A CANETA MÁGICA . JOSÉ RODRIGUES MIGUÉIS- 2-por Carlos Loures

2-LISBOA A PRETO E BRANCO? 

As gerações mais recentes têm uma imaginação muito dominada pelo audiovisual. Há uma generalizada tendência para imaginarmos o passado que não vivemos, nomeadamente a primeira metade do século XX, como sendo uma realidade descolorida e amorfa. Somos influenciados pelos filmes do cinema mudo que nos mostram pessoas vestidas de branco, preto ou cinzento. Como se sabe, só em 1929, com o advento do cinema sonoro, a cadência de projecção foi fixada em 24 fotogramas por segundo. Quanto à cor, só em 1933 se começou a usar. No período do cinema mudo e a preto e branco, a maioria dos filmes era rodado com cadências entre os 16 e os 20 fotogramas por segundo. O que não permitia que, na projecção, as personagens se movessem a um ritmo normal. Há relativamente pouco tempo, numa sala repleta, onde se via um filme de Chaplin ou de Buster Keaton, uma criança perguntou em voz alta por que razão «antigamente as pessoas andavam todas aos pulinhos». A pergunta fez rir toda a gente, mas exemplifica o que quero dizer – desde o daguerreótipo à fotografia e ao cinema mudo e a preto e branco, o século XIX e as primeiras década do XX, implantaram-se no imaginário colectivo como épocas descoloridas. A televisão a cores, que a Portugal só chegou em 1980, veio reforçar essa ideia. Porém, se conseguirmos ultrapassar o handicap das fotografias e dos filmes da época, talvez possamos imaginar a Lisboa nas primeira décadas do século passado – uma cidade muito colorida e luminosa, com muita gente pobre – que também encontra maneiras próprias de se divertir – e com uma burguesia estouvada, gastadora e ostentosa. Vamos ocupar-nos de um homem, de um escritor que dedicou uma parte substancial da sua obra ao pulsar da sua cidade, ao crisol lisboeta onde se misturam gentes vindas de todas as partes – a cidade cosmopolita, a cidade bizarra, a cidade provinciana… Dedicou especial atenção aos humildes, à gente simples sobre a qual não se usa escrever crónicas. E fê-lo pesando as palavras em balança de ouro, como se de príncipes falasse – José Rodrigues Miguéis, um grande escritor português, muito esquecido, muito ignorado, quase nada lido.

 

 

NASCE NA RUA DA SAUDADE 

É numa cidade assim como a que acima foi descrita, de grandes assimetrias sociais, mas tudo menos cinzenta, que no dia 9 de Dezembro de 1901, José Rodrigues Miguéis nasce. Será numa cidade assim que irá viver a infância, a adolescência e a juventude.

Seu pai, porteiro no Hotel Francfort de Santa Justa, é um imigrante galego, a mãe trabalha a dias em casas burguesas.. Gente humilde, mas que não vira a cara ao trabalho e investe tudo o que pode no futuro dos filhos. José é o mais novo de três irmãos. Fernando, o mais velho, combaterá na Grande Guerra e virá a morrer durante uma epidemia de tifo que assolou Lisboa. Irene, a do meio concluirá com distinção o curso de Piano do Conservatório Nacional. Morrerá solteira com noventa e um anos.

É ainda criança quando a família sai de Alfama e vai morar para um andar da Avenida Almirante Reis. Mas as primeiras recordações de infância que José Rodrigues Miguéis regista em Escola do Paraíso, decorrem em Alfama – vendo da janela «chegar e partir navios todos os dias, com um rasto de lágrimas e o esvoaçar de adeuses no azul».

Em algumas das suas páginas, recorda os acontecimentos mais marcantes da vida política nacional – o Regicídio, a implantação da República, a Grande Guerra, o Sidonismo e o advento da Ditadura militar. O jovem José frequenta os Liceus Camões e Gil Vicente, bem como o Colégio Francês. Bom aluno, corresponde inteiramente às expectativas dos seus pais. Em 1921 matricula-se na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. É um aluno brilhante. E inicia uma vida intelectual paralela à do estudo das sebentas e dos códigos. Conhece Jaime Cortesão, António Sérgio, Câmara Reys, José Gomes Ferreira, Irene Lisboa, Raul Proença, Raul Brandão, Bento de Jesus Caraça e tantos outros – faz parte do grupo da Seara Nova. Começa a colaborar em jornais como O Diabo, Diário Popular, Diário de Lisboa e República. Não só escreve, como desenha de forma primorosa. O jornalismo é, segundo José virá a dizer, «a minha única vocação revelada». Está a ser modesto, evidentemente. Mas explica até que ponto a atmosfera dos jornais, do cheiro da tinta de impressão, ao clima de nervosismo permanente e ao «arfar das máquinas de impressão», o fascina. 

 (Continua amanhã)

 

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