CARTA DE VENEZA – UMA CIDADE – HOTEL – por Vanessa Castagna

carta de veneza

Parece inexorável a progressiva transformação do centro histórico de Veneza num local vocacionado apenas para a receção turística. Diariamente núcleos habitacionais são convertidos em bed & breakfasts e alguns dos hotéis históricos da cidade vão ganhando espaços anexando divisões de edifícios limítrofes que deixaram de estar habitados. Da mesma forma, vários conventos abandonados estão a ser reconvertidos em estruturas recetivas de luxo. As condições de compra e arrendamento, de resto, tornam o mercado imobiliário inacessível para a maior parte da população, que se tem visto obrigada a mudar-se para Mestre ou arredores.

A desertificação da cidade é um fenómeno demográfico que já começou há mais de meio século, tendo em conta que na década de 50 a população residente ultrapassava as 164.000 unidades, ao passo que atualmente esse dado perfaz menos de 56.000 habitantes, de acordo com informação de setembro de 2015.

Em épocas de férias, como no verão ou na época do Natal, precisamente, esta realidade torna-se mais evidente, um vez que nessas alturas do ano não se pode contar com o avultado número de trabalhadores que se deslocam diariamente da terra firme e dos estudantes universitários que costumam animar a cidade. Veneza fica patentemente uma cidade à venda.

Como é sabido, para os que ainda resistem e continuam a morar nas ilhas que compõem o centro da cidade, o que vai fazendo cada vez mais falta são os serviços para os moradores, que têm vindo a ser substituídos por lojas de souvenirs e bugigangas, enquanto proliferam os cafés e os restaurantes, aguentam-se as farmácias. O artesanato tradicional e mais autêntico também vai deixando o lugar a um artesanato sofisticado e/ou globalizado, mais aliciante para as massas de turistas. O gradual desaparecimento do comércio tradicional contribui inclusivamente para o eclipse de uma concorrência saudável e o aumento geral do custo de vida, aliás já sensivelmente mais elevado do que noutras cidades, devido às intrínsecas especificidades do transporte de mercadorias na laguna.

Apesar da magia evocada pela iluminação natalícia, com o intuito de recriar um “Natal difuso” segundo as palavras do Presidente da Câmara de Veneza, nesta quadra a melancolia não deixa de se insinuar pelas calli, na sua maioria especialmente escuras e sombrias nestes dias curtos de inverno. E essas mesmas luminárias, como já se tornou hábito em tempo de crise, deixam entrever a próxima etapa do calendário turístico, porque em breve hão de ser recicladas transformando-se histrionicamente em decorações de Carnaval.

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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