AS ESQUERDAS HOJE NÃO TÊM OUTRAS ESCOLHAS QUE NÃO SEJAM OU ABANDONAR QUALQUER PERSPECTIVA DE MUDANÇA OU TORNAREM-SE REVOLUCIONÁRIAS – “ENTREVISTA COM CHRISTOPHE BOUILLAUD – por CORALIE DELAUME – I

Bouillaud - I

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

L’arène nue

As esquerdas hoje não têm outras escolhas que não sejam ou abandonar qualquer perspectiva de mudança ou tornarem-se revolucionárias – Entrevista com Christophe Bouillaud

Coralie Delaume, Les gauches n’ont le choix qu’entre abandonner toute perspective de changement ou redevenir révolutionnaires – entretien avec Christophe Bouillaud

Blog L’Arène Nue, 18 de Setembro de 2015

Christophe Bouillaud é professor de Ciências políticas no Instituto de Estudos políticos de Grenoble. É especialista da vida política italiana e, mais geralmente, da vida política europeia. Tem um excelente blog cujo link é o seguinte: que se pode aqui consultar*. O texto que se segue são as suas respostas a algumas perguntas que lhe foram postas a respeito dos movimentos de esquerda “alternativos” que se vêem aparecer e crescer (ou estagnar!) em vários países da Europa.

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Vê-se emergir, um pouco por toda a parte na Europa, esquerdas alternativas: o Podemos em Espanha, Syriza em Grécia, Die Linke na Alemanha e outros. O que têm em conjunto? Parece-vos que irão desaparecer a prazo, a social-democracia e o comunismo?

Antes de sublinhar os seus pontos comuns, é necessário primeiro sublinhar as suas diferenças. Alguns destes partidos possuem uma relação histórica com o movimento comunista internacional, controlado desde Moscovo entre 1917 e 1991. É o caso por exemplo de Die Linke na Alemanha que eleitoral e humanamente permanece o herdeiro do PDS, o partido-sucessor do SED, partido hegemónico da RDA, ainda que outros elementos vindos da social-democracia ou do sindicalismo crítico da antiga RFA se tenham aqui agregado (entre os quais Oskar Lafontaine por exemplo).

Outros enraízam-se numa esquerda também ela comunista, mas que recusava a dominação soviética sobre o movimento comunista internacional. Trata-se de todos os partidos que correspondem a uma herança trotskista e ou mesmo maoista (como por exemplo o partido “Socialistische Partij” nos Países Baixos). É também o caso, para esquematizar, de Syriza, que enfrenta de resto na arena eleitoral grega, um partido comunista, o KKE, conhecido pelo seu imobilismo doutrinal.

Além disso, existem cisões de esquerda surgidas dos grandes partidos socialistas ou social-democratas de governo [do arco do poder]. É tipicamente o caso do Partido de esquerda na França. Por último, existe raras forças – Podemos é praticamente o único exemplo conhecido até agora – que não se enraízam em nenhuma experiência organizacional precedente e afirmam, pelo contrário, a sua total virgindade política, retomando ao mesmo tempo obviamente temas de esquerda tradicionais como a justiça social.

No total, apesar da sua diversidade de enraizamento histórico, a maior parte destas forças terminam – quando dispõem de eleitos ao Parlamento europeu – por se sentarem juntas no grupo parlamentar “da Esquerda Unitária Europeia/Esquerda Verde Nórdica”, que não é outra coisa senão  o herdeiro do antigo grupo parlamentar dos comunistas a oeste do continente. De facto, no Parlamento europeu, estas formações reúnem-se muito mais facilmente do que os herdeiros do fascismo e do nacionalismo europeus dos anos 1910-1940, porque partilham uma finalidade internacionalista ancorada na história longa do movimento operário europeu. Têm todas, também, uma história comum mais recente: desde os anos 1980, estas forças – ou os indivíduos que as constituíram – conheceram praticamente apenas derrotas políticas. O mínimo que se possa dizer, com efeito, é que a influência destes partidos situados à esquerda da social-democracia dominante foi totalmente insignificante sobre a experiência europeia desde os anos 1980. Estas forças sobreviveram certamente, mas falharam totalmente quanto a influenciar as evoluções socioeconómicas desde então.

Elas sobreviveram e mesmo para lá disso, dado que parecem conhecer hoje uma nova juventude. É um fogo de palha, um simples fenómeno de moda ou isto parece-lhe duradouro?

Digamos que o período recente reabre oportunidades de agir aproveitando o esgotamento do modelo neoliberal. De facto, todas estas forças possuem conjuntamente a vontade de voltar a impor um compromisso entre o capital e o trabalho tal como este já pôde existir na Europa ocidental nos anos 1950-1970. O seu radicalismo é por conseguinte muito relativo dado que estão [decalcados]  sobre as posições social-democratas ou socialistas da época.

A grande diferença para com o passado, é que elas não dispõem para se fazerem ouvir senão da arma eleitoral. Nos anos 1950-1970, o capital europeu esteve muito disposto a fazer compromissos com os representantes do trabalho, porque, por um lado, os Soviéticos ocupavam uma metade do continente, e, por outro lado, porque o movimento operário podia pesar realmente em termos de relações de força na vida económica. Em 2015, o movimento operário é, sobretudo, uma lembrança histórica. Por toda a parte na Europa, já não tem mais nenhum peso directo, e este perdeu a sua capacidade em manter uma relação de força na sociedade. No limite, para citáramos o caso francês, os táxis, os buralistas, os agricultores bretões, etc. podem ainda ter um impacto sobre a vida social quotidiana e merecer alguma atenção por parte do poder político consequentemente. Já não é mais o caso do mundo operário de hoje, do trabalhador comum das fábricas e dos escritórios que agora só muito raramente fazem greve e que também já não podem mais bloquear coisa nenhuma, na verdade, a não ser a sua própria remuneração no final do mês. Consequentemente, a questão para os partidos que querem defender a justiça social torna-se agora a seguinte : como reintroduzir a justiça social no quadro do capitalismo actual sem ter a força do movimento operário consigo para criar uma relação de força?

Deve dizer-se que esta esquerda alternativa encara apenas um reordenamento do capitalismo? A ideia “de saída do capitalismo”, é uma questão eliminada ?

Na realidade, todos os partidos são críticos em relação ao capitalismo, mas, contrariamente à situação dos anos 1960-70, têm dificuldades enormes para proporem outra coisa que não seja uma gestão de esquerda do capitalismo, mesmo se frequentemente defenderem a sua conversão à ecologia. Já não têm com efeito nenhum modelo alternativo de sociedade e de economia a propor, como o podiam ser a planificação soviética ou a autogestão jugoslava por exemplo [de outros tempos].

Esta ausência de modelo alternativo existe já na realidade (Russa, Jugoslava) mas mais ou menos fantasiado, prolonga-se na sua maneira de gerir as colectividades locais quando estes partidos de esquerda alternativa chegam eleitoralmente à frente.nas eleições regionais ou locais. Por exemplo, “PDS Die Linke” pôde participar na gestão da cidade-Estado de Berlim sem que a diferença se visse muito, sem que se possa falar de um modelo inovador de gestão da coisa pública. Do mesmo modo, há já muito tempo que um município comunista já não é mais considerado em França como um elevado lugar da inovação social ou económica. Está aqui uma outra diferença com a história longa do socialismo.

Este último impôs-se muito frequentemente através do “socialismo municipal”, por conseguinte através de experiências de gestão local da coisa pública que permitiam mostrar na prática a capacidade em inovar radicalmente e de romper – mas sem violência – com as rotinas da sociedade burguesa do tempo. Mas nunca mais se viu, nestes últimos anos, que estes partidos “da esquerda da esquerda” tenham conseguido realmente inovar desta maneira. Por este facto, as experiências de gestão municipal de Barcelona e Madrid que começaram este ano vão ser decisivas: haverá, tal como antes, verdadeiras inovações? Haverá nesta ocasião a invenção de um socialismo municipal para o século XXI ?

Está a ser prudente quanto ao futuro destas formações. Será que nos vai falar “da frente das esquerdas” como o tem feito recentemente a France culture numa série de emissões que estão disponíveis?

A falar verdade, a tendência não é uniforme. Alguns destes partidos continuam a descer eleitoralmente à medida do desaparecimento da sua velha base operária (como “o Partido comunista Boémia-Moravia” na República Checa). Outros mantêm-se como Die Linke sem estar a ter êxito em conseguir sair realmente para fora da sua área histórica, apesar de serem hoje mesmo e desde há já algum tempo, a oposição de esquerda “à Grande coligação” (CDU-CSU-SPD) no poder na Alemanha. Outros foram totalmente entravados pelos mecanismos eleitorais, como o Partido de esquerda em França. Todos os partidos permanecem finalmente como sendo as segundas ou terceiras facas da sua vida política nacional. Podemos, que foi dado durante um certo tempo pelas sondagens como o primeiro partido espanhol está hoje, sempre de acordo com as sondagens, caído para águas bem menos gloriosas.

No fundo, o único partido desta família que teve êxito a furar [e saír da sua própria área ]  ao ponto de tornar-se o primeiro partido do seu país é Syriza. Mas para chegar a este resultado, foi mesmo assim  necessário uma crise económica sem precedentes em nenhum país europeu em tempos de paz, e três eleições de crise (duas  em 2012, e uma em Janeiro de 2015) que fizeram totalmente de voar em estilhaços a ordem eleitoral estabelecida na Grécia desde o regresso à democracia. O eleitorado grego não é assim diferente dos eleitorados dos outros países da antiga Europa do oeste. É necessário realmente muito para fazer mover o eleitorado para os extremos, e mais ainda para as extremas-esquerdas.

Apesar destes obstáculos, estes partidos situados à esquerda da social-democracia podem aproveitar-se da desintegração em curso desta última. Com efeito, todos estes anos de crise económica mostraram que a social-democracia não tinha realmente nada de novo a propor em matéria de luta contra a injustiça social, e que estava  completamente assente sobre posições que se podem resumir “num neoliberalismo de rosto humano”. O mandato presidencial para cinco anos de François Hollande é típico de um retrocesso deste socialismo majoritário sobre um neoliberalismo de pretensões só muito vagamente humanitárias. A presidência do Eurogrupo, tal como é exercida pelo social-democrata neerlandês Jeroen Dijsselbloem representa também uma ilustração perfeita desta realidade do socialismo maioritário, totalmente vergado sobre “o consenso de Bruxelas”. Sem estar a falar dos propósitos difamatórios tidos todo este verão por um Martin Schulz, Presidente social-democrata do Parlamento europeu, contra Syriza.

Este movimento para a direita das direcções social-democratas pode chegar a frustrar tanto a parte do eleitorado social-democrata mais à esquerda como pode conduzir a  situações como a do actual Parido Trabalhista britânico. Com a eleição de um sobrevivente improvável da ala esquerda do partido dos anos 1980, Jeremy Corbyn, os simpatizantes e militantes expressaram claramente que não teriam  mais nada a ver com a linha do “ New Labour”.  Em vez de se juntarem e criarem  um novo partido à esquerda do Partido trabalhista, o que teria sido de toda a maneira difícil de impor devido ao sistema eleitoral britânico, os trabalhistas agarraram a ocasião que (muito imprudentemente) lhes era oferecida pelas elites trabalhistas do “ New Labour” para subverterem o partido a partir do interior. A reacção um tanto desmedida de David Cameron que trata o novo líder dos trabalhistas como sendo “um perigo para a segurança nacional” testemunha de resto o facto de que os partidos de governo têm o hábito de funcionar como um clube de pessoas razoáveis fortemente aderentes ao neoliberalismo. Não concebem mesmo mais que possa existir uma oposição real entre eles sobre este ponto.

(continua)

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Ver o original em:

http://l-arene-nue.blogspot.pt/2015/09/les-gauches-nont-le-choix-quentre.html

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