Quem ainda presta alguma atenção ao tipo de igrejas cristãs deste início do terceiro milénio, não pode deixar de se interrogar: Igrejas, ou lojas de antiguidades? Os bispos residenciais e os párocos andam manifestamente aos papéis. Quando, como hoje, o Dinheiro é o único cristo-rei e senhor do mundo, confrange ver os clérigos – bispos e párocos – ocupados com os mesmos ritos litúrgicos de sempre, mais do que batidos. O Missal mantém-se o mesmo. Cada período de três anos, volta tudo ao princípio. Cada dia, as missas pagas e aplicadas por almas que nem sequer existem, já que os seres humanos, só para Platão, Aristóteles e os teólogos eclesiásticos que recorrem às suas filosofias dualistas para teologar, é que são vistos como um composto de corpo e alma, quando, no ser-viver de Jesus Século XXI, somos espantosamente corpos animados para sempre. Que as coisas fossem vistas assim no tempo de Agostinho de Hipona, de Tomás de Aquino, do Concílio de Trento, do Concílio Vaticano I, ainda vá que não vá. Mas no início do terceiro milénio, em que o Dinheiro é o único cristo-rei e senhor do mundo, com a Ciência aí a dar cartas e a antropologia a dizer-nos holísticos, natureza humana Consciência, só mesmo de clérigos intelectualmente preguiçosos, pervertidamente instalados-acomodados nas suas rotinas, sem um pingo de humanidade, criatividade, afecto, poema, canto, dança, atenção aos sinais dos tempos.
Decorria ainda o século XX (1962-1965), e, inesperadamente, aconteceu o Concílio Vaticano II que desalojou os clérigos do seu posto de domínio e fê-los, até, implodir, para colocar em seu lugar o chamado “povo de Deus”. A expressão não é muito feliz, porque em boa verdade não existe “povo”, existem seres humanos concretos, mulheres e homens, em diferentes idades, cada qual com as suas histórias de vida, distintas umas das outras. Apesar disso, ficou desde então manifesto que, pelo menos nos documentos aprovados, os clérigos – hierarquia ou poder sagrado – foram desalojados, perderam a primazia, implodiram a favor de todos os seres humanos, povo de Deus. A mudança tem tudo de revolução antropológica, ainda não assumida, muito menos assimilada-praticada.
Depois de séculos e séculos de Cristandade, o mundo viu-se fecundamente abalado nos seus fundamentos ideológicos-teológicos pelo Vaticano II. Deveria ter caído de imediato a Cristandade e ter-se afirmado a Humanidade, na sua variedades de seres humanos e povos. Deveria ter acabado o dualismo igreja-sociedade, e todas, todos reconhecerrmo-nos seres humanos, que é, de resto, o único denominador comum que nos há-de unir nas diferenças, vistas-experimentadas como outras tantas mais-valias. Deveria. Mas não é o que se vê. Quem olha hoje para as igrejas cristãs, parece, até, que o Concílio Vaticano II nunca aconteceu. O que perfaz um crime-pecado sem perdão, porque contra a Luz-Verdade.
Na única humanidade que sempre haveríamos de ter sido, desde o início, o que é expectável, desejável, até, é que alguns dos seres humanos possam vir a dar-se conta de que mantêm especiais afinidades entre si, sem que essa tomada de consciência os leve a constituir-se num grupo à parte, separado da humanidade. Bem pelo contrário. Há, porém, neste particular, dois tipos distintos de afinidades e, consequentemente, dois tipos distintos de minorias delas decorrentes, conforme o sopro político que reciprocamente as atrai, congrega. Há um sopro/espírito político bom, maiêutico, e outro mau, opressor. Pelos frutos que cada sopro/espírito produz, conhece-se bem qual o bom, qual o mau.
O mau é demoníaco, piramidal, fonte de divisão. Está na origem das minorias privilegiadas que dominam, subjugam, exploram, empobrecem, infantilizam a humanidade no seu todo, constituída por múltiplos povos. O sopro bom é intrisecamente humano, horizontal, relacional. Está na origem de minorias de sinal contrário às outras, concretamente, minorias fermento na massa que vivem-trabalham para manter a humanidade indissoluvelmente unida, na sua variedade de povos, línguas, cores, culturas. A plenitude deste Sopro bom, Ruah – substantivo feminino em hebraico – dá pelo nome histórico de Jesus, o filho de Maria, nascido em Nazaré, 4-6 anos antes do ano 1, e crucificado, em Abril do ano 30, pelo império romano, aliançado com as minorias privilegiadas do templo de Jerusalém.
Das minorias originadas pelo sopro mau ou demoníaco, fonte de divisão da humanidade, fazem parte substantiva todas as religiões-igrejas cristãs, com destaque, no Ocidente, para os clérigos, lobos da humanidade, bem disfarçados de cordeiros. Durante os muitos séculos de Cristandade, foram, até, os que mais se mantiveram no topo da pirâmide do Poder. Toda a humanidade girava à volta do Papa de Roma, o chefe máximo dos clérigos espalhados pelas nações do mundo ocidental e para lá dele, graças às Cruzadas, às descobertas e conquistas. A humanidade, nesses muitos séculos de treva, de chumbo, viu-se reduzida à condição de serva da gleba dos clérigos, escrava, carne-para-canhão, sem voz nem vez.
O Concílio Vaticano II aconteceu e desalojou, pelo menos, nos documentos, os clérigos, ao dar toda a primazia ao povo de Deus, entenda-se, a humanidade constituída na sua variedade de povos. Na prática, porém, tudo tem continuado como antes, com os clérigos no topo da pirâmide, quando o Concílio anunciou que na Humanidade nem sequer há lugar para a existência de pirâmide. A verdade é que, quando se foi a ver, teve de concluir-se, com dor, que os clérigos saíram ainda mais reforçados após o Concílio Vaticano II, ainda mais clérigos, seres à parte. Com todas as perversões que semelhante traição tem causado, continua a causar à humanidade, aos povos das nações.
Em consequência dessa traição, as igrejas cristãs são hoje um gheto, com acentuada tendência a desaparecer. Em seu lugar, está aí cada vez mais poderoso e global o cristo-rei e senhor do mundo, o inimigo número um da humanidade, dos povos das nações. Com os poucos clérigos, do papa ao pároco da mais ignota paróquia do Ocidente, como o seu braço sagrado, sempre prontos a abençoar os seus agentes históricos e a adormecer-anestesiar os povos, suas víttimas. Extinguiu-se das igrejas a profecia. Desapareceram os profetas. E os que, porventura, aparecem, são logo rotulados pelos mercenários clérigos de subversivos, herejes, loucos, dignos de todos os desprezos, como, em seu tempo e país, sucedeu com Jesus Nazaré.
Ao insistirem, neste novo ano, nos velhos ritos de sempre, as igrejas assemelham-se mais a lojas de antiguidades, onde os seus clérigos, orgulhosamente segregados da humanidade, são tão prejudiciais quanto o sal que perde a força de salgar. Orgulham-se do seu criisto-rei e senhor do mundo, sem se aperceberem que o único cristo-rei e senhor do mundo é o Dinheiro, o poder financeiro global. Quanto mais cristãos, menos seres humanos. Com um viver à parte da humanidade, por isso, à parte de Jesus, o filho de Maria, o alfa e o ómega da Humanidade, em quem Deus Criador que nunca ninguém viu se nos dá a conhecer. E por ele, com ele e nele, também em todos e cada um dos seres humanos. Fora dos quais não há um mundo vida em abundância e qualidade, só um mundo vale de lágrimas, já quase sem possibilidade de retorno.
Vale à humanidade a existência de minorias de seres humanos de sinal contrário às dos privilégios, religados entre si pelo Sopro bom, a mesma Ruah de Jesus. Não se dá por eles, porque são essencialmente clandestinidade, ao modo do fermento na massa, do sal na comida. Graças a estas minorias jesuânicas, a humanidade prossegue, sem saber bem como, porque elas são como o Vento que ninguém sabe de onde vem, nem para onde vai. Muito menos o todo-poderoso cristo-rei e senhor do mundo consegue saber. Quanto mais perseguidas, ostracizadas, até, assassinadas, simbolicamente que seja, por ele, tanto mais fecundas, mais frutos de vida dão ao mundo.