38. Caderno de notas de um etnólogo na Grécia – Tempos de destruição III

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Revisão Flávio Nunes

(conclusão)

De acordo com as reportagens do momento, a situação no porto Mytilène é dramática, é agora ocupado pelos imigrantes e pelos refugiados, situação denunciada numa carta aberta do presidente da Autoridade portuária Mytilène Sotíris Zamtrakis.
“A ocupação completa do porto de passageiros de Mytileno pelos imigrantes e pelos refugiados está feita. E também a destruição completa de todas as instalações portuárias. É a partir de agora impossível fornecer os nossos serviços aos passageiros, aos navios de frete ou aos barcos turísticos e de tempos livres. O conjunto da zona do porto foi transformado num vasto depósito de esgotos de lixos onde as pessoas fazem também as suas necessidades à falta de outra solução. O risco sanitário é permanente e de resto bem visível. Os motins e as violências não somente entre refugiados, mas também, entre eles e os habitantes de Mytileno, tudo é apenas uma questão de dias ou de horas ”, (diário Kathimeriní do 4 de Setembro). A história está em marcha e derrota-nos uma vez mais
Nos cafés de Atenas, o ambiente é de amargura. “Privam-nos do nosso país, pelo lado pobres, pelos migrantes, pela parte dos ricos, pela Troika. Já não sabemos sequer como reagir e este Tsipras, demitiu-se para chegarmos a isto às eleições da grande palhaçada. Estas pessoas gozam de todos nós e de tudo”.

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Peça de Teatro: “ Eu quero um país”. Atenas Setembro de 2015

 

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A hora do café feliz e menos caro. Atenas, Setembro de 2015

À hora do café feliz e menos caro em Atenas, numerosos são os que fingem ignorar a gravidade da situação da mesma maneira que ignoram as questões que desta se podem levantar, então fundamentais. Toda e qualquer sociedade democrática e soberana deve controlar o seu território, o seu espaço que é também o do exercício dos seus direitos e estar assim em condições da acolher ou não os outros, ou senão e sobretudo, é também o direito de acolher dignamente.

Os defensores da mundialização, depois de terem destruído deliberadamente as soberanias, as economias e as sociedades, instrumentalizam além disso este enorme fluxo migratório do desesperados, fazendo tanta violência sobre as sociedades europeias, que além do mais está, sob o regime deletério dos memorandos.
A imprensa mainstream da Grécia e de outros lados, de resto, sempre ao serviço do meta-democracia, não hesitou a fazer mesmo um uso quase pornográfico e… necrófilo desta infeliz criança que morta por afogamento foi trazida pelo mar Egeu ( para as costas da Turquia ), para assim se reforçar a sua campanha de propaganda. A hibris reina e o abismo da próxima história em gestação está já em frente das nossas portas.

Sei e sinto que os Gregos das ilhas praticamente esgotaram todos os recursos materiais e psicológicos de solidariedade e hospitalidade. Desde há meses, ou mesmo anos, puderam acolher dignamente estas famílias e estas populações vindas da Síria ou de outras paragens. Já não é agora mais possível continuar a fazer o mesmo … na pior derrota do Estado como das identidades sociais e nacionais que estão extremamente amarradas pelos memorandos que se repetem uns a seguir aos outros. À frente dos meus olhos, a cristalização das mentalidades gregas toma então o andamento de uma vaga arrasadora. Além disso, eleições ou não.

As nossas esquerdas, europeístas ou não, acabam por continuarem a ser bem ignorantes em face do problema de fundo (soberania, democracia, territórios, processo de decisão), e preferem então ignorá-lo. A direita europeísta, não falamos mesmo dela. Infelizmente, tudo isto deixa finalmente demasiado espaço (e palavras) aos neonazis provados da Aurora dourada. Aí está como a pequenez acaba por gerar a enormidade na história dos humanos. Isto não é nada de novo.

Momentos terrivelmente difíceis do grau zero da política. No entanto estamos suficientemente prevenidos: “A Europa ocidental contemporânea, como todo o Ocidente, é hoje caracterizada pela evanescência do conflito político e social, pela decomposição da sociedade política parcelarizada entre lóbis e dominada pelos partidos burocratizados, pela propagação da irresponsabilidade, pela destruição acelerada da natureza, das cidades e do ethos humano, pelo conformismo generalizado, pelo desaparecimento da imaginação e da criatividade cultural e política, o reino em todos os domínios de modos efémeros, dos fast-foods intelectuais e de tudo o que seja universal. Por detrás da fachada de instituições “democráticas” e que só o são de nome apenas, as sociedades europeias são sociedades de oligarquia liberal onde as camadas dominantes se mostram cada vez mais incapazes de gerir o seu próprio sistema no seu próprio interesse (Cornelius Castoriádis, ““Quelle démocratie?”, volume II).

 

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Gatinho, dá-se. Atenas, Setembro de 2015

 

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Junto da Acrópole. Atenas, Setembro de 2015

Uma campanha eleitoral realmente engraçada, uma falsa guerra, uma via…engraçada. Os nossos gatinhos sempre são oferecidos em Atenas no momento em que os migrantes que acampam nos parques desaparecem abruptamente porque vão a caminho para Grande norte europeísta ou para vaguearem sem fim. Os passadores prosperam, certos Gregos também, vendendo por exemplo por cinco euros a garrafa de água aos migrantes que têm sede. Capitalismo finalizado por ausência de ser final.

Os Gregos, quando o podem fazer, deixam também o seu país massivamente. O memorando Tsipras acentuou mesmo esta tendência. As organizações sindicais dos pequenos e médios empresários lançam à sua maneira um último grito de alarme a morte está próxima. Os seus membros muito enfraquecidos preparam-se para praticar a actividade informal em muito grande escala, o que de resto está já quase feito. O cálculo avançado é terrível: mais 63.000 de pequenas e médias empresas farão falência em menos de seis meses, na sequência da aplicação das medidas do memorando III (obrigação de avançar 100% do imposto do ano seguinte designadamente, entre muitas outras medidas), “Diário dos Editores” do 3 de Setembro.

Os Gregos abster-se-ão talvez massivamente nestas eleições, ou se não o fizerem irão votar como para vomitar no sifão da ditadura imposta. Um novo governo do memorando será formado mas para quanto tempo ainda? Sob a Acrópole poucas evidências continuam finalmente ainda intactas.

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Sob a Acrópole poucas evidências continuam finalmente ainda intactas. Setembro de 2015
Tradução Júlio Marques Mota
Revisão Flávio Nunes
Texto original publicado pelo sítio greek crisis
Panagiotis Grigoriou, Carnet de notes d’un ethnologue en Grèce, une analyse sociale journalière de la crise grecque. Texto disponível no site greekcrisis, cujo endereço é: http://www.greekcrisis.fr/

38. Caderno de notas de um etnólogo na Grécia – Tempos de destruição II

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