A GALIZA COMO TAREFA – em campanha – Ernesto V. Souza

Pessoalmente, a estas alturas da vida, enquanto se ergue a Cidade Esmeralda do Gaiás, o Prestige ainda deita fios mouros como fados, a Galiza rural continua mal comunicada, a Universidade continua de ama de cria do caciquismo, os galegos emigram e as elites estão debruçadas na mesma síndrome de sono que já descreveu Anhón, continuo a pensar o mesmo que sempre pensei a respeito das lutas, leias e liortas normativas e dos que as mantêm, alimentam e encirram: que é mais acertado deixar a gentinha fazer, respeitar as escolhas de cada quem e deixar o pessoal trabalhar no que se vai podendo que incomodar, censurar ou atacar. Com tal de que não apoiem ou sirvam os atávicos poderes escuros da Galiza, tudo suma e nada resta.

Acho, porém, sinceramente, que a nossa sociedade mudou e com ela é preciso mudar posicionamentos, argumentos, atitudes e táticas. É preciso revisar conceitos e mais ainda recuperar textos e ideias que já há muito dormem nas prateleiras.

Dos três tão desqualificadores quanto inquietantes argumentos que empregam ainda os defensores do soberanismo político e literário que à vez rejeitam a escrita comum ou achegada com a do Português na Galiza para escarnecer lusistas (origem neofalante dos utentes, desprezo ou mesmo desconhecimento da tradição literária galega e esnobismo elitista ou desprezo pela massa popular) considero que (se alguma vez, ou parcialmente, foram mais certos que engenhosos) hoje não são mais certos nem mais engenhosos por três motivos:

O medre do Associaciativismo com pessoal formado (e em boa medida desencantado) do ativismo político de base que está a conformar, hoje por hoje, um tecido social que não tem parelha desde os tempos das Irmandades da Fala, tratando de integrar em dinâmicas populares a formação humana a todo nível.

O crescimento do reintegacionismo que nas últimas décadas evidencia uma dupla linha de engrosse de filas: pessoal maduro de origem galego falante e de longa trajetória galeguista que se achega na procura de uma alfabetização que lhe foi negada mais os poucos mocinhos de liceus (radicados em espaços rurais ou vilegos monolíngues) tradicionalmente também galeguistas e radicais que terminam os seus estudos -e contra os seus desesperados esforços- conscientes da sua condição de ágrafos.

O espalhamento de uma tendência no reintegracionismo que conjuga a defesa da ortografia do português com um independentismo (mesmo rejeitamento declarado) dos modelos lisboetas e que aposta por uns modelos linguísticos e literários mais ajeitados com a tradição e consoantes à trajetória política e literária da Galiza.

Considero há muito tempo que o problema da Literatura galega e da Língua não é de ortografia quanto de modelo. De desvio provocado por termos abandonado, na procura de um presente normal, “normalizado” e uma pragmática “possibilista” não apenas a nossa relação com o mundo de língua portuguesa, senão também e à mesma vez o elo com o passado que acreditamos defender. Perdemos, no caminho, o sonho de futuro com que se encetou a reivindicação da língua e a cultura galega.

Creeran algús, que, porque como digo tentey falar d’as cousas que se poden chamar homildes, é por que m’esprico n’a nosa lengoa. N’é por eso. As multitudes d’os nosos campos tardarán en lêr estos versos, escritos á causa d’eles, pero sô en certo modo pra eles. O que quien foy falar un-ha vez mais d’as cousas d’a nosa terra, n’a nosa lengoa, e pagar en certo modo o aprecio e cariño que os Cantares gallegos despertaron en alguns entusiastas. Rosalia de Castro, “DUAS PALABRAS D’A AUTORA” em Follas novas, 1880

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