Diagnóstico de um Pais deprimido.- por Joana Domingues

Imagem1                                                        *Fado- Género musical tradicional português, classificado como património Mundial pela Unesco.

        Começando pela conjuntura demográfica, assistimos num país de 10 milhões de população a mais idosos que jovens, mais mulheres que homens, mais tristeza que euforia. Além de estatísticas, precisamos perceber o que se passa no nosso país a nível de depressão não sendo ela somente económica, necessitamos de um diagnóstico mais próximo de como a cultura, a identidade e a educação do nosso país reagem às dificuldades vividas na atualidade.

       Existem factos históricos que moldaram a identidade dos portugueses, segundo a historiadora Irene Pimentel: “Quarenta e um anos de ditadura deixaram-nos apáticos e com medo, o medo já não é da PIDE, é de perder o emprego.” São padrões de comportamento que ainda hoje regem muitas famílias do nosso país, que vivem com receio do futuro. Contudo numa perspetiva de coragem, somos aventureiros, somos marinheiros, emigramos, numa tentativa de fuga ou escape das condições atuais, ainda que o país continue a naufragar. Existe um individualismo que nos impede de agir em grupo, uma certa apatia, que atiça os marinheiros a remarem em diferentes direções, num “ salve-se quem puder”, situações evidentes no âmbito profissional, politico e social. Portugal tem uma capacidade limitada de se reconstruir já que o prendimento com as glórias do passado exacerba estados de persistente estagnação.

         Perante o novo e o diferente a cultura portuguesa, tem um barómetro mais negativo, existe uma dificuldade de aceitação, uma educação passada de pais para filhos, de extrema proteção, os pais sentem dificuldade em promover a independência dos filhos, o que se traduz numa perda de influência sobre os mesmos, e por fim numa maior falta de autonomia destes na sociedade em geral.

         Coimbra de Matos, psicanalista português, fala de um país que tem tendência a ser conservador, a repetir. Existe uma vincada repetição de erros do passado, existe uma acentuada falta de inovação e esperança no progresso do país. As suas vitórias estão firmadas nas épocas ilustres do passado e na saudade que esses tempos nos trazem.

         A nossa religião cristã transforma-nos num povo de crenças fáceis e a nossa educação familiar num povo facilmente narcisista. Razões culturais e financeiras moldam uma educação de proteção, concentração e pouca autonomia na toma de decisões individuais. Permanecemos no espaço familiar por mais tempo, dificilmente aceitamos críticas, essa dificuldade não vem só de um carater narcisista mas assenta também numa certa inferioridade, já ela sentida em varias épocas da nossa evolução enquanto nação, sobretudo por acreditarmos que o estrangeiro, o de fora é sempre melhor, moldada por uma falta de confiança nas nossas capacidades enquanto país e enquanto indivíduos.

         O Psicanalista Coimbra de Matos remata com uma culpabilização de um Portugal mal gerido, por indivíduos que foram mal ensinados: “Falamos de Portugal como um filho a quem a educação não foi bem dada. Não nos ensinaram a gerir bem o dinheiro, não nos ensinaram a ser produtivos, não nos ensinaram a ser adultos e responsáveis. Mas estes que não nos ensinaram são a nossa família, os nossos antepassados.”

         Necessitamos de uma mudança de paradigma, a nível do poder politico, da cultura e da educação. Neste momento somos um povo deprimido, o segundo povo mais deprimido da Europa. Antonio Sampaio, psiquiatra português justifica que os quadros depressivos graves se têm desenvolvido na incerteza do amanhã, fatores desencadeantes são sobretudo o medo em perder o emprego. Um quadro clinico muito propício das sociedades Ocidentais é a síndrome de Burnout. Se por um lado existe falta de trabalho outros são sobrecarregados com o trabalho excessivo, o esgotamento, os trabalhos duplos, que não sendo intercalados com repouso facilmente se transformam num quadro depressivo. No quadro profissional, os principais potenciadores de depressão neste momento no nosso país são  falta de emprego condizente com a ambição pessoal, falta de trabalho e excesso de trabalho para quem trabalha.

         A cura para esta depressão não são é só a típica medicação, exercício físico, meditação ou mudança alimentar, são também mudanças de políticas ultrapassadas e inovações no âmbito cultural, religioso e educativo. São mudanças do entorno nacional envolvente que nos afetam diariamente, a rotina depressiva que nos consome enquanto povo saudosista dos atos heroicos do passado, que precisam ser inovados, cometidos novamente com mais audácia e sede de inovação e mudança.

       Coimbra de Matos, esclarece muito bem esta ideia quando nos fala que Os portugueses têm muito isto. Vamos um bocado nessa cantiga – assimilar a identidade dos nossos políticos, dos nossos pais, o que a História nos vai infiltrando…”

         Precisamos ser novamente educados. Educados ao desapego, ao desapego da família, das coisas, a remar num barco como os antigos marinheiros mas com a diferença de que precisamos urgentemente chegar a bom porto, com confiança e determinação nas nossas capacidades. Não temos de mudar só quando nos sentimos ameaçados, não temos de emigrar só quando há crise, é preciso arriscar é preciso promover a nossa capacidade de nos reconstruirmos enquanto país com uma posição estratégica extraordinária.

         A nível individual precisamos saber lidar com esta crise económica, precisamos lidar com o paradigma custo/ beneficio mas sem que ele acarrete uma perda para nos do ponto de vista cultural e social,  que nos permitira apesar das condições atuais avançar como sociedade, adotar estratégias de resiliência e inovação perante condições adversas e, como claro combater taxas de depressão que se têm vindo a fazer sentir em países da Europa, com uma forte incidência em Portugal.

       Aproveito para terminar o presente artigo com uma reflexão do Sociólogo alemão Karl Max, gostaria que em 2016 as suas palavras ganhassem um novo sentido e fossemos arrojados o suficiente para superar os controversos ventos que têm abanado o nosso barco enquanto marinheiros, enquanto povo, enquanto europeus, enquanto homens capazes de lutar contra a adversidade, munidos de armas que são a cultura, a identidade e o capital social.

       “Quanto menos comes, bebes, compras livros, vais ao teatro, pensas, amas, teorizas, cantas, sofres, praticas desporto, etc., mais economizas e mais cresce o teu capital. Tens mais, mas és menos. Assim, todas as tuas paixões e atividades são devoradas pela cobiça.” Karl Max

Fontes:

MARX, K., Economic and Philosophic Manuscripts of 1844, from Marx and Engels, Collected Works, Vol. 3 Moscovo, 1975.
Jornal Publico Online : “Coimbra de Matos, Paciente: Portugal, Diagnóstico: depressão desamparada. “ 4 de Março de 2012 disponível em: http://www.publico.pt/tema/jornal/coimbra-de-matos-paciente-portugal-diagnostico-depressao-desamparada-24058206
Jornal i : “Levamos Portugal ao psicólogo e o diagnostico é de depressão .” 29 de Maio de 2015 disponível em: http://www.ionline.pt/394272#close
RTP Noticias “Portugal é o segundo país da Europa com maior taxa de depressão.” RTP 19 de Outubro de 2015 09:10h disponível em: http://www.rtp.pt/noticias/pais/portugal-e-o-segundo-pais-da-europa-com-maior-taxa-de-depressao_v867043

 

2 Comments

  1. Bom artigo!, é o reflexo da sociedade actual e as respectivas consequências em cada um de nós pelas decisões pessoais e profissionais.

  2. Bom artigo, gostei da analogia do nosso pais como um barco a remos e nós marinheiros desgovernados…leu se muito bem…interessante e nada enfadonho…Muitos Parabéns

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