DE POL POT AO ISIS – as raízes do terrorismo – por JOHN PILGER – III

john pilger - VIII

Selecção, tradução, notas, selecção de imagens e montagem por Júlio Marques Mota

john pilger

De Pol Pot ao ISIS: as raízes do terrorismo

John Pilger, From Pol Pot to ISIS: “Anything that flies on everything that moves” *

johnpilger.com, 8 de Outubro de 2014

John Pilger, From Pol Pot to ISIS: The blood never dried **

johnpilger.com, 16 de Novembro de 2015

(conclusão)

ISIS tem um passado e um presente similares. De acordo com a maior parte dos estudos e dos cálculos feitos por universitários, a invasão do Iraque de Bush e de Blair em 2003 provocou a morte de pelo menos 700.000 pessoas — num país que não tinha nenhum precedente de jihadismo. Os curdos tinham assinado acordos territoriais e políticos; os sunitas e os Chiitas apresentavam diferenças sectárias s e de classe, mas estavam em  paz; o casamento intergrupo era comum. Três anos antes da invasão, eu pessoalmente conduzi um carro através do Iraque sem nenhum medo, encontrando sobre a estrada pessoas orgulhosas, acima de tudo, de serem Iraquianos, os herdeiros de uma civilização que parecia ser, para eles, uma presença, uma pertença.

Bush e Blair reduziram tudo isto a migalhas. O Iraque é agora um lar do jihadismo. Al Qaida — como “os djihadistes” de Pol Pot — agarraram a oportunidade fornecida pelo mecanismo “do choque e do medo ” e da guerra civil que se seguiu. A Síria “rebelde” oferecia recompensas ainda mais importantes, com as redes de armamentos da CIA e dos estados do golfo, a logística e o dinheiro que passava pela Turquia. A chegada de recrutas estrangeiros era inevitável

Um antigo embaixador britânico, Oliver Miles, escreveu que, “o governo [Cameron] parece seguir o exemplo de Tony Blair, que ignorou os conselhos importantes do Ministério dos Negócios Estrangeiros, do MI5 e o MI6, sobre a nossa política no Médio Oriente — e em especial as nossas guerras no Médio Oriente — que foi um dos principais factores de recrutamento de muçulmanos britânicos para o terrorismo daqui”.

ISIS é um produto de Washington, Londres e Paris, que, conspirando a fim de destruir o Iraque, a Síria e a Líbia, cometeram um crime épico contra a humanidade. Como Pol Pot e os Khmers Vermelhos, ISIS é a mutação procedente do terror Ocidental propagado por uma elite imperialista, de modo nenhum desencorajada  pelas consequências das acções tomadas à  distância,  geográfica e culturalmente.

A sua culpabilidade é tabu “nas nossas” sociedades, e os seus cúmplices são os que suprimem esta verdade crítica.

Há 23 anos, um holocausto isolou o Iraque, imediatamente após a primeira guerra do golfo, quando os EUA e a Grã-Bretanha contornaram o Conselho de Segurança das Nações Unidas e impuseram “sanções “punitivas à população iraquiana — reforçando ironicamente a autoridade interna de Saddam Hussein. Tudo isto se assemelhou a um cerco medieval.

[Para saber mais sobre este embargo e sobre a guerra que se lhe seguiu, veja o artigo do mesmo autor intitulado La Guerre Invisible (John Pilger – 2010), disponível em:

 http://partage-le.com/2015/07/la-guerre-invisible-john-pilger-2010/]

Quase tudo o que servia à manutenção de qualquer estado moderno, na sua gíria, “foi bloqueado” — desde a clorina, para tornar a água potável, às canetas das escolas, passando pelas peças para as máquinas de raios X, os analgésicos comuns e os medicamentos para combater os cancros anteriormente desconhecidos, nascidos da poeira dos campos de batalha do Sul, contaminados pelo urânio empobrecido.

Exactamente antes do Natal de 1999, o departamento do comércio e da indústria em Londres restringiu a exportação de vacinas que serviam para proteger as crianças iraquianas da difteria e da febre amarela. Kim Howells, subsecretário de estado parlamentar do governo Blair, explicou o porquê,  porque, “as vacinas para crianças”, disse ele, “eram susceptíveis de ser utilizadas como armas de destruição em massa”

O governo britânico pôde evitar o insulto devido à cobertura à mediática do Iraque — globalmente manipulado pelo ministério dos Negócios Estrangeiros — que acusava Saddam Hussein de tudo.

A coberto de um programa “humanitário” fantoche de petróleo contra alimentos, 100$ foram atribuídos a cada Iraquiano, para viver durante um ano. Este montante devia ser suficiente para pagar a totalidade das infra-estruturas da sociedade e os serviços essenciais, como a electricidade e a água.

“Imagina… ”, disse-me o assistente secretário geral da O.N.U, Hans Von Sponeck, “… que se contrapunha esta soma irrisória à falta de água potável, ao facto de que a maioria dos pacientes não pode pagar os tratamentos e ao simples traumatismo de que cada um tem que se desenrascar por si-só no seu dia a dia e terá um resumo do pesadelo que isto é. E não haja engano, não se enganem, tudo isto é deliberado. Não queria, anteriormente, utilizar a palavra genocídio, mas hoje é uma realidade indesmentível”.

Enjoado, Von Sponeck demitiu-se do seu posto de coordenador humanitário da O.N.U no Iraque. O seu antecessor, Denis Halliday, um membro distinguido pela O.N.U, tinha-se demitido igualmente. “Ordenaram-me ”, disse Halliday, para “pôr em prática uma política que correspondia à definição de um genocídio: uma política deliberada que efectivamente matou mais de um milhão indivíduos, de crianças e de adultos”.

Um estudo do Fundo das Nações Unidas para a infância, a UNICEF, considerou que, entre 1991 e 1998, o ponto mais crítico do bloqueio, houve 500.000 mortes “em excesso” de crianças iraquianas de menos de 5 anos. Um repórter TV conta isso a Madeleine Albright, embaixador dos EUA nas Nações Unidas, perguntando-lhe “o que se ganha  vale a pena? ”, Albright respondeu-lhe, “pensamos que sim que o que se ganha vale a pena”.

Em 2007, o oficial britânico responsável pelas sanções, Carne Ross, conhecido sob o nome “do Sr. Irak”, diz a um Comité de selecção do Parlamento, “[os governos dos EUA e Britânico] privaram efectivamente uma população inteira de todo e qualquer meio de subsistência”. Quando entrevistei Carne Ross três anos depois, este estava esmagado de remorsos e de arrependimentos. “Sinto-me envergonhado”, disse-me ele. Ele é hoje um dos raros lançadores de alertas que nos avisa da forma como os governos nos enganam e do papel cúmplice crítico dos meios de comunicação social na  difusão e na manutenção destas mentiras. “Dávamos [aos jornalistas] informações e anedotas asseptizadas”, disse, “ou impedíamos-los de trabalhar”.

No ano passado, podia-se ler no Guardian este título que não tinha nada que seja fora de comum: “Face aos horrores do ISIS devemos agir”. O dizermos nós “devemos agir” é um espectro que se volta a animar, uma advertência para se suprimir da memória, cuidadosamente, os factos, as lições aprendidas e as lamentações ou a vergonha. O autor do artigo era Peter Hain, o antigo ministro dos Negócios Estrangeiros responsável do Iraque sob Blair. Em 1998, quando Denis Halliday revelou a extensão do sofrimento no Iraque, de que o governo Blair era o primeiro responsável, Hain fez-se passar aquando do jornal da noite da BBC como “um defensor de Saddam”. Em 2003, Hain apoiou a invasão de Blair de um Iraque já fragilizado com base em mentiras colossais. Aquando de uma conferência mais recente do partido trabalhista, qualificou a invasão, passando por cima muito rapidamente, “de problema marginal”.

Eis o que Hain pedia “bombardeamentos aéreos, drones,  equipamento militar e outro apoio” para ser entregue os “que fazem face ao genocídio” no Iraque e na Síria. Isto reforçaria “os imperativos para uma solução política”. No dia em que foi publicado o artigo de Hain, Denis Halliday e Hans Von Sponeck tinham vindo à Londres para me verem. Não ficaram chocados pela hipocrisia mortífera do político, mas lamentaram a ausência perpétua, quase que inexplicável, de diplomacia inteligente visando negociar algum espaço de tréguas.

Por todo o globo, da Irlanda do Norte ao Nepal, aqueles que se olham uns face aos outros e  se consideram mutuamente como terroristas e hereges enfrentaram-se à mesa das negociações.  Porque não agora no Iraque e na Síria? Em vez disso, assistimos a uma verbosidade insípida e quase sociopatológica espalhada por Cameron, François Hollande, Obama e sua “coligação dos voluntários” que prescrevem mais violência, largada a mais de 10.000 metros de altitude, sobre lugares onde o sangue dos precedentes conflitos nem sempre está seco. Estes dirigentes parecem estar a saborearem a sua própria violência e estupidez e com a mesma satisfação com que estão prontos para derrubar o seu único aliado potencial de valor, o governo Sírio.

Isto não é nada de novo, como estes ficheiros publicados, porque houve uma fuga dos serviços de informações Britânico-EUA, bem o mostram:

“A fim de facilitar a acção das forças libertadoras [sic]… um esforço especial deve ser fornecido para eliminar certos indivíduos chave [e] proceder à perturbações internas na Síria. A CIA está preparada, e SIS (MI6) tentará provocar sabotagens menores e incidentes [sic] na Síria, trabalhando na ajuda de contactos com indivíduos… um grau necessário de medo… dos conflitos transfronteiriços [postos em cena] fornecerá um pretexto de intervenção… a CIA e SIS deveriam utilizar… as suas capacidades tanto psicológicas como de acção no terreno para fazer crescer a tensão”.

Isto foi escrito em 1957, mas isto também teria podido ser escrito ontem. No mundo do Império, não altera nada de fundamental. Em 2013, o antigo ministro dos Negócios Estrangeiros francês, Roland Dumas, revelou que “dois anos antes da Primavera árabe”, tinham-lhe dito que estava a ser planificada uma guerra na Síria. “Vou dizer-vos algo”, digo numa entrevista à cadeia francesa LCP, “estava na Inglaterra dois anos antes da violência na Síria para outros negócios. Encontrei altos funcionários britânicos que me confessaram estarem a preparar algo na Síria. A Inglaterra preparava a invasão dos rebeldes na Síria. E pediram-me mesmo, embora já não fosse Ministro dos Negócios Estrangeiros, se eu gostaria de participar nessa acção … É para vos dizer que esta operação vem de muito longe, ela foi preparada, concebida, organizada” [1].

Os únicos inimigos efectivos de ISIS diabolizados pelo Ocidente  são — a Síria, o Irão, Hezbollah e agora a Rússia. O obstáculo é a Turquia, “uma aliada ” e membro da NATO, que conspirou com a CIA, o MI6 e os mediavelistas do Golfo para fornecerem apoio aos “rebeldes” sírios, aos que  hoje se chama ISIS. Apoiar a Turquia na sua velha ambição de dominação regional derrubando o governo Assad implica uma guerra clássica de grande dimensão e o desmembramento aterrador de um dos estados etnicamente mais diversificados do Médio Oriente.

Uma trégua — tão difícil negociar como de pôr depois em prática — é a única saída deste labirinto; se for feito de modo diferente, as atrocidades de Paris e de Beirute reproduzir-se-ão. Para além de uma trégua, os autores e supervisores da violência no Médio Oriente — os Americanos e os Europeus — devem eles mesmos se “des-radicalizar ” e dar provas de boa vontade para com as comunidades muçulmanas alienadas, por toda a parte, incluindo sobre os seus próprios territórios.

Deveria haver aqui uma cessação imediata dos envios de material de guerra a Israel, e o reconhecimento do estado da Palestina. O problema da Palestina é a ferida aberta mais purulenta da região e a justificação mais citada para o advento do extremismo Islâmico. Osama Ben Laden tinha-o expresso claramente. A Palestina oferece também esperança. Façam justiça aos palestinos e começar-se-á a mudar o mundo que os envolve.

Há já mais de 40 anos, o bombardeamento Nixon-Kissinger ao Camboja gerou uma torrente de sofrimento de que o país ainda não se refez. A mesma coisa é verdadeira para o crime cometido sobre o Iraque por Blair e por Bush, e para os crimes da NATO e “da coligação” na Líbia e na Síria.

Com um timing impecável, o último livro egocêntrico de título satírico de Henry Kissinger que foi publicado, tinha como título  “Ordem Mundial”. Numa crítica servil, Kissinger é descrito como “tendo sido um criador – chave de uma ordem mundial que permaneceu estável durante um quarto de século”.

Ide dizer isso ao povo do Camboja, Vietname, Laos, Chile, Timor oriental e de  todas as outras vítimas do seu “trabalho de criação”. É apenas quando “” reconhecermos os criminosos de guerra que estão entre nós e pararmos de negar a verdade que o sangue poderá começar a secar.

john pilger - IX

________

Texto disponível em :

Versão em inglês

http://johnpilger.com/articles/from-pol-pot-to-isis-the-blood-never-dried

Versão em francês:

a) http://www.les-crises.fr/de-pol-pot-a-isis-les-racines-du-terrorisme-par-john-pilger/

ou ainda no sitio Partage:

b) http://partage-le.com/2015/11/de-pol-pot-a-isis-les-racines-du-terrorisme-par-john-pilger/

________

[1] Nota do Tradutor.  Veja-se a citação completa no blog  Le salon Beige – Blog quotidien d’actualité par des laics catholiques cujo endereço electrónico é:

http://lesalonbeige.blogs.com/my_weblog/2013/06/la-destitution-de-bachar-el-assad-se-pr%C3%A9pare-en-angleterre-depuis-deux-ans.html

________

Para verem a Parte II deste trabalho baseado em artigos de John Pilger e montado por Júlio Marques Mota, vão a:

DE POL POT AO ISIS – as raízes do terrorismo – por JOHN PILGER – II

Leave a Reply