CARTA DO RIO – 78 por Rachel Gutiérrez

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Hoje, finalmente, pretendo me refugiar no romance de amor e desamor, de encontros e desencontros, ilusões, desenganos, esperanças, frustrações e um fatal desentendimento que acabou por separar Joaquim Nabuco de Eufrásia Teixeira Leite, retratados por Ana Maria Machado em Um mapa todo seu.

O livro é formado por 29 capítulos relativamente curtos, além de um epílogo e uma nota aos leitores, menções aos documentos e outras fontes de pesquisa, e agradecimentos às Bibliotecas e Fundações que facilitaram o trabalho da romancista. A epígrafe é uma fala de Rick, personagem de Humphrey Bogart, ao se despedir da jovem e bela Ingrid Bergman no famoso filme Casablanca, (1942), dirigido por Michael Curtis, um clássico que apaixonou várias gerações. Epígrafe diferente e perfeitamente adequada porque a história vivida por Nabuco e Eufrásia, como a de Bogart e Bergman, não terá o esperado happy ending.

Tudo começa numa romântica viagem em um transatlântico que partiu do Rio para a Europa em 1873. Pequenos flash-backs dos capítulos seguintes nos dão as origens dos personagens que serão fulminados pela paixão enquanto o navio singra as águas “de Iemanjá e de Poseidon”. Ele está com 22 anos, ela, com 21. Ele é pernambucano, de família ilustre e provavelmente destinado à política, como seu pai, o magistrado e Senador José Tomás Nabuco de Araujo Filho, a quem mais tarde consagrará o livro Um Estadista do Império. Ela, de Vassouras, Estado do Rio de Janeiro, aristocrata rural e herdeira riquíssima, que irá se tornar uma das primeiras investidoras e empresárias do Brasil, vivendo mais na Europa do que aqui, principalmente em Paris, onde um de seus palacetes de cinco andares, próximo ao Arco do Triunfo, o número 40 da Rue Bassano, no 5º arrondissement, continua intacto talvez dividido em apartamentos.

A família do moço era tradicionalmente liberal, a da moça, ferrenhamente conservadora. Mas o pai de Eufrásia, ou “Zizinha”, Joaquim José Teixeira Leite, um latifundiário pouco convencional e menos escravocrata do que o resto da família, tendo perdido o único filho varão, educou as duas filhas mulheres para a independência e o trato dos negócios. Graças a isso, Eufrásia e Francisca, cinco anos mais velha, que ficaram órfãs a partir de 1872, foram capazes de contrariar as expectativas e desejos dos tios e parentes ambiciosos, que pretendiam submetê-las a casamentos arranjados e ao confinamento habitual das senhoras daquela época. Escolheram viajar e eventualmente morar no exterior, se assim lhes aprouvesse. Desde cedo, quem revelou maior talento para uma carreira de empresária e financista foi a bela Eufrásia.

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E foi por essa moça tão diferente das donzelas frágeis do seu tempo, tão altiva, livre e ambiciosa que o jovem bacharel em Direito, mais tarde jurista e historiador, diplomata e brilhante tribuno, defensor e grande herói da causa abolicionista se apaixonou perdidamente. Logo que chegaram `a Europa, Joaquim (conhecido nos salões como Quincas o Belo, que tinha fama de  galanteador) comunicou ao pai seu precipitado noivado e sua intenção de casar-se o mais rápido possível com a rica herdeira. Após alguma hesitação e cartas com sábios conselhos, o pai consente. Mas do lado de Eufrásia, além da irmã mostrar-se totalmente contra aquele casamento, começam a surgir grandes dúvidas sobre o comportamento um tanto leviano de Joaquim, causadas por notícias sobre seus chamados flirts e talvez, acima de tudo, pelo temor de perder a liberdade.  Após exaltada cena de ciúmes, houve um primeiro rompimento.

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Mas o amor era mais forte. E ao longo de muitas viagens, de reencontros e desencontros, de rupturas e reconciliações, passaram-se 14 anos! Nabuco, desde cedo engajado na luta pela Abolição da nossa vergonhosa Escravatura, foi diplomata, morou em Londres e em Washington, mas sempre que pôde, foi ao encontro da amada e ela ao dele, e isso se deu em vários países, mas principalmente na capital da França, a esfuziante Paris do fim do século XIX. Ele sempre insistia em marcar a data do casamento, mas Eufrásia continuava a se esquivar. Encontraram-se também no Brasil. Um dos períodos mais felizes foi quando, no ano de 1885, deram um jeito de passar um mês inteiro num mesmo hotel no Rio de Janeiro, na Barra da Tijuca. Pressionada, então, pela família, Eufrásia mais uma vez afasta-se de Nabuco, sem contudo romper a relação.

A vida de político, jornalista, escritor e diplomata não rendeu fortuna, como se poderia esperar, ao brilhante tribuno que, ao contrário, teve de enfrentar, muitas vezes, sérias dificuldades. E a família de Eufrásia suspeitava que ele quisesse apropriar-se do dinheiro dela, o que de modo algum fora jamais sua intenção.

O romance de Ana Maria Machado vai num crescendo nesse ziguezaguear dos percalços e acontecimentos, dos sofrimentos e dramas vividos por esses amantes dilacerados até chegarmos ao capítulo 26, o do triste desenlace, a meu ver o ponto culminante de todo o livro.

No ano de 1887, percebendo as dificuldades pelas quais passava o seu amado, Eufrásia teve a ideia de oferecer-lhe um empréstimo, que chamou de criação de uma sociedade, para que ele fundasse um jornal onde poderia escrever o que quisesse. Sua carta foi extremamente carinhosa e cuidadosa para não melindrá-lo, mas o orgulhoso homem público a recebeu como uma ofensa infamante.

Lê-se na página 200:

Numa sociedade em que o dote fazia parte do contrato de casamento, não havia qualquer fiapo de restrição ou ressalva ao fato de que um pai pagasse a um futuro genro uma soma considerável, para levar sua filha de casa, e com essa medida lhe entregasse o controle e o comando desse dinheiro. Mas não passava pela cabeça de ninguém que uma mulher decidisse empregar como bem entendesse, inclusive entregando ao homem que amava, uma quantia que ela mesma administrava, sem com ele se casar. Ou seja, sem lhe passar também a gerência total de seus bens.

Nabuco não perdoou a Eufrásia a generosa oferta. Dessa vez, o rompimento foi definitivo.

Ela jamais se casou, ele, dois anos depois, casou-se com Eveline Torres Soares Ribeiro, moça de excelente família, bem-dotada, com certeza, mas muito diferente de uma mulher de negócios, dona de sua vida e de seu dinheiro, como a milionária Eufrásia Teixeira Leite que, ao morrer, (em 1930) vinte anos após a morte de Joaquim Nabuco, deixou toda a sua fortuna – acrescida do que herdara de Francisca, (morta em 1899) – à filantropia, salvo alguns “mimos” para  parentes, e pensões para os mendigos de sua rua de Paris.

… os moradores de Vassouras ganharam o que barões e baronesas tinham legado às duas irmãs, e que Zizinha (Eufrásia) tão bem multiplicara ao longo da vida. Mas tinham de seguir instruções detalhadamente precisas sobre a destinação a dar à fortuna que recebiam: educação, saúde, segurança pública, inovação tecnológica.

E é possível visitar em Vassouras, além do hospital que leva o nome de Eufrásia Teixeira Leite, o busto esculpido em bronze, na praça principal e o esplêndido museu em que se tornou a Casa da Hera, onde ela nasceu e passou a infância.

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