24. Caderno de notas de um etnólogo na Grécia – 8 Julho – Eurotismo esfusiante

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Revisão de Flávio Nunes

 

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Quarta. 8 de Julho de 2015

24. Caderno de notas de um etnólogo na Grécia -8 Julho- Eurotismo esfusiante

 

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Às vezes, e mesmo muito frequentemente, as consciências antecipam os factos políticos. Tal é em todo caso a impressão, largamente partilhada, nos quadros SYRIZA desde domingo à noite: “As pessoas doravante estão avançadas mais que nós, quando concebem a ruptura, e isto é claro. Num certo sentido, um resultado menos importante “de NÃO” teria sido mesmo mais facilmente … manejável. Hoje, já não é necessário desiludir …” Dias depois, na Grécia, e já o regresso do ultimato vindo de Bruxelas, vindo da Alemanha. Nazismo azul.

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Imprensa estrangeira, segundo dia 6 de Julho em Atenas

Neste início da semana, os jornalistas da imprensa estrangeira, omnipresentes é necessário dizê-lo em Atenas, praticavam como podiam a técnica da pergunta directa nos passeios. A primeira pergunta segunda-feira era relativa à demissão de Yanis Varoufákis. Respostas incertas, eu também respondi. (Uma vez não são vezes) aos jornalistas de Reuters, quarta-feira de manhã, a actualidade era dominante .

Para simplificar, Tsakalotós, novo ministro das Finanças, não é forçosamente um partidário do absolutismo do euro, como o sublinha Jacques Sapir, todavia uma outra interpretação dos factos e gestos que entendi esta segunda-feira desde SYRIZA… do interior, colocaria Tsakalotos sob a influência de Yannis Dragasákis, o Vice-Presidente do governo.

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Câmaras e jornalistas em frente do ministério das Finanças , Atenas 6 de Julho de 2015

 

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Bandeirolas… esquecidas, das mulheres da limpeza . Ministério das Finanças, no dia 6 de Julho

Em frente do ministério das Finanças, mais ninguém se refere às bandeirolas… esquecidas sobre estes lugares pelas mulheres da limpeza despedidas… pela gestão Samaras e readmitidas precisamente por Yanis Varoufákis. Salvo que para um grande número delas, elas têm dificuldade em chegar ao fim do mês com os 325,88 euros que ganham por mês. “Faz agora mais de 13 anos que somos crucificadas…como o Cristo”, ´ é o que se pode ler na bandeirola .

Infelizmente, os jornalistas estrangeiros não dominam o grego, e assim, o sabor e mesmo a evolução das mentalidades no nosso tão belo país escapam-lhes em qualquer lado. O que agora largamente terá descrebilizado o euro aos olhos de uma maioria da população, é em primeiro lugar o empobrecimento generalizado, depois de um primeiro período de pseudo-crescimento, através das bolhas e do crédito “democratizado”, uma outra maneira para mascarar a baixa dos rendimentos reais… numa vaga de consumerismo delirante das necessidades impostas e globalizadas. Sobre este ponto, a responsabilidade dos cidadãos não é a menor . Salvo que a história das consciências sempre foi cruzada de sestas e… de despertadores bruscos.

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1821 – 1940 – 2015, Revolução, agora. Atenas , 7 de Julho

Em seguida, e não apenas na Grécia, o papel do euro começa agora a ser entendido por muita gente : uma arma de destruição massiva das economias, dos direitos sociais, das soberanias e da democracia, ao sabor … do mais belo prazer das elites alemãs. Praça da Constituição em Atenas, os slogans desta última semana testemunham: “Não ao novo fascismo alemão – o do euro”. E ainda que a zona euro se mantenha por agora (até Agosto?) de momento preservada (não houve GREXIT na terça-feira 8 de Julho!), esta… moeda de macaco ou antes de autómatos, ao mesmo tempo nacionalista num sentido para bom proveito das elites de Berlim e dos seus peões na Europa, é uma excelente correia… de distribuição da mundialização, e finalmente uma antecâmara sombria para os futuros tratados (e tratamentos), por exemplo Transatlânticos. Crematórios financeiros do século XXI … abertura próxima. Os marxistas diriam, sem nenhuma margem de dúvida, que se trata de mais uma discrepância e em demasia do capitalismo, excepto, que nós já não estamos no capitalismo, do meu ponto de vista, mas estamos antes precipitados na sua pior (e última?) mutação, cientismo … automatizado além disso.

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Não ao novo fascismo alemão . Atenas , 4 de Julho

Mesmo graffiti em frente do guichet suposto automático de um banco na Praça da Constituição , acompanhado do slogan: “Vale melhor estar livre sob o dracma, que antes escravo sob o euro”.

Por conseguinte as mentalidades galopam realmente neste momento. Os nossos Tsipriotas, tentariam mesmo… conter a brecha, na sequência de um encontro dos chefes dos partidos com excepção do Aurora Dourada, um comunicado redigido numa formulação suficientemente bem-educada, “incita o Primeiro-ministro a encontrar um terreno de entendimento com as Instituições, chegando um acordo que não viole o espírito e a carta do sentido “de NÃO” e que não seja animado pela injustiça social, reconhecendo ao mesmo tempo a necessidade de reestruturar uma parte da dívida grega”. Teoricamente, seria… muito mesmo bonito.

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Não há dívida, somente a Haye. Atenas no dia 6 Julho

Um outro novo slogan na Praça da Constituição, diz “NÃO à dívida” e reclama ao mesmo tempo justiça “Apenas Haia ”, indicando o caminho que o governo grego deveria seguir, ou seja apresentar uma queixa junto dos tribunais internacionais, visando nomeadamente as instituições europeístas .

De tudo isto , um início é já adquirido. A estrada será longa. Na Alemanha política, só o partido Die Linke, representando uma pequena parte da população compreende a necessidade da anulação de uma parte da dívida. Na Grécia, esta evidência resulta da verdade nua e mesmo sangrenta.

Na rádio 105,5 (SYRIZA) numa ligação por telefone, o jornalista Yórgos Delastik do diário “Ethnos”, recordava uma vez mais o que os Gregos já sabem, apesar do terrorismo político, mediático e económico que exercem sobre eles (e contra eles), os pilares do sistema: “92% dos milhares de milhões dos planos ditos de ajuda à Grécia, foram entregues directamente aos bancos, sabendo de imediato que a referida dívida, é em parte ilegal e visivelmente não reembolsável. A isto chama-se sempre de fraude e estas pessoas são, dizendo-o de forma muito gentil, … verdadeiros agiotas. Mais grave ainda, em 2012, os seus empregados aqui colocados (Venizélos em primeiro lugar), consentiram uma certa diminuição da dívida, lesando unicamente as caixas das pensões de reforma gregas, os hospitais, as universidades e fico por aqui . As reformas dos Gregos… foram cortadas em dois, ou mesmo em três, a exemplo dos salários enquanto os bancos da muito vasta Europa foram salvos. É já uma das razões da muito larga vitória do “ NÃO””.

 

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Imprensa grega e Jeroen Dijsselbloem depois do ‘NÃO’. A 6 de Julho de 2015.

 

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Transportes sempre gratuitos. Atenas, 6 de Julho de 2015.

 

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Linha quase vazia. Metro Atenas em 6 de Julho de 2015

 

Os transportes em comum em Atenas estão sempre de acesso livre e gratuito, enquanto os drones da hipérbole (em grego é também a exageração) obrigarem (ilegalmente) a Grécia a não abrir os seus bancos, os quais, já não seriam completamente gregos (noutros lugares a situação não é melhor). Mesmo assim, em certos momentos, as linhas estão praticamente vazias.

A vida económica reduz o seu ritmo à medida que os dias passam, numerosas empresas estão na situação de desemprego técnico, pondo os seus empregados em licenças pagas, ou mesmo às vezes, sem pagamento. De acordo com as minhas informações directas, um empresário conhecido de Atenas, pagou com um certo atraso os salários aos seus empregados, tirando-o das suas contas pessoais. Contudo, a sua empresa (em boa saúde económica), já não tem mais receitas e também já não paga aos seus fornecedores . É assim que todo o pessoal está desde esta segunda-feira em licença (paga), esperando a sequência.

(continua)

 

Reproduzido do sítio greek crisis

Panagiotis Grigoriou, Carnet de notes d’un ethnologue en Grèce, une analyse sociale journalière de la crise grecque. Texto disponível no site greekcrisis, cujo endereço é : http://www.greekcrisis.fr/

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