A Liberdade, a cultura, a democracia e a justiça social são as nossas paixões.
A ideia de que as catástrofes, na natureza ou na economia, constituem oportunidades para, partindo do zero, criar uma nova ordenação da realidade, é um dos pilares das teorias de Milton Friedman, o Prémio Nobel da Economia de 1976, amigo de Pinochet e mestre dilecto de Vítor Gaspar. Friedman viu o golpe militar chileno de 1973 e as inundações de Nova Orleães em 2005, como oportunidades únicas para, em cima das ruínas, edificar novas estruturas – erradicando impulsos humanistas, atavismos solidários, protecções sociais encorajadoras da preguiça e inibidoras do espírito empreendedor. Estas ideias radicais atingiram como um raio os cérebros do actual executivo governamental e é vê-los com o ar impante de quem descobriu a pólvora a debitar uma teoria que levada à prática se traduz em terrorismo puro – faz vir à superfície todas as pulsões animais que milénios de evolução comportamental tentaram sublimar. Ao vermos, após o filme que mostrámos ontem sobre a «Doutrina do Choque», o documentário que hoje apresentamos – «Catastroika», podemos antever o que espera a Grécia, Portugal, a Europa, se prevalecer esta política que a depressão económica desencadeou. O capitalismo selvagem em todo o seu esplendor – uma sociedade em que os espertos e os insensíveis ao sofrimento alheio triunfarão. Ética, princípios, compaixão, solidariedade? Tralha que é preciso varrer para debaixo do tapete da memória.