A tomada de posse, realizada depois da idolatrada homenagem que a Diocese do Porto, onde foi bispo auxiliar, lhe promoveu, no final da “Festa de Cristo Rei e Senhor do universo” – que querem suas excelências reverendíssimas dizer com este palavreado vazio de humanidade e de Teologia, a de Jesus?! – como a sugerir que cada bispo titular de diocese é rei e senhor do território diocesano, e o bispo de Roma é rei e senhor do universo, foi mais um acto escandalosamente solene, cheio de pompa e circunstância, mas vazio de Humanidade. Para cúmulo, contou com a presença de uma mão cheia de bispos idos do Continente, com destaque para o núncio apostólico em Lisboa. E também de muitos clérigos da diocese do Porto que aproveitaram para passear até aos Açores, em nome da amizade e da gratidão por tudo o que ele fez e, sobretudo, pelo muito que não fez, nem fez fazer enquanto auxiliar do Porto.
No entender do próprio, e nisso coincide com o parecer de cada um dos seus pares, o novo bispo dos Açores merece tudo isso e muito mais, ou não seja, a partir desse dia, o senhor n.º 1 de todas as suas ilhas. É o monarca absoluto religioso de toda a Região Autónoma dos Açores. E a prova é que tudo o que lá é agente de poder político e económico-financeiro local, regional, eclesiástico esteve em peso nesta tomada de posse. O salto de bispo auxiliar do Porto, para bispo de todas as ilhas dos Açores tem muito que se lhe diga e faz jus ao sobrenome “Lavrador” com que o próprio foi registado, ao nascer. Por isso, ninguém viu, não pôde ver, naquela tomada de posse, uma nesga de Evangelho de Jesus, muito menos, de Jesus, o filho de Maria, o camponês-artesão de Nazaré. Este Lavrador, bispo dos Açores, não tem nada de Jesus. Pelo menos, esta tomada de posse é o que nos revela. Com dor e mágoa de escreve. Se Evangelho houve, só mesmo o de S. Paulo, o único que exalta Cristo, o Poder invicto e seus representantes na terra, e ignora por completo Jesus, o ser humano pleno e integral, e os povos das nações, nas suas dolorosas condições de vida, nos antípodas das condições de vida dos agentes dos três poderes.
Todos os bispos residenciais são de Cristo, não de Jesus. Só mesmo o Cristo justifica aquelas liturgias, presididas por cada um deles, aquelas vestes extravagantes, aqueles anéis, aqueles báculos, aquelas mitras com que todos se apresentam como desajeitados actores no palco da respectiva catedral, onde sobressai a cátedra episcopal. Chegam a causar náuseas, semelhantes liturgias solenes, protagonizadas por homens solteirões, sem família, tendencialmente homossexuais, tamanho o horror que nutrem pelas mulheres, tidas por eles e pelo seu Cristo como as filhas de Eva, as múltiplas máscaras da Grande Tentação, já que, para este tipo de eunucos por força da Lei eclesiástica do Celibato dos padres e bispos, o sexo é pecado e até a maternidade é apenas tolerada, com vista à procriação. No seu conjunto, constituem todas elas, um espectáculo de mau gosto que mantém reféns as populações que se deixam atrair por tais desumanidades e insistem em frequentar aqueles locais eclesiásticos com tudo de sinistro. As quais, de tão cegas de nascença que são, nem chegam a dar-se conta. Fossem desenvolvidas, cultas e veriam toda a podridão que tais encenações ajudam a esconder, século após século.
“Não venho com outro intuito que não seja o de servir”, garante, sem qualquer brilho nos olhos e sem qualquer convicção, o novo bispo dos Açores, no meio de toda aquela pompa e circunstância. Uma contradição em toda a linha. Como servir, com todas aquelas vestes? São assim os servos dos pobres? Só uma boca cheia de hipocrisia é capaz de semelhante aleivosia. Vestido como um príncipe da igreja católica romana, prosseguidora do Império de Roma, com as populações e os agentes do poder ali a seus pés, como pode dizer com verdade, “Não venho com outro intuito que não seja servir”? A falar assim, na entrada, está visto que confunde servir os pobres com ser servido, aplaudido, idolatrado, adulado, até, pelos pobres. Fica também inequívoco que deixou o Porto para ir passear-se como turista pelas ilhas dos Açores, onde é o único bispo titular. Não para Evangelizar-levantar os pobres contra as causas da pobreza e da exclusão a que estão condenados, de geração em geração.
A confirmar isto mesmo, a diocese dos Açores que acaba de reconhecê-lo, parabenizá-lo, aplaudi-lo como o seu bispo titular, sem nunca antes o ter visto mais gordo, fez questão de lhe oferecer, pelas mãos do bispo cessante, um novo báculo de prata! Vejam lá quanto D. João Lavrador vai servir as ilhas dos Açores e suas populações dispersas, desgarradas e desprotegidas, expostas a climas prenhes de surpresas, ora ventos incontroláveis, ora cheias que arrastam frágeis habitações que contrastam com os requintes do paço episcopal e da catedral.
Como se vê, está tudo de pernas para o ar. O bispo chega e diz uma coisa e, logo na tomada de posse, faz outra, precisamente o contrário do que disse a sua boca, que não o seu agir, o seu praticar de todos os dias de clérigo de proa, nunca mais ser humano, filho de mulher. Mas não são assim todos os clérigos, separados das mulheres, dos homens, dos povos das nações onde sempre integram o vértice da pirâmide social? Nunca os clérigos são da base, só do vértice, porque não são mais seres humanos, filhos de mulher. Apenas clérigos, filhos do poder, no caso, o poder eclesiástico. Uns descarados, mentirosos institucionais compulsivos e incorrigíveis. Chegam a meter dó!
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