Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
Revisão de Flávio Nunes
(continuação)
A situação estava certa e rapidamente muito catastrófica em 1942, um momento onde a Grécia e sobretudo a sua capital, conheceu uma situação de fome generalizada sem precedentes, um efeito directo da ocupação alemã. Certamente, a ajuda alimentar permitiu afastar ligeiramente o espectro da fome, pelo menos nas cidades, nota Mazower. Mas a inflação era mais que galopante. O preço oficial do pão (sem estar a falar do preço no mercado negro ) passou de 70 dracmas /kg para 2.350. A moeda nacional já não tinha praticamente nenhum valor: prefere-se então contar em medidas de óleo, de trigo, em saquinhos de quinino da Cruz Vermelha (que não se utiliza forçosamente, dado o seu enormíssimo valor de troca) ou mesmo, em balas e granadas italianas. Sobre a ilha de Corfu, os Italianos trocavam então uma bala contra 3 ovos.

Daí toda a minha motivação de compra em face desta nota a representar (quase) toda uma outra a época. Apenas isto, como o velho mercador viu que eu me interessava por uma relíquia que data da “Ocupação”, acreditou ser bom propor-me imediatamente a seguir, um disco óptico (DVD), contendo as reproduções , os discursos de Michaloliákos, o chefe da Aurora Dourada. “Compreendo, não o queres comprar de acordo, apenas, permites-me dizer o seguinte: depois do malogro de SYRIZA, aí está quem vai ser será a nossa última esperança. Estão a andar bem, estas gentes, acredite! Depois, venha ver-me. Não o aldrabei sobre o preço. Os outros aqui, vendem estes velhos bilhetes um euro a peça, é não importa o quê ”. É verdade, no que se refere a esta velha nota não há fraude, mas quanto aos velhos demónios
A situação grega torna-se assim cada vez mais insólita num sentido retorcido por antecipação. Um desmoronamento lento mas que amedronta, uma vida política atolada no seu Verdun do memorando, apesar dos esforços asseptizados do governo SYRIZA/ANEL, que raio de atmosfera esta . O próprio detalhe converge para a hibris, a começar por esta propaganda de uma publicação “economizante ” e obrigatoriamente de vulgarização, publicada por um grupo de imprensa do Pireu, que a oferece aos seus leitores, uma série de CD que contem as canções de Mános Hadjidákis.
Pobre Mános e assim as suas outras pobres crianças do Pireu, enterrada(s) em 1994, tinha combatido tanto e tinha tanto denunciado os fascismos do seu tempo e de todos os tempos, entre os quais a financeirização extrema das trocas comerciais. Já nessa altura.



A situação grega torna-se cada vez mais consequentemente insólita. Os últimos confrontos, desde há duas semanas, entre os adeptos que se reclamam de um certo anarquismo (com ocupação de salas universitárias por exemplo) e a polícia politicamente dirigida de acordo com o método SYRIZA/ANEL, estes confrontos por conseguinte, (eles) fizeram reaparecer os polícias antimotins (MATE) no centro da cidade. Toda a gente o sublinha e ironiza, não das unidades MATE, mas das declarações feitas por SYRIZA (fora da linha oficial é certo ), anunciando a supressão do MATE, estávamos nas vésperas das eleições de Janeiro passado. O mesmo é dizer, uma eternidade.
Num momento de inacção admiravelmente humano, um homem do MATE sentado sobre um banco perto do parque da Universidade, fazia companhia a uma mulher idosa, conhecida dos lugares e dos outros sem-abrigo como ela. “É muito duro, o meu filho, não o podes imaginar” dizia-lhe ela. Aí está que por detrás das formas irregulares e insólitas da nossa crise, há uma certa humanidade que fica a conta-gotas certamente.

Nos arredores, certos mercadores ambulantes de frutos não se dão mais ao trabalho de vir vender todos os dias, pois outros trabalham sem cessar porque se reciclam os papéis impressos. No bairro, os serviços do município trabalharam afanosamente nestes últimos dias para reparar os vandalismos que atingem os nossos monumentos recentes. É assim que a estátua da poeta Kostís Palamás foi restaurada e tratada até à próxima vez.
A Primavera por fim acabou de chegar. Nos bairros dos estudantes os cafés estão cheios e entre estes jovens felizmente, ninguém atribuiria grande importância aos grandes títulos de certa imprensa de extrema-direita , quando anuncia paredes meias , “a próxima fome generalizada na Grécia, o perigo que os imigrantes representam em conformidade com as profecias da monge (…)” da semana.




Neste momento em Atenas, representa-se Medeia da mitologia grega, a filha de Éétès (rei de Colchide) e de Idyie (a mais jovem das Océanides) como se sabe, uma lenda particularmente sombria, formada de uma sucessão de assassinatos e pontuada de fugas. Salvo que desta vez se trata de uma paródia moderna do mito e da tragédia de Eurípides, fazendo rir e sorrir pelos erros e pelos males da Grécia contemporânea.
Mitologia sempre, mas na Praça da Constituição desta vez, o europeísmo do momento espalha a sua propaganda, sob pretexto de progresso tecnológico virada para o espaço; o tempo dos Impérios, os espacionautas e da meta-democracia além disso, menos a electricidade para os pauperizados. A Europa, terra prometida aos piores fantasmas. E a dois passos da tribuna do Império, o canceroso (ou apresentado como tal) deste mesmo lugar, exibe as suas análises médicas para melhor solicitar a assistência dos transeuntes em bom spacionauta a marcar passo , Atenas, 2015.




(continua)
Reproduzido do sítio greek crisis
Panagiotis Grigoriou, Carnet de notes d’un ethnologue en Grèce, une analyse sociale journalière de la crise grecque. Texto disponível no site greekcrisis, cujo endereço é : http://www.greekcrisis.fr/
18. Caderno de notas de um etnólogo na Grécia- Insólita distopia I

