanha eleitoral, e na sua acção depois de eleitos…

Vi ontem um debate entre Correia de Campos e Ângelo Correia (é sintomático que tenham chamado o ex patrão de Coelho, veterano com enorme experiência na arte da manipulação e aldrabice). As afirmações desse dinossauro dos PSD, onde, de forma despudorada mas normal nessa criatura, defendeu a teoria da falta de ética de António Costa e do PS, porque “não esclareceram durante a campanha eleitoral a sua propensão para acordos à esquerda, caso não tivessem maioria absoluta”, manteve-se firme, apesar de António Campos lhe ter lembrado as várias intervenções do PS e do seu líder que contrariam totalmente as suas afirmações. O máximo que aceitou dizer foi “eu não ouvi nenhuma”… Atitude que levou António Campos a dizer-lhe que esta sua posição só tinha semelhança com a invenção que ele fizera em 1980, enquanto ministro da Administração Interna, da célebre “conspiração dos pregos”. Só para ver a sua reação de desespero e raiva, valeu a pena assistir ao debate… Não sei se Ângelo Correia se terá  desdito e desculpado junto de Correia de Campos, após a transmissão do debate… Mas, a mim, isso fez-me lembrar um episódio que mostra bem o carácter do fulano e que não resisto em contar:

Debate na RTP, em 1999, moderado pelo jornalista Fernando Balsinha, infelizmente já falecido. Discutíamos, ele e eu, em directo, a razão de ser da necessidade de aprovar uma lei que possibilitasse a recomposição das carreiras dos militares prejudicados nas mesmas pelo seu envolvimento no 25 de Abril. O “homem dos pregos” negava, com a sua firmeza e convicção normais, a existência de casos de militares que justificassem tal lei. Eu, possível beneficiário da mesma, sentia-me algo constrangido em defender a justiça dos meus pontos de vista, parecendo mesmo não o fazer (foi esse o meu sentimento na altura…) com a convicção e firmeza que costumo usar na defesa das posições em que acredito.

Termina a emissão (comigo insatisfeito, comigo próprio), os holofotes ainda estão acesos, quando sou surpreendido pela afirmação do meu interlocutor ” Oh sr tenente coronel, agora que já não estamos no ar, quero dizer-lhe que o Sr tem toda a razão! Eu conheço vários casos dos que o Sr referiu, nomeadamente sargentos!”.

Atónito, reagi, colocando as mãos numa cadeira e dizendo-lhe, perante o espanto do Fernando Balsinha e dos operadores, “o que é que você quer? Que lhe enfie esta cadeira pela cabeça abaixo?” (não tenho a certeza, mas penso que terei usado outra palavra, que não cabeça). E perante uma “tentativa de defesa” dele, “não diga mais nada, senão enfio-lhe mesmo com a cadeira pelos …”. E, despedindo-me do Balsinha e dos operadores, apressei-me a sair dos estúdios da Av. 5 de Outubro…

É este tipo de gente, sem carácter e sem moral, que estrebucha, lançando mãos aos métodos que bem dominam, que procura continuar a enganar os portugueses…

Cordiais saudações

Vasco Lourenço

 

Vejamos o mail recebido e que sugiro leiam, apesar de um pouco longo:

Assunto: É verdade que o PS não preparou o eleitorado nem o avisou de possível consenso à esquerda?

A direita, a todo o custo alapada ao poder – pese embora o cinismo do Paulo Portas…- usa todos os truques, mentiras e argumentos para contrariar os ventos da mudança.

Têm pois de ser desmistificadas as suas mentiras, amplamente espalhadas pelo exército de comentadores ao serviço de uma comunicação social funcionando cada vez mais em mercado oligopolista.

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Fonte: “PÚBLICO”_20.Out.15

A frase

 “[Se fosse eleito Presidente da República convocaria] eleições, chamando assim o povo português a pronunciar-se através do voto, com base noutros pressupostos políticos que não foram equacionados durante a última campanha eleitoral, tendo em consideração que o PS não esclareceu o eleitorado que poderia optar por formar uma coligação com o Partido Comunista e o Bloco de Esquerda caso perdesse as eleições”Castanheira Barros, candidato à Presidência da República, 27.10.2015

O contexto

O candidato à Presidência da República Castanheira Barros foi questionado, à margem de um encontro de candidaturas independentes a Belém, sobre o que faria, caso fosse eleito Presidente, face a uma eventual rejeição do programa de governo. O advogado acabaria por responder que convocaria eleições, visto que o eleitorado português não tinha sido informado sobre as intenções do PS em se coligar com outros partidos de esquerda.

Graça Castanho, também candidata independente à Presidência, disse, depois da mesma reunião, que “os partidos não têm o direito de alterar as regras do jogo passado o período das campanhas eleitorais. É uma coligação para a qual o partido não preparou o eleitorado”. Uma semana antes, o ex-presidente da Comissão Europeia Durão Barroso tinha dito que “os eleitores socialistas não votaram no PS para um governo com o PCP e o BE. Toda a gente sabe que não foi esse o sentido de voto dos eleitores socialistas”. A antiga deputada pelo CDS-PP Inês Teotónio Pereira dizia ainda que “não é nada bom estar nas mãos de quem perdeu o jogo e ameaça furar a bola, porque não quer ir para a baliza”.

De facto, esta parece ser a interpretação geral, tanto de políticos como de comentadores, da acção de António Costa na sequência das eleições legislativas de 2015 – a de que o PS nunca tinha dado a entender que se poderia coligar com PCP e BE e esta tentativa de consenso pode ser encarada como um “logro” ou “engano” aos eleitores socialistas. Mas será verdade que António Costa nunca falou da possibilidade de consenso à esquerda?

Os factos

Comecemos pelo princípio, que neste caso nos faz recuar até às primárias do PS, quando António Costa disputava o lugar de secretário-geral do partido com António José Seguro. Nesta altura, Costa redigiu uma moção política de 28 páginas, de nome Mobilizar Portugal, que apresentava as suas ideias e “grandes opções de governo”, caso vencesse a concorrência e chegasse a primeiro-ministro. No início do documento encontram-se inscrições como “A responsabilidade do PS é transformar a ‘maioria do contra’ numa maioria de governo, liderar a construção de uma nova maioria política, consoante uma nova maioria social”; “O PS não pensa ser a única força necessária para dar um novo fôlego a Portugal – mas o PS sabe que é a sua responsabilidade, agora, ser o agregador determinante de uma nova maioria política e social”; e ainda “Nem uma maioria absoluta desviará o PS da procura dos compromissos políticos alargados e dos acordos de concertação social”.

Como se verifica, António Costa refere frequentemente a necessidade de formar consensos e de “maiorias” a partir da “maioria do contra”. Mas a referência aos partidos de esquerda torna-se mais explícita nas páginas seguintes: “O tão abusado conceito de ‘arco da governação’ não pode servir para justificar a exclusão sistemática de certos partidos da responsabilidade de governar. É na sua pluralidade que o Parlamento representa o país e não há qualquer razão para o PS ignorar as aspirações dos eleitores representados pelos partidos à sua esquerda.” E: “O problema de governabilidade à esquerda (…) tem dado uma inaceitável vantagem estratégica à direita. Que uma parte significativa do eleitorado há décadas não se envolva em nenhuma solução de governo representa um empobrecimento da democracia. Só por si, a contestação e a oposição não resolvem os problemas dos portugueses. A esquerda que no Parlamento se senta à esquerda do PS não pode voltar a enganar-se no adversário.”

Com o início da campanha eleitoral em Setembro, as referências directas a consensos com o BE ou o PCP desaparecem, e António Costa chega a bipolarizar o discurso e a dizer que o PS é o único partido que consegue fazer frente à coligação PSD-CDS: “Se querem outro caminho diferente daquele que foi seguido pelo Governo, também não há muitas escolhas, ou melhor, muitas escolhas há, só que a verdade é esta: depois de tudo visto e revisto, só há uma que é mesmo capaz de abrir um caminho e concretizar esse caminho.”

Numa entrevista à Antena 1 a 18 de Setembro, o líder do Partido Socialista diz que inviabilizará qualquer Orçamento de direita, numa atitude que lhe valeu muitas críticas, desde Passos Coelho a Marcelo Rebelo de Sousa. António Costa rejeita qualquer ligação com os actuais partidos governantes, impossibilita acordos futuros e enfatiza que “a última coisa que fazia sentido é que o voto no PS, que é um voto das pessoas que querem mudar de política, servisse depois para manter esta política”.

Em resumo

É falso dizer que António Costa nunca revelou vontade política de se coligar à esquerda. Antes da campanha das legislativas, o PS foi explícito em afirmar que procurava consensos com os partidos fora do “arco da governação” e que a “esquerda que no Parlamento se senta à esquerda do PS” deveria parar de olhar para os socialistas como oposição e sim como futuros aliados. Durante a campanha, o PS focou-se num discurso antiausteridade e contra a direita, revelando que não aceitava nenhum Orçamento do Estado que viesse dos partidos da coligação Portugal à Frente.

Em suma, antes da campanha eleitoral o PS era “pró-consenso de esquerda”, mas essa posição enevoou-se em Setembro, encandeada por uma muito maior expressão de rejeição da direita. Contudo, uma posição não impossibilita a outra, e muito menos se pode dizer que o PS “enganou” o eleitorado. Quando muito, pode considerar-se que a possibilidade de um bloco unido PS-CDU-BE não foi “suficientemente” explorada pelos partidos de esquerda.

Texto editado por Leonete Botelho

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