27. Caderno de notas de um etnólogo na Grécia – 15 Julho- Aqui jaz SYRIZA ? II

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Revisão de Flávio Nunes

(continuação)

 

Pouco antes do meio-dia (15 de Julho), Nadia Valaváni (ministro delegado da Economia) demitiu-se, enquanto Zoé Konstantopoúlou, Presidente da Assembleia suposta Nacional, exortou os deputados a não se renderem face ao golpe de Estado e face à chantagem.
Os acontecimentos pressionam-se e empurram-se face à saída de socorro da história. Praça da Constituição espezinhada pelo nazismo azul da UE e de Berlim eternal, os manifestantes de tipo novo começam a aparecer. Estes Syrizistas indignados, manifestam-se com raiva e determinação, alguns chegaram mesmo a queimar a bandeira… do seu partido. O novo slogan que se inscreve agora no mármore da Praça da Constituição é o seguinte: “Aqui jaz SYRIZA, o partido que eu outrora apoiava”. As forças especiais da polícia (MATE – Polícia de choque) aliás reencontraram todo o seu espaço em frente do Parlamento. Aqui jaz então um certo o SYRIZA.

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Aqui jaz SYRIZA. Praça da Constituição, 13 de Julho

 

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Regresso das unidades da Polícia em frente ao Parlamento. Atenas, 13 Julho

 

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Novos manifestantes. Praça da Constituição, 13 Julho

A estratégia da Plataforma de Esquerda parece desenhar-se: tomar o controlo do partido e relegar o governo Tsipriota para a categoria de electrão “livre” do memorando. Isto estaria quase feito. Afirmá-lo é prematuro. Contudo, na quarta-feira (15 de Julho), um texto assinado por 109 membros do Comité Central de SYRIZA (sobre um total de 201 delegados) e imediatamente publicado pela imprensa apela à unidade de SYRIZA e ao respeito dos compromissos adoptados antes das eleições e aquando do último congresso do partido.
“ No dia 12 de Julho teve lugar em Bruxelas um golpe de Estado. Este provou que o objectivo dos líderes europeus era a exterminação de um povo para fazer disso um exemplo, este povo tinha sonhado com a continuação por um outro caminho, para além e por fora do modelo neoliberal da austeridade então extrema. Realizou-se pois um golpe de Estado dirigido diretamente contra toda a conceção da democracia e da soberania popular.”

 

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Alexis Tsípras e Panagiótis Lafazánis. Unidade em 2013

“O acordo com “as instituições” foi o resultado de ameaças diretas e do estrangulamento económico, introduzindo assim um novo memorando, cujos termos do controlo exercido serão ainda mais pesados e humilhantes, um desastre para o nosso país e para o nosso povo.” “Concebemos certamente a situação, dito de outra maneira- as pressões asfixiantes exercidas sobre a parte grega aquando das negociações, no entanto, nós consideramos que os orgulhosos “NÃO” de todo um uma povo no referendo, não autorizam ao governo a submissão á chantagem e ao ultimato dos credores. Este acordo não é compatível nem com as ideias nem com os princípios da esquerda, mas sobretudo, não é compatível com as necessidades das camadas populares. Esta proposta não pode por conseguinte ser aceite pelo povo, nem pelos quadros de SYRIZA. Pedimos a convocação de uma reunião imediata do Comité central e convidamos os membros, os quadros e os deputados de SYRIZA, a salvaguardar a unidade do partido com base nos compromissos que têm sido os nossos desde Janeiro de 2015, e sobre a posição assumida no último congresso de SYRIZA. ”, eis pois o texto na íntegra.

 

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Não ao IV REICH. Atenas, 2010-2015

 

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Plano-B. NÃO ao euro. Atenas 2010-2015

 

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Não vivamos como escravos. Atenas, 2010-2015

 

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Handicapés e manifestantes. Atenas, 2010-2015

Além disso, vinte delegações regionais SYRIZA, posicionaram-se abertamente da mesma maneira, e isto é apenas um início. O memorando III terá selado em certa medida o destino de SYRIZA, e também o do Europeísmo. Pétros, um vizinho com que me encontrei na quarta-feira de manhã, tem a mesma posição:

“SYRIZA, em todo o caso e tal como o conhecíamos, acabou . Este memorando é um genocídio. Nós não o deixaremos fazer, com um SYRIZA novo, com um outro movimento político e sobretudo entre nós mobilizando a nossa nova consciência, faremos tudo para mobilizarmos as consciências, faremos tudo para resistir e para sair da UE. Para já, vai ser necessário sair da zona do Euro de maneira refletida e preparada, não de qualquer modo. E é necessário que se compreenda de uma vez por todas que a via atual é a da morte assegurada enquanto a outra maneira, será talvez difícil, salvo que a esperança pode voltar a ser uma realidade”. Ainda há seis meses, Pétros, eleitor SYRIZA, pensava que a Europa era então um quadro natural. Nada disso agora e nunca mais.

A tragédia política e inegavelmente pessoal de Alexis Tsípras, teve o grande mérito de fazer mover as linhas do Europeísmo, na Grécia, como noutros lugares. Aquando da reunião da Plataforma de Esquerda, Panagiótis Lafazánis insistiu sobre a falsidade… largamente paga das sondagens. “Acreditem-me, todas estas sondagens sobre a questão da imagem supostamente positiva da UE e do Euro são pagas para serem conscientemente falsas; sobre isto é necessário estarmos conscientes”, precisou.

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Reformados numa manifestação . Atenas, 2010-2015

 

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Costas Lapavítsas via Skype. Forum para saír do euro e da União Europeia . Atenas.

 

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Vida grega . Atenas, 2010-2015

Costas Lapavítsas, economista e deputado SYRIZA (Plataforma de esquerda), aquando da sua intervenção terça-feira à noite (14 de Julho), insistiu sobre dois pontos (já conhecidos pelas suas posições defendidas frente aos jornalistas). “De imediato, devo sublinhar, é a primeira vez na minha carreira de economista que encontro uma tal convenção de acordo. Não somente, é de tipo neocolonial, ninguém dirá o contrário, mas sobretudo, sobretudo infelizmente, este acordo comporta por algumas das suas formulações e enviesamentos de frases, uma vertente abertamente vingativa e punitiva, para além mesmo de qualquer lógica económica (mesmo de tipo neocolonial ), porque é assim que a elite da Alemanha pensa “resolver a questão grega ‘”.

(continua)

Uma série de Panagiotis Grigoriou
Tradução Júlio Marques Mota
Revisão Flávio Nunes
Texto original publicado pelo sítio greek crisis
Panagiotis Grigoriou, Carnet de notes d’un ethnologue en Grèce, une analyse sociale journalière de la crise grecque. Texto disponível no site greekcrisis, cujo endereço é : http://www.greekcrisis.fr/

Caderno de notas de um etnólogo na Grécia -15 Julho- Aqui jaz SYRIZA ? I

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