O GEBO – de RAUL BRANDÃO

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Os Pobres
The Project Gutenberg EBook of Os Pobres, by Raul Brandão

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Title: Os Pobres

Author: Raul Brandão

Contributor: Guerra Junqueiro

Release Date: March 17, 2007 [EBook #20841]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

***

(1867 - 1930)
(1867 – 1930)

II

O GEBO

 

Heis de tel-o encontrado esse velho gordo, de cabellos brancos estacados e um ar d’afflicção que faz riso e piedade. Tomba ás vezes na rua, levanta se, e, todo enlameado, olha p’ra os lados e chora; depois caminha esbaforido. Parece que vae gritar, esse ser molle e gordo, de cabellos brancos estacados, e, de subito, baixinho, pede-vos esmola. Tem um riso de humilhado e o aspecto d’uma bola de sebo–de cabellos brancos estacados. É o Gebo. É um gebo por ser picaro e rôto e por a desgraça o ter calcado aos pés até o tornar ridiculo.

Triste existencia sem odio e sem gritos. A vida não n’a entendia e a cada empurrão tinha um ar espantado e afflicto de quem não comprehende. Que mal fizera? que mal fizera? Pois a desgraça faz rir? o soffrimento faz rir?

E em torno as boccas escancaravam-se, ao verem-n’o gordo, pedinchão e desgraçado.

As peores ruinas resumem-se n’esta secca phrase–ser infeliz. Ha seres que nascem com uma sina–amargar a vida. Tudo lhe corria tôrto, até as coisas mais banaes e mais reles, as coisas que para os outros nem mesmo existem, e elle punha-se a olhar para a desgraça, atarantado e estupido. Que mal fizera para soffrer?

Alem de desgraçado, este homem fôra sempre picaro: assim no globo passam existencias ignoradas de soffrimento e de bondade, que não deixam o mais simples vestigio, como os veios d’agua escondidos e que no emtanto são a vida da terra.

Mesmo posto a chorar, a sua mascara, de cabellos brancos estacados, fazia rir.

Sempre a suar, quasi sem saber gritar nem saber queixar-se, o Gebo tinha um coração igneo. Era d’estas creaturas a quem um montão de desgraças torna ainda mais ridiculas: a ruina, a quebra, a miseria, a fome. Enlameado pela vida fóra, resignado e chorão, elle ahi vae…

–Ó Gebo!

E todos se riam ao vel-o chorar d’afflicção. Diziam uns:–Que não fosse tolo!–E os pobres, a quem elle tanta vez valera, gostavam de o vêr calcado e humilde como a terra dos caminhos. Qual é a razão porque a desgraça alheia consola a nossa propria desgraça, dizem-me?…

A tresuar, afflicto, depois de espesinhado, ainda esse sêr molle e gordo, aos quarenta annos, cria na existencia como as arvores e as creanças crêem.

Em que hora aziaga encontrou a má sorte que nunca mais o deixou? Ha creaturas em quem a desgraça se escarrancha no cachaço, e é p’ra sempre! p’ra toda a vida! Nunca mais as larga. Viera a quebra, afflicções sem conto, ainda mais negras que o coração dos outros. Enganavam-n’o, com a alegria de o verem rebaixado e perdido, empurrão d’aqui, empurrão d’acolá, aos tombos por esse mundo.

Era casado o Gebo e tinha esta felicidade: uma filha. Oh uma filha!… Uma filha sempre prende a existencia! uma filha pequenina sempre tem nas mãosinhas uma força!

Assim esse velho ridiculo e gordo tambem fôra feliz outr’ora. Era d’estes lares apagados e sumidos, onde a vida corre com a monotonia d’uma fonte, sempre egual e prompta a apagar todas as boccas sequiosas. Uma casinha velha, um quintalorio com seis arvores, um fio rumoroso d’agua e as janellas abrindo para a sombra amiga das fructeiras. Alli era a felicidade. Dão-nos as arvores toda a sua sombra: nunca nos enganam.

Muito tempo mentira á mulher, que ia vivendo illudida. Ria o Gebo em casa, com o coração torcido, para que ellas fossem felizes mais algumas horas–ultimas horas tiradas á desgraça. Até que um dia succumbiu:

–Eu não te queria dizer… Mas ó mulher! ó mulher!…

–Que é? que foi?

–Estamos perdidos, estamos perdidos…

–Perdidos?!

–Sim, estamos… E agora? agora? Ninguem me vale, ninguem se importa. Tenho pedido, tenho andado… e já não posso! Estamos perdidos, mulher!…

–Estamos perdidos?

–Sim…

–Tu é que tens a culpa, não tens mesmo finura nenhuma. Riem-se de ti. Todos te enganam e ainda por cima se riem de ti. Anda, vae!… Tu que queres? Que ha-de ser de mim e da pequena? Nós temos culpa das tuas tolices, das tuas desgraças?…

–Não, mulher, não, bem sei…

–Anda!

E elle voltava, todo o dia corria esbaforido, até que uma noite a mulher viu-o entrar, sem chapéu, enlameado, exhausto–e de cabellos brancos estacados. A ingratidão embranquecera-o. Era ao crepusculo. Tombado, como uma bola de gordura, tremia abalado pela dor, monologando baixinho:

–Oh a minha filhinha!… E todos se riram de mim, todos!… Ninguem se importa. Quem quer saber da desgraça dos outros? Ai a minha filha!

Começou uma vida desorientada e feroz. Parecia que de todos os lados havia vozes a clamar, a escarnecel-o:–ó Gebo! ó Gebo!–Nunca mais houve paz na terra para elle: mesmo no seu lar tinha certo a toda a hora os ralhos da mulher desvairada e as lagrimas silenciosas da filha. Oh essas horas ferreas em que olhára em torno perdido e só vira seccura e risos! essas horas tinham-lhe deixado suor d’afflicção para o resto dos seus dias. Tudo se arrazára. E curvava-se sob as palavras da mulher, amachucado, sem forças para luctar, quebrado pelos desenganos e pela indifferença dos outros.

–E agora? agora? perguntava-lhe ella.

E elle cahido:

–Agora não sei… Agora morremos todos á fome.

Batera em vão a todas as portas, anniquilado, sem idéas e sem forças. Só sabia chorar, molle e grotesco, emquanto a mulher, que a desgraça seccára, lhe atirava improperios, gritos:

–Mas levanta-te! procura! salva-nos!

Anda Gebo! E elle lá sahia, tornava aos amigos, pedinchão, desnorteado, atraz de emprestimos, de demoras, trocando as palavras e desatando de subito a esbracejar com gritos e soluços.

Heis-de tel-o encontrado esse velho gordo, de cabellos brancos estacados, aos empurrões na vida e com um ar d’afflicção que faz riso e piedade.

–Ó Gebo!

–Anh?

–Conta!

E elle logo, em palavras rôtas, precipitadas, bebendo as lagrimas:

–Ó Senhor!… Tanto tenho andado e tanto tenho soffrido! Quanto mais faço peor, inda é peor… E já não posso mais… Acabou-se! Só Deus sabe pelo que tenho passado, as desgraças que tenho rapado e as afflicções, para arranjar ao menos o triste pedaço de pão para a bocca… O peor é d’ellas. O meu coração estala, tanto tenho soffrido. Trago a noite cá dentro. Que se lhe hade fazer? Curtir a desgraça. Anh? Tenho pena de ter sido honrado…

E fica com a bocca aberta, chorão, de cabellos brancos estacados.

***

In Os Pobres

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Os Pobres
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