António Paulouro foi cidadão probo e jornalista singular. Fundou e dirigiu o Jornal do Fundão e dele fez uma trincheira da Cultura e da Liberdade. Marcelo (Rebelo de Sousa) sempre soube disso, pois sua mãe “vibrava em uníssono com aquele beirão rebelde e prospectivo”. Mas na hora de louvaminhar Marcelo Caetano, o agora candidato presidencial, esqueceu-se do testemunho materno.
A missiva marcelista de bajulação ao escolhido para suceder a Salazar, que aqui reproduzi no passado dia 22 de Novembro, foi escrita após o 3º Congresso da Oposição Democrática realizado em Abril de 1973, em Aveiro.
Nela, o Marcelo com um só “éle” diz ao Marcelo com dois, que tal reunião foi dominada pelos comunistas; e que, ele, Marcelo só com um “éle”, compreendia e comungava da preocupação do Marcelo com dois.
É certo que muitos comunistas participaram activamente no Congresso de Aveiro, mas também é verdade que muito dos seus 3000 participantes não o eram. Eram opositores ao regime fascista, que a chamada “Primavera Marcelista” tentou colorir…
António Paulouro esteve na primeira linha do Congresso de Aveiro e integrou a Comissão Nacional, indicado por Castelo Branco. Tal qual outros homens e mulheres cujo único compromisso era com a Vida e com a Liberdade.
Marcelo, o propagandeado “special one” do comentário que agora sonha ser presidente, conhecia bem o fundador do Jornal do Fundão e disso deu testemunho em “Memória dos Lutadores pela Democracia” – revista evocativa de António Paulouro, que o “Jornal do Fundão” editou em 12 de Maio de 2011.
Diz Marcelo:
“…Tudo respeitando um grande jornalista, que foi um grande homem de Cultura, um grande democrata e um grande português. Em rigor, um homem de princípios e de afectos”.
No texto escrito para a evocação de António Paulouro, cujo 100 anos do seu nascimento foram assinalados em Novembro passado, Marcelo invoca também a proximidade de sua mãe, a assistente social Maria Fernandes Duarte, natural da Covilhã, com o cidadão e o jornalista: “Vibrava em uníssono com aquele beirão rebelde e prospectivo”.
Ou seja: sabia, sempre soube!, que muitos dos participantes do 3º Congresso da Oposição Democrática não estavam engajados com o Partido Comunista, mas isso não o coibiu de colocar o rótulo bem ao jeito do seu protector e como convinha ao “cadete” apostado em agradar ao antigo comissário nacional da Mocidade Portuguesa.
Teve azar: um ano depois Caetano saiu do Largo do Carmo, que Salgueiro Maia e o povo de Lisboa transformaram em Largo da Rendição, rumo ao exílio e o Marcelo com apenas um “éle” teve de se fazer à vida. Com a cara de pau que se lhe (re)conhece:
– Apanhou o comboio da Liberdade, foi à Festa do Avante, com as câmaras das televisões atrás, abraça tudo e todos, e fala sobre tudo com o despudor de um vendedor de banha da cobra, pois diz, agora, é um fazedor de pontes e de consensos, um democrata de sempre.
Mas sirvo-me das palavras de Carlos Drummond de Andrade, um dos grandes nomes da Literatura que António Paulouro aconchegou no seu/nosso Jornal do Fundão, para o avisar:
“Há campeões de tudo, inclusive da perda de campeonatos.”