PROBLEMAS DE ONTEM E DE HOJE QUE JÁ NÃO DISCUTO COM O MEU AMIGO ANTÓNIO GAMA – por JÚLIO MARQUES MOTA – I

júlio marques mota

 

António Gama (1948 - 2014)
António Gama (1948 – 2014)

 

Problemas de ontem e de hoje que já não discuto com o meu amigo António Gama[1]

Introdução

Faz agora um ano que um amigo meu morreu, o António Gama, homem da Geografia Humana. Não sou nem demógrafo nem geógrafo, sou um antigo professor de Economia e seu amigo, sou um cidadão que diariamente passa pelo local que foi a sua última morada enquanto paciente de Oncologia, sou um amigo que não pode deixar de prestar homenagem ao homem de letras e de ciência que ele foi. Um homem de pensamento livre.

Faz hoje um ano que ele morreu. Fez ontem um ano que na alegria que o estertor da morte anuncia que ele me pediu para o libertar das grades da cama que o prendiam, queria sentar-se na cama, queria falar comigo e possivelmente deixar-me da vida, e da sua vida, uma última imagem, a da serenidade. Eram vésperas de Ano Novo. Pessoalmente ele sabia ou pressentia, e eu também, que os seus dias estavam contados, com um fim talvez suspenso até por horas, e ali estava eu a não ser capaz de o libertar da última das grades físicas que na vida o prendiam. E respondeu-me com toda a calma: deixa estar que o meu irmão as tira. O irmão chegou, não as tirou porque ele já cansado, alguns minutos depois, já não o pediu. Horas depois, morreu.

Agora, um ano depois, como antigo professor de economia, sinto uma enorme necessidade de escrever um texto de homenagem ao amigo que embora já se foi, e tanto mais quanto escrevê-lo, significa para mim realizar um desejo, o de me imaginar agora mesmo como economista a analisar e a confrontar com o António Gama uma série de problemas actuais com os de outrora, como se… ele estivesse vivo.

Porém, como cada um honestamente só pode vestir a pele com que se criou, criei-me como economista e é então nesta qualidade que escrevo o presente texto que se pretende venha a ser visto como um texto de homenagem ao António Gama e ao seu trajecto científico, a publicar em A Viagem dos Argonautas[2].

No dia em que morreu, escrevi:

Hoje, um amigo meu morreu. Um homem de uma estatura verdadeiramente fora do comum num meio onde muita gente se pensa como “de excepção” devido à nobreza garantida pelos seus “títulos”, títulos que esse meu amigo não tinha. Mas tinha outros, seguramente.

Hoje, um amigo meu morreu. Um amigo que à Universidade conferiu e entregou todo ou quase todo o sentido da sua vida.

Hoje, um amigo meu morreu. Um amigo que na vida se alimentava sobretudo do grande prazer de ensinar e que daí obtinha, portanto, grande parte da sua alegria de viver.

Hoje, um amigo meu morreu. Um amigo a quem um seu colega espanhol lhe escreveu, já com ele no leito da morte, dizendo que está escrito na memória dos investigadores espanhóis, que com ele trabalharam, e escrito como na pedra o reconhecimento deles pela sua dedicação à investigação e pelo seu rigor de análise que a esta o meu amigo conferia.

E da vivência em comum na Universidade relembro aqui dois detalhes:

Como primeiro detalhe, “ a sua participação no Ciclo Integrado de Cinema Debates e Colóquios na FEUC, em particular numa sessão onde se projectava Kisangani Diary, o mais dramático documentário que já vi. Relembro-o ao lado de Francisco Louçã (ISEG-UTL), Pezarat Correia (FEUC), José Soares da Fonseca (FEUC). E dessa sessão, com o Auditório completamente cheio, relembro a sua leitura sobre os movimentos de populações em África, um continente verdadeiramente à deriva, sobre as deslocações que nem a ONU queria reconhecer.”

Tratava-se de um filme que abordava a tragédia de haver cerca de 80 000 africanos que vagueavam pela selva africana e que interesses económicos das grandes potências levavam a ONU a ignorá-los. Mais tarde, muito mais tarde, haveria um enorme paralelo no Camboja, onde a ordem de Nixon de bombardear este país foi transmitida por Kissinger aos generais com a indicação de dispararem sobre tudo o que mexe, sobre tudo o que voa: ANYTHING THAT FLIES ON EVERYTHING THAT MOVES”.

Como segundo detalhe relembro “a sua participação na elaboração de uma brochura sobre a China, sobre os Left-Behind, publicada sob o título: O CAPITALISMO NA CHINA: AS CLASSES SOCIAIS, AS MIGRAÇÕES E A REPARTIÇÃO DO RENDIMENTO. Relembro aqui as discussões havidas à volta de centenas de páginas a ler, a seleccionar, a traduzir e numa sequência temporal de cronómetro para realizar a brochura que iria ser editada e distribuída gratuitamente no Gil Vicente. Tratou-se de uma selecção, esta que tinha também ela a mão do artista em migrações, em Geografia Humana, que se chamava e já se não chama, António Gama. Uma brochura em que ficou também a sua marca.”

Sentimos também a sua ajuda no estudo sobre as velhas sociedades a desaparecerem, sentimo-la também no estudo dos conflitos dos subúrbios das grandes cidades como foi o caso em França em 2005, sentimo-la também no estudo dos fenómenos migratórios a Leste da Europa onde a sua colaboração foi fundamental na brochura editada sobre o tema.

Aliás sobre a degradação das grandes cidades em França e do racismo nelas reinante participou em 2009 com Sami Nair e Joachim Becker num debate sobre este tema na FEUC.

Desta participação e da sua motivação nas temáticas em questão, aqui vos deixo uma pequena nota:

Sobre este acontecimento do que tenho também pena é de um entrevista que não foi feita a Sami Nair, nosso convidado na FEUC, em conjunto com o economista austríaco Joachim Becker. A história simples e curta vale a pena ser contada, para mostrar a estatura de António Gama e a qualidade da nossa imprensa. Eu e ele propusemos a um dado jornalista que se entrevistasse Sami Nair, um dos maiores especialistas sobre migrações na Europa. Sami Nair chegou a Coimbra pelas 14 horas e partiria para França às 5 da madrugada seguintes para apanhar o avião no Porto, as 7 h da manhã. Um esforço enorme para participar num debate em Coimbra.

Propusemos ao jornalista em questão que o António Gama lhe faria as perguntas a ele, jornalista, e que este as apresentaria ao Sami Nair, conselheiro de Estado em França. Naturalmente assim, porque não seria pensável que um jornalista, nesta cidade em que funcionava como pau para toda a colher, estivesse em condições, sozinho, de fazer uma entrevista à altura do Conselheiro em questão. Para o meu amigo Gama o que era importante era que Sami Nair esclarecesse o leitor português sobre uma série de questões e de problemas que a Europa atravessava e que estavam ligadas à sua própria fragmentação pressentida num horizonte próximo, então, e onde os fenómenos das migrações em massa ganhavam já uma forte dimensão. De novo, Madeleine Albright e agora com a crise económica em cima da Europa. Nesse sentido, o António Gama propôs-se fazer-lhe a lista das perguntas e a acompanhá-lo na própria entrevista, um pouco como seu auxiliar e amigo. Este aceitou e o Gama começou a preparar a entrevista. Depois, na véspera, o jornalista suspende o projecto da entrevista porque a agência para quem trabalhava não estava interessada no assunto. O seu director preferia que nessa tarde cobrisse a reunião da Assembleia Municipal de Coimbra. Foi pena. Evitaram a divulgação de informação importante, evitaram um discurso impertinente e não se questionou a liberdade de imprensa. Como convinha ao sistema, fez-se a censura, por omissão, como agora se costuma dizer, como agora se costuma muito fazer.

Depois desta longa introdução é tempo de olharmos um pouco por dentro para alguns dos temas a que muito se ligou.

1. A decomposição da Europa a Leste – um dos seus temas preferidos onde com ele aprendi um pouco melhor a dimensão da tragédia a Leste criada pela liberação forçada e apressada de toda a região.

Ainda recentemente e na lógica das migrações li um trabalho de Nafeez Ahmed, intitulado O Estado islâmico, cancro do capitalismo moderno onde se pode ler:

“Como o historiador britânico Mark Curtis o descreve minuciosamente no seu livro sensacional, Secret Affairs: Britain’s Collusion with Radical Islam, os governos dos Estados Unidos e do Reino Unido continuaram a apoiar secretamente redes filiadas na al-Qaeda na Ásia central e nos Balcãs depois da guerra fria, e pelas mesmas razões que anteriormente, na sua luta contra a influência russa, e doravante chineses, a fim de estender a hegemonia americana à economia capitalista mundial. A Arábia Saudita, primeira plataforma petrolífera do mundo, continuou a ser o intermediário desta estratégia anglo-americana irreflectida.

Na Bósnia

Curtis relata que um ano depois do atentado do World Trade Center de 1993, Ossama bin Laden abriu um escritório no bairro de Wembley, em Londres, sob o nome “de Advice and Reformation Committee“, a partir do qual coordenou actividades extremistas no mundo inteiro.

Na mesma época, o Pentágono encaminhou por avião dos milhares de moudjahidines de al-Qaeda da Ásia central para a Bósnia Herzegovina, violando assim o embargo sobre as armas imposto pela O.N.U, de acordo com ficheiros dos serviços de informação neerlandeses. Estes combatentes eram acompanhados pelas forças especiais americanas. “O cheikh cego ” que foi condenado pelo atentado do World Trade Center estava implicado profundamente no recrutamento e no envio de combatentes de al-Qaeda na Bósnia Herzegovina.

No Afeganistão

Desde 1994 cerca de e até ao 11 de Setembro, os serviços de informação militar americanos bem como os da Grã-Bretanha, da Arábia Saudita e do Paquistão, forneceram secretamente armas e fundos aos talibans, que protegiam Al-Qaeda.

Em 1997, Amnesty International lamentou a existência “de relações políticas estreitas” entre a milícia talibã no país, que acaba de conquistar Kabul, e os Estados Unidos. O grupo de defesa dos direitos do homem fez referência a relatórios credíveis “sobre os madrasas (escolas religiosas) frequentadas pelos talibans no Paquistão”, indicando que “estas relações podem ter sido estabelecidas mesmo no início do movimento talibã”.

Amnesty relata que estes relatórios provinham de Benazir Bhutto, então Primeiro ministro do Paquistão; este último, hoje falecido, “tinha afirmado que as madrasas tinham sido postas em prática pela Grã-Bretanha, pelos Estados Unidos, pela Arábia Saudita e pelo Paquistão no decorrer de Djihad, a resistência islâmica contra a ocupação do Afeganistão pelos Soviéticos”. Sob a tutela americana, a Arábia Saudita continuava a financiar estas madrasas. (…)

No Kosovo

Mark Curtis indica que a OTAN continuou a patrocinar as redes filiadas à Al-Qaeda no Kosovo no final dos anos 1990, quando as forças especiais americanas e britânicas forneceram em armas e formaram os rebeldes do Exército de libertação do Kosovo (UÇK), entre as quais figuravam recrutamentos moudjahidines. Estes efetivos contavam com uma célula rebelde dirigida por Mohammed al-Zaouahiri, irmão do braço direito de Osama bin Laden, Ayman al-Zaouahiri, que é doravante o líder de Al-Qaeda.

No mesmo período, Ossama bin Laden e Ayman al-Zaouahiri coordenaram os atentados de 1998 contra as embaixadas americanas no Quénia e na Tanzânia desde o escritório de Ben Laden em Londres.

Havia contudo algumas boas notícias: as intervenções da NATO nos Balcãs, conjugadas à desintegração da Jugoslávia socialista, abriram a via à integração da região na Europa ocidental, à privatização dos mercados locais e ao estabelecimento de novos regimes em prol do projecto de canalização trans-Balcãs, destinado a transportar o petróleo e o gás da Ásia central para o Ocidente.”

Quando li isto fiquei boquiaberto a lembrar-me das longas conversas havidas com ele quanto ao papel “criminoso” da Administração Clinton no que diz respeito à desagregação da zona Leste da Europa e em particular ao papel de Madeleine Albrigth. Lembro-me tão bem das críticas duríssimas que contra esta tecia exactamente pela sua política a Leste.

Não vou falar de migrações, mas a enorme estima vivida entre nós, entre mim e o António Gama, e as lembranças levantadas pela leitura do documento acima citado levaram-me a aceitar escrever um texto para esta homenagem ao António Gama, um professor universitário que a doença retirou muito cedo do convívio com os seus amigos e também desta relação especial havida para com a Universidade de que não vestia a “farda” porque a tinha por dentro de si-mesmo, no coração e no cérebro como homem de ciência que era. Sei do que falo quando o afirmo, as múltiplas brochuras feitas por todos nós e quase sempre com a sua participação directa ou indirecta mostram o seu empenho na problemática da história dos povos, nas grandes rupturas da história e na problemáticas sociais que estas implicavam, o seu empenho na busca das razões objectivas que lhes estão na base, por vezes escondidas até por detrás da opacidade com que a realidade historicamente nos é apresentada, o seu empenho, em suma, em descorticar o real, histórico ou presente, para querer agarrar o futuro a partir de quase já amanhã.

(continua)

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[1] Já com este texto preparado vejo agora pelo Expresso, 31 de Dezembro,  que morreu Edward Hugh, um dos autores citados no texto dedicado a António Gama, dos muito bons especialistas em macroeconomia e em demografia que eu conheça. Também aqui se perdeu, e perdemos todos nós, um homem de grande craveira intelectual, um dos melhores analistas da crise europeia. Publicámos no blog A Viagem dos Argonautas vários dos seus textos. Comovidamente, a minha homenagem singela a um homem que me habituei a respeitar e tanto é assim que no dia 28 de Dezembro procurei no seu blog se havia algum texto sobre a situação em Espanha, mas nada. Estranhei o silêncio…percebi agora o seu silêncio desde há meses, desde Maio, desde o seu texto sobre a Grécia, publicado em A Viagem dos Argonautas.

[2] Um outro texto será publicado em livro numa homenagem organizada por colegas seus.

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Leia também Morreu o Professor António Gama – a homenagem de Júlio Marques Mota, em A Viagem dos Argonautas, acedendo ao link:

MORREU O PROFESSOR ANTÓNIO GAMA – A HOMENAGEM DE JÚLIO MARQUES MOTA

 

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