O GRITO DO COIOTE/4

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Luiz Pacheco continua a ser um dos protagonistas desta secção. Apresentamos dois excertos da sua biografia -por Carlos Loures.

Um libertino (libertário?) passeia pela vida

            Ao longo dos seus 82 anos de existência, Luiz Pacheco nunca pretende ser uma «pessoa respeitável». Faz tudo para não merecer essa classificação pela qual tantos se batem durante toda a vida – é preso por três vezes, não por política, mas por crimes de delito comum, «abusa de menores» – embora tanto quanto se saiba não seja um pedófilo (pelo menos, subjectivamente), é preso por crime de rapto e de estupro, alcoólico inveterado, pede dinheiro a toda a gente (chega a pedir esmola pelas ruas), vai aos quartéis pedir restos do rancho para alimentar a numerosa família, falsifica selos, publica textos, teoricamente impublicáveis, de autores que, no entanto, se tornarão famosos – Mário Cesariny de Vasconcelos, Manuel de Lima, Vergílio Ferreira, Natália Correia, Herberto Helder, ganhando o apodo de «editor maldito». Faz repetidas incursões na homossexualidade e diz ter feito sexo com uma cadela… – «proeza» que depois desmente – Tudo isto o sabemos por depoimentos do próprio. Nunca esconde estas coisas e nem há como saber se tudo é verdade – com ele, a profissão de chantagista deixaria de fazer sentido, pois enquanto muita gente inventa heroísmos e esconde o que não é bonito, Pacheco faz gala (e inventa-os?) em cometer actos sórdidos. Embora os que comprovadamente pratica sejam suficientes para lhe ornamentar o currículo. Esta luta incessante pela irrespeitabilidade, numa permanente e dir-se-ia que voluntária, descida aos Infernos, vale-lhe, surpreendentemente, o respeito generalizado da comunidade literária. Não tem nada a aprender com François Villon ou com Bocage. Em todo o caso, é bom que se diga, citando Pacheco em entrevistas, falando dos seus amores por adolescentes – «as miúdas eram mais adultas do que eu, não havia pedofilia» e, outra coisa muito importante, «o libertino tem regras, por exemplo, não se mete com a mulher do amigo». Apesar deste «código deontológico do libertino», não é possível ignorar que algumas das proezas de Pacheco, nomeadamente o seu envolvimento com raparigas menores são hoje, ainda mais do que na época, crimes reprováveis. Porém, sem querer encontrar desculpas, há que contextualizar as coisas – quando comete o primeiro crime de «rapto e estupro» tem 18 anos, só mais quatro do que a «vítima». Casa no Limoeiro. Reincide. Várias prisões, vários filhos – oito – três da primeira mulher, dois da segunda, mais três da terceira. Filhos, delitos e prisões confundem-se. Estão intimamente relacionados.

Porém, de delinquentes estão as prisões cheias. Não é pelas suas incursões no sub mundo e na face oculta da realidade que o recordamos. Porque esta faceta da sua reincidente transgressão das normas sociais, esconde outra mais profunda – a grande qualidade da sua escrita. Luiz Pacheco é um grande escritor. A sua modesta libertinagem tem muito de quixotesco, transmutando acontecimentos sordidamente banais em episódios épicos. Dele fica-nos, além da memória que se vai convertendo em lenda de um ser estranho, irreverente e associal, belas páginas – O Teodolito, por exemplo, é uma obra literária de elevada qualidade. E um grande editor.

Ele, muito provavelmente, rir-se-ia da afirmação que vou fazer (não costumo entrar nas biografias que escrevo, mas para o Pacheco, vou abrir uma excepção). Embora ouvindo as suas casquinadas asmáticas acolhendo esta afirmação, em todo o caso, faço-a – ter conhecido e privado com Luiz Pacheco foi um privilégio.

Os amores e os desamores de Pacheco

 Com 18 anos, Luiz Pacheco arranja o primeiro problema da longa série de problemas em que a sua vida se vai transformar. Tem uma ligação sexual com uma jovem criada de seus pais, Maria Helena Alves, com catorze anos. Um tio da menor processa Pacheco. Mas as coisas parecem arranjar-se – Maria Helena é emancipada e Luiz compromete-se a casar com a moça. Tudo solucionado? Não – Pacheco apaixona-se por Maria de Fátima, estudante de piano em casa de uma vizinha, com a qual não pode ter um namoro convencional dado o compromisso de casamento com Maria Helena. Mas é uma paixão escaldante, com encontros secretos em quartos alugados e casas de passe. A relação clandestina com Maria de Fátima durará de 1945 até 1948.

Em 1947, relacionado com o caso de Maria Helena, é emitido um mandado de captura em seu nome. Refugia-se numa casa que alugara no Mucifal, em Colares, fugindo depois para casa de uma tia, no Campo de Santana. Acaba por ser preso na Estefânia, em casa dos pais. Fica no Limoeiro durante um mês e meio. Em Abril, na sexta-feira Santa, desposa Maria Helena na cadeia – é provisoriamente liberto. No sábado de Aleluia, o jovem casal, parte em viagem de núpcias para a casa do Mucifal, donde vem depois para Lisboa, instalando-se numa casa da Rua Andrade. Porém, o caso não está resolvido. É julgado, acusado pelo crime de estupro e condenado a dois anos e meio, com pena suspensa, por ter casado com a «vítima». Em 1948 nasce Maria Luísa, a primeira de uma «comunidade» de oito filhos. Em Maio de 1950, nasce João Miguel, o segundo. Morre sua mãe, Adelina Maria Machado Gomes. Zanga-se com Maria Helena (que terá sabido do affaire Maria de Fátima?). Mantém uma relação homossexual com um rapaz empregado no Sindicato dos Artistas.

A relação com Maria Helena, que entretanto se formará como enfermeira, piora; no entanto, engravida, enquanto Pacheco arranja outro namoro – agora é Maria do Carmo, a quem a família se apressa a desterrar para a terra, a Sertã. Mas Luiz não perde tempo, já está de olho noutro sarilho, sob a forma de Maria Eugénia, filha da dona da casa onde mora, na Almirante Barroso. A menina tem 13 anos. Em Maio de1958 nasce Fernando António, terceiro filho de Luiz e de Maria Helena. A evidência de um iminente envolvimento com Eugénia está à vista, e, antes que seja tarde, uma criada denuncia o caso a Maria Helena e à mãe da rapariga. Expulso de casa, instala-se com Maria do Carmo na Rua Jorge Colaço.

            Em 1959, a mãe de Maria Eugénia move-lhe um processo. É condenado por atentado ao pudor de uma menor (embora, segundo parece, apenas a tenha beijado e acariciado). Em Agosto nasce o seu quarto filho Luís José, o primeiro da união com Maria do Carmo. Ameaçado por novo mandado de captura (caso Maria Eugénia) anda fugido pelo Porto, Ermesinde, Setúbal, acabando por ser capturado e recolher de novo ao Limoeiro. Ali passa o Natal. Natália. É absolvido do caso Maria Eugénia, mas condenado por faltar à audiência. Estamos em 1960. Maria do Carmo está novamente grávida.

            Em Fevereiro de 1961 nasce Adelina Maria, a quinta. Este 1962 é ano de novo sarilho: engravida Maria Irene, irmã de Maria do Carmo. Maria do Carmo tem um lugar de venda no Mercado da Ribeira e sai de madrugada de casa. Luiz fica sozinho com a adolescente Irene. E, francamente, um libertino não é de pau! No ano seguinte, será julgado e condenado à revelia pelo Tribunal da Comarca da Sertã. Pacheco nem sequer tomara conhecimento da existência do processo. Em Maio nasce Paulo Eduardo, o filho de Pacheco e da jovem Irene. Em 1964, vive agora nas Caldas da Rainha. Em Maio nasce Maria Eugénia, sétima, segunda da ligação com Irene. Pacheco é preso nas Caldas devido ao processo de Maria Irene, saindo sob caução. Desentende-se com Irene e fica a viver sozinho nas Caldas da Rainha. O abuso do álcool provoca-lhe o agravamento da asma. Em Novembro de 1967, o casamento com Maria do Carmo é dissolvido «por abandono do lar». Em 1968 é de novo preso nas Caldas da Rainha, sendo depois transferido para o velho Limoeiro. No ano seguinte, já em liberdade, apaixona-se por Elsa Isabel com quem tem uma ligação. Num breve passeio às Caldas tem um envolvimento de alguns dias com Isabel Valadares. Na véspera de Natal apanha uma monumental bebedeira e passa a consoada no banco do Hospital de S. José. Em Janeiro de 1970 é internado no Hospital de Santa Marta Pacheco continua e intensifica o tratamento ambulatório de desintoxicação alcoólica. Tratamento que, com acidentes de percurso e muitas recaídas, prosseguirá até 1980. Até 1975, Luiz continua a publicar, a fazer traduções e… a beber. Mantém uma política de porta aberta, entrando «toda a bicharada» (expressão sua) – «malucos, marginais, bêbedos, paneleiros, lésbicas» a fama da casa onde vive, em Massamá, é terrível. Luiz Pacheco, sempre segundo regista no diário, tem ligações episódicas com algumas mulheres, engata uns rapazes… – «a fome, a solidão, a tristeza, a velhice e a decadência», diz no seu diário. Sai de Massamá. Até 1980, não tem paradeiro certo. Deambula pelo Montijo, Campo de Ourique, Algarve. Afectado pela subnutrição é internado no Hospital Curry Cabral. Em 1977 é internado na Clínica Psiquiátrica de Celas, com a visão e o raciocínio afectados pelo álcool. Em 1980 faz uma tentativa de suicídio, atravessando de olhos fechados a Avenida de Berna na hora de ponta. Travões guincham, pneus chiam, automobilistas furiosos insultam-no, mas a morte não quer nada com ele. Falámos da vida sentimental, se assim se lhe pode chamar.

 

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