CARTA DE VENEZA – PERIGO GLOBAL – por Vanessa Castagna

carta de veneza

Na aldeia global, tudo parece afetar-nos, onde quer que estejamos. No sentimento de chocada incredulidade que nos invadiu perante as notícias e as imagens, os alertas desesperados enviados pelo Twitter nas horas do terror, Veneza não assiste apenas à tragédia do vizinho ao lado, mas, apesar do clima envolvente da aparente indiferença de um dia igual a ontem e das azáfamas de sempre, partilha o medo e as preocupações parisienses.

Veneza é sem dúvida um dos lugares sensíveis que merecem a maior atenção perante as ameaças terroristas, que, por declaração do Estado Islâmico, identificam em Roma um dos próximos alvos. E, de facto, em Itália o fortalecimento das medidas de segurança impôs-se de imediato, embora ainda não tenham sido completamente esclarecidas as modalidades operacionais para a vigilância dos possíveis alvos.

No caso de Veneza, reconhecem-se muitos lugares de elevado cariz simbólico que, em situações como a presente, merecem um regime de vigilância específico. Um deles é certamente o gueto hebraico (agora presidiado pelo exército), sendo o mais antigo da Europa (1516) e o que determinou a denominação corrente para indicar os bairros de judeus: o nome Ghetto parece proceder da presença anterior, no mesmo bairro, de algumas fundições para o “ghèto” (fundição) de metais.

Não obstante o cuidado redobrado no aeroporto Marco Polo, os voos de ligação com Paris e com a França não foram cancelados e o alerta gerado na estação de Santa Lucia por uma mala esquecida no cais de um comboio procedente de Paris, no sábado passado, revelou-se inconsistente após a intervenção de agentes especialistas em explosivos.

Porém, ontem transformou-se em luto a preocupação por uma jovem veneziana de 28 anos, doutoranda na Universidade Sorbonne, que se encontrava no teatro Bataclan com outros italianos aquando do ataque terrorista e de quem se tinha perdido o rasto, por estar a mesma sem telemóvel e sem documentos quando o namorado e os amigos a perderam de vista. A notícia da morte de Valeria Solesin, por enquanto a única italiana falecida nos ataques de Paris, vem tirar a cidade da sua atmosfera de modorra, isolamento e desconexão. Afinal, Veneza também é mundo.

Leave a Reply