CARTA DO RIO – 76 por Rachel Gutiérrez

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Minha intenção era a de apresentar hoje a resenha do livro de Ana Maria Machado, Um Mapa Todo Seu, que narra a dramática história de amor vivida, no final do século XIX, por Joaquim Nabuco e Eufrásia Teixeira Leite, a famosa aristocrata e mulher de negócios ousada demais para os padrões de uma sociedade regida pela ideologia patriarcal.

Por maior que seja o meu interesse em retornar a esse momento da nossa história e à “sinhazinha emancipada”, personagem fascinante estudada também em outros livros que, graças ao de Ana Maria Machado fui estimulada a descobrir, acontecimentos extraordinários do Brasil de hoje me obrigam a abordar o que talvez possamos chamar de uma nova onda feminista.

O absurdo projeto de lei 5069, de autoria do presidente da Câmara Federal, ninguém menos do que Eduardo Cunha, ora ameaçado de afastamento do cargo e perda do mandato, provocou veementes reações que a imprensa se apressou em registrar. Tem-se a impressão de que o velho ditado “há males que vem para bem” nunca foi tão verdadeiro.

Como diz em seu indignado artigo de sábado Rosiska Darcy de Oliveira: Essa lei covarde pretende dificultar a assistência que os serviços públicos de saúde devem prestar a mulheres vítimas de estupro. Entre outras humilhações, dificulta o acesso à pílula do dia seguinte, que tem livrado muitas vítimas do pesadelo de se descobrir grávida de um estuprador. Desde 1940, a gravidez resultante de estupro é razão de aborto legal. (…) O presidente da Câmara dos Deputados se aproveita do pandemônio em que ele mesmo transformou a Casa para tentar voltar atrás em direitos conquistados por várias gerações de mulheres. E o mais grave: Tudo isso diante do imperdoável, do inexplicável silêncio do plenário.

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A Imprensa, no entanto, não ficou calada. Há alguns dias, vários colunistas vem cedendo seus espaços para os movimentos #primeiroassedio e  #AgoraÉQueSãoElas, dando voz a mulheres que protestam. A capa da Revista O Globo de domingo, estampa um grande #meaculpa e indica que “Artistas, músicos, psicólogos e feministas discutem o papel do homem em tempos de protagonismo da mulher com movimentos como #primeiroassedio.” E a própria capa remete para a página 24, onde o título da matéria é simplesmente: SER UM HOMEM FEMINISTA, e cujas vinhetas citam declarações como “Os homens precisam mostrar que existe esse lugar de poder, e se desfazer dele. É preciso romper o silêncio. Poucos admitiram: Eu abuso.” (Fábio Pedrosa. Músico) e “Chega de achar que pequenos abusos são toleráveis. Chega do machismo das rodinhas. Chega de ridicularizar o movimento feminista.” (Pedro Neschling. Ator e escritor).

Que milagre foi esse? Que onda de conscientização e de solidariedade às mulheres foi essa?

No Jornal Folha de São Paulo, em espaço cedido por Alexandre Vidal Porto, uma escritora nigeriana – Cimamanda Ngozi Adichie – teve a oportunidade de escrever sobre “a necessidade de discutirmos mais a desigualdade de gênero no mundo inteiro”; Márcio Tavares d’Amaral, poeta e professor de filosofia, cedeu sua coluna do Segundo Caderno do Globo, do Rio, a uma colega cientista e matemática, que discutiu a tão decantada objetividade atribuída apenas aos homens; Jorge Bastos Moreno, que mantém também no Globo uma coluna sobre política, deu voz à Maria Ribeiro que conta que afirma ser ele o homem mais feminista que ela conhece e alerta para que o verdadeiro feminismo aceite “o fato de que ainda somos culturalmente machistas”.

O jornal O Estado de São Paulo abriu espaço para o #AgoraÉQue SãoElas, e Zuenir Ventura, no Globo de sábado, consciente de que “tudo indica que as mulheres estão fartas da desigualdade e da violência física ou verbal que ainda ronda seus passos”, deu lugar à professora Heloísa Buarque de Holanda que começa seu artigo assim: “Vai que Eduardo Cunha esteja fazendo bem ao feminismo. O fato é que a truculência conservadora e o cinismo inabalável do presidente da Câmara, ao declarar que qualquer projeto sobre o aborto teria de passar sobre o seu cadáver, ao lado de declarações não menos truculentas sobre a homoafetividade, levaram centenas de mulheres, homens e crianças à rua nestes últimos dias no Rio, São Paulo, Brasília, Salvador e Recife.(…)”. A cantora Zelia Duncan, que vem assinando também uma coluna no Segundo Caderno do Globo, por sua vez escreveu: “O nível é tão rasteiro que, além de não conseguirem tirar o pé da ignorância, querem nos obrigar a chafurdar na lama do machismo e permanecer no breu e na sombra dessas decisões.” E revela, com coragem, a primeira vez que sofreu assédio em sua adolescência.

Meu pequeno livro-manifesto, Mulheres / A violência continua, publicado em 2013 e logo reproduzido integralmente pela Viagem dos Argonautas, começa por evocar uma reunião de dez mulheres do grupo Mulherando, nos idos de 1980, quando decidimos descobrir quantas ali presentes “haviam sido vítimas de abuso sexual na infância. O resultado foi uma revelação assustadora: as dez tínhamos sido marcadas, de uma forma ou de outra, por esse tipo de experiência nefasta.”

E sobre a questão do aborto, enviei ao jornal O Globo uma carta, até agora não publicada, nos seguintes termos: Feminista “histórica”, nunca fui a favor do aborto como prática contraceptiva, é claro, mas apenas como um direito das mulheres vítimas de estupro, ou das que são surpreendidas por uma gravidez indesejada, sem condições de criar mais um filho, ou simplesmente desamparadas por seus companheiros. E o que sempre me preocupou e ainda preocupa é a pouca atenção que se dá à responsabilidade dos homens quando as mulheres se veem obrigadas a optar pelo aborto exercendo, numa “situação limite” e dolorosa, a sua liberdade. Convenhamos: se os homens fossem verdadeiros parceiros, elas não engravidariam “acidentalmente”. Mas ninguém fala nisso. Por que será?

Continuaremos lutando e denunciando. Há trinta anos, na página 127 da primeira edição, (1985), de O Feminismo é um Humanismo, escrevi o que voltou a ser verdade neste domingo, 8 de novembro de 2015:  “o movimento feminista recrudesce e se acelera. É impossível renunciar à liberdade.”

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