SAI DA FRENTE, OLHA ELES por Luísa Lobão Moniz

olhem para mim

” O que sentem quando vão bater?” respondem, espontaneamente,

Temos necessidade de deitar fora a raiva ; levava na cara e, eu, ia ficar-me, não?

Se eu disser ao meu pai ele diz bate-lhe também, não és menos que ele, e eu bato para me defender e para não se ficarem a rir.

Foi este o ambiente que encontrei numa aula do 7º ano e numa com alunos surdos-mudos.

Eles irritam-me, dizem coisas que eu não gosto.

Aqui, ninguém põem de parte os diferentes. Os alunos surdos mudos estão bem enquadrados nesta escola que tem professores especializados em linguagem gestual portuguesa.

Todos colaboraram, enquanto durou a sessão sobre maus tratos, e ninguém achou estranho. Ouviu-se “sai da frente, olha eles…”

Perante a pergunta se sabes o que é o racismo, respondem é a cor da pele e assim

o e assim eram aqueles que queriam mandar nos outros porque são mais fortes e são maiores.

Um aluno, maior do que todos os outros, respondeu “eh…não são só os brancos que são racistas , os pretos também são…gostam de gozar quando estão no seu grupo”

Para estes jovens, a realidade social não hesita em enquadrá-los nos grupos de jovens problemáticos, porque são agressivos, porque ficam retidos no mesmo ano de escolaridade, porque não obedecem às regras sociais…

Sem saberem, estes jovens mostraram o que sentiam em relação à sua posição e função na sociedade.

Estes alunos, ou melhor, estas pessoas não querem perder a sua identidade, por isso não querem que se riam deles, não conseguem auto regular as suas emoções e por isso ” deitar fora a raiva” e “eles irritam-me”. Estes alunos confirmam muito do que se tem estudado sobre o poder e o racismo.

Quem bate, quem manda são os mais fortes e não os que têm razão. Na verdade, a violência só surge quando se juntam dois factores : a diferença (preconceito) e a força.

O racismo  não vem só da cor da pele, vem essencialmente da posição que se ocupa na sociedade e dos valores que ela defende.

A Escola tem o dever de se pautar pelos grandes valores universais em que acreditamos. Liberdade, Igualdade e Fraternidade.

A escola dos 26 alunos, por turma, não consegue viver sem a exclusão. Qualquer sinal que seja diferente do esperado é para afastar e não para incluir.

A Escola Inclusiva não tem passado da página do Diário da República.

A comunidade educativa espera que o novo Ministro da Educação não se esqueça que a escola é para todos. O todos somos nós, cada um com a sua especificidade, cada um reconhecido pelo outro, cada um fazendo parte integrante da sociedade que é afinal a nossa sociedade.

Convém não esquecer os Trêsa mosqueteiros “Um Por Todos, Todos por Um”

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