FRATERNIZAR – De 11 Janeiro a 2 de Maio 2016 Que Deus, o da Capela do Rato? – por MÁRIO DE OLIVEIRA

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Está já a decorrer, todas as segundas-feiras, até Maio, na Capela do Rato, em Lisboa, o Curso Livre, “Os filósofos também falam de Deus”. São múltiplos os convidados, mais eles do que elas. O facto remete-me, de imediato, para o antes do 25 de Abril, quando a Capela do Rato chegou a ser frequentada, inclusive, por infiltrados agentes da Pide, porque lá dentro a Guerra Colonial gritava muito mais alto do que os salmos bíblicos da liturgia eclesiástica. O que incomodava muita gente graúda e até miúda do regime salazarista-marcelista, clérigos católicos de proa, incluídos, unha e carne com ele, a qual, por isso, não punha lá os pés, incomodada que se sentia por a igreja que ali se congregava meter-se nesses assuntos “sujos” da Política praticada, concretamente, a Guerra Colonial. Algumas dessas pessoas que então protagonizaram iniciativas no interior daquela Capela chegaram a conhecer os horrores das prisões políticas do regime, abençoado pelos clérigos de proa que viam na criminosa Guerra Colonial uma guerra santa/jihad contra o comunismo-ateu internacional.

Nunca lá estive, nesse então, porque, ao tempo, era o pároco de Macieira da Lixa, uma desconhecida aldeia do concelho de Felgueiras que, por via das minhas duas prisões políticas em Caxias, geograficamente tão perto em linha recta da Capela do Rato, se tornou por demais conhecida no país e, até, na Europa. Registo, com agrado, o facto de, por mais de uma vez, as minhas prisões terem sido lá referidas e debatidas, o que motivou intervenções violentas por parte da Pide e das outras Polícias. Sinal inequívoco de que o Deus que então lá se praticava não era como o de agora, o Deus dos filósofos, tão inócuo quanto o próprio conceito “Deus”. Era, e bem, o Deus de Jesus, o único que gosta de Política praticada, não de Religião praticada, nem de poder de nenhuma espécie praticado.

Actualmente, para mal da Humanidade e do planeta Terra, o Deus de Jesus só tem lugar na história como crucificado na cruz, o instrumento de tortura que o império romano inventou para humilhar-destruir por completo os seus opositores políticos, e que o cristianismo, criminosa e cinicamente, veio a converter em instrumento de redenção do mundo. Para, deste modo, os povos das nações nunca mais chegarem sequer a suspeitar que o Deus de Jesus existe e que é o único que verdadeiramente nos habita e nos faz humanos sororais-fraternos, de dentro para fora. É também por aqui que, logicamente, vai o actual poder financeiro global que faz questão de levar aos extremos da crueldade e do cinismo esse mesmo instrumento de tortura, travestido de bombas que podem, até, ser de napalm e de hidrogénio.

É com a cruz, assim actualizada, que o poder financeiro hoje mata não só os corpos das pessoas e dos povos, mas também e sobretudo as suas mentes-consciências, cada dia mais possessas, dominadas pela sua ideologia-teologia, a mesma dos filósofos sem causas e sem práticas políticas maiêuticas, meros catedráticos cortesãos, ocupados em exclusivo com os seus privilégios de casta sem quererem saber dos milhões e milhões de crucificados da Terra, o reverso da mesma realidade, de um lado, as minorias dos privilégios, do outro lado, as vidas crucificadas da esmagadora maioria da Humanidade.

Nos templos paroquiais e capelas de hoje, como a do Rato, só mesmo o Deus dos filósofos, o mesmo do poder financeiro e do cristianismo, tem lá lugar. É por isso que a Pide e as prisões políticas como a de Caxias deixaram de ser necessárias no país e na União Europeia. Em Portugal, o 25 de Novembro de 1975 dissolveu uma e outras, para grande gáudio dos académicos e a generalidade dos que integram a classe média ou são aspirantes a tal, sejam de direita ou de esquerda, religiosos ou ateus. A prova provada de que, tal como as elites do poder financeiro, também as elites privilegiadas do cristianismo  e o próprio Deus do cristianismo gostam mais de Religião praticada do que de Política praticada. Só assim se compreende que, nestes tempos de domínio (quase) absoluto do poder financeiro, a Capela do Rato, confiada pelo Patriarcado de Lisboa ao Pe. Tolentino de Mendonça, poeta premiado na nossa praça, promova semelhante curso sobre o Deus dos filósofos. Enquanto ignora ostensivamente Jesus e o Deus de Jesus!

Já os crucificados da Terra, continuam aí, em número cada vez maior, sem que as igrejas oficiais escutem os seus clamores, acolham-pratiquem os seus apelos, ajudem maieuticamente a criar condições para que este estado de coisas seja banido da face da Terra e dê lugar a outro tipo de mundo, plena e integralmente humano. Como podem elas fazê-lo, se são parte do poder financeiro global que produz os crucificados em série e de forma científica? É óbvio que num tipo de mundo assim, as mentes das elites privilegiadas – cristãs, agnósticas, ateias ou anarquistas – que convivem pacificamente com os milhares de milhões de crucificados da Terra, têm todas por pai o Deus/Diabo dos filósofos, o mesmo do poder financeiro global, das religiões, das igrejas cristãs, da Bíblia-Alcorão e demais livros sagrados do mundo. Para cúmulo, tem sido sido com as catequeses e as escolas deste mesmo Deus dos filósofos e dos clérigos que temos sido catequizados-escolarizados, de geração em geração.

Consequentemente, chegamos ao ponto de exigir, em nome dos privilégios de que desfrutamos, que Jesus Nazaré, o filho de Maria, e o Deus outro que nunca ninguém viu e nele se nos dá a conhecer, sejam mantidos historicamente crucificados, como malditos. Juntamente, com os milhares de milhões de crucificados do mundo. A verdade é que, de tão cegos que somos – os privilégios, muitos ou poucos, grandes ou pequenos, cegam as mentes  de quantas, quantos deles desfrutam– continuamos, insensatamente, a apostar tudo neste tipo de mundo do poder financeiro global, no qual a esmagadora maioria da Humanidade vive crucificada. Somos estruturalmente criminosos por omissão e inacção que se desconhecem. E, para cúmulo, ainda nos temos por boas pessoas, povos civilizados. Sem nunca chegarmos a reconhecer o óbvio, concretamente, que o nosso bem-bom quotidiano é a cruz da esmagadora maioria da Humanidade. Se nem os clamores dos povos crucificados nos tiram o sono e nem nos fazem mudar de ser-viver e de Deus, como podemos dizer que somos civilizados e seres humanos sororais-fraternos?!

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