DILEMAS DA VIDA – por Adão Cruz

 

DILEMAS DA VIDA

por Adão Cruz

Há dois ou três dias, a Inês, grande amiga nossa que por vezes resolve limpar de fio a pavio a casa das Figueiras e vesti-la de Natal e Páscoa, embora a Rosa Maria tenha tudo sempre impecável, telefonou à minha irmã dizendo que andava um rato dentro de casa, coisa que não acontecia há anos. A Eva ficou em pânico. Não chamou a PJ, mas avançou logo com todas as pesquisas e com todas as hipóteses de extermínio. Percorremos a casa toda e não tivemos a mais pequena dúvida. Caganitas aqui e ali, bem como alguns bombons amendoados todos roídos. A Eva tinha lá na cabeça, guardada de outros tempos, uma arma secreta, umas placas de cola com cheiro a qualquer coisa que os atraía e onde ficariam presos. Ao outro dia conseguiu comprá-las. Preparou a emboscada e no dia seguinte lá estava aprisionado um ratito. Eu, que não gosto de matar seja o que for, fiquei a magicar e não consigo situar-me numa posição que me deixe a consciência tranquila. Lembrei-me então de um belo texto da minha querida amiga, Andreia Dias, de Arouca, grande bióloga de prestígio internacional a cujo doutoramento em Barcelona eu assisti por videoconferência. Já não sei onde o tenho, mas recordo-me de lhe ter respondido mais ou menos nestes termos: Que beleza Andreia, este teu texto, e então a osga! A maneira cientista e humana ou humana e cientista como falas e escreves sobre os bichinhos é uma lição que não se esquece. Permanece mesmo agarrada a nós. Por mim, noto que fiquei a gostar mais deles. Nunca fui um assassino profissional de animais, mas em catraio matava pardais e melros com uma espingardita de chumbo, e matava as galinhas para a minha mãe, degolando-as.  Não matava nem deixava matar as cobras, sardões, sapos ou insectos, mas operava-os, anestesiados com éter, para observar as suas entranhas vivinhas, cosendo de seguida a incisão. O que é certo é que sobreviviam, aparentemente sem sofrimento.  Porém, ficava sempre uma pequena amargura que me deixava inquieto, sentimento que se agigantou com o tempo. Hoje, quase não consigo matar uma mosca. Mas…as formigas, Andreia! São verdadeiros genocídios! Ainda há dias me ofereceram um pão-de-ló de Ovar, fresquinho, que eu deixei na sala da noite para o dia. As formigas ainda não têm telemóvel, penso eu, mas vieram todas as formigas da Areosa, de Campanhã, da Pasteleira, da Boavista, eu sei lá! Foi o bolo e tudo o que o envolve directamente para o lixo. As formigas que foram para o lixo e as que matei com insecticida, devem contar-se por muitos milhares. A quem posso pedir a absolvição de tão mortífero acto, e como posso evitar futuros genocídios destes, Andreia? E os ratitos? Ensina-me a enfrentar esta desanimalidade. Todos eles têm mães, irmãos, filhos, netos, como nós, embora, infelizmente para eles, tenham a mania de invadir tudo o que é dos outros, como os americanos.

 

2 Comments

  1. Sim, matar um animal é duro, muito duro. Já matar um qualquer humano desgraçado, uma simples trivialidade.
    Não consegui matar uma minha cabrinha – lareta de nome – que morreu (há mais de 70 anos) de velha e incapaz de se mover ou alimentar. Percebi depois, quando compreendi o que sofrera, que deveria ter sido anestesiada e morta e o que sofreu ainda me pesa na consciência.
    Hoje tenho em permanência na varanda comida e água para os pássaros que adoro ver chegar, deliciarem-se e partirem.

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