PETRÓLEO BARATO, O FALSO BOM NEGÓCIO – A BAIXA DO PREÇO DO PETRÓLEO VAI AGRAVAR A CRISE – por JEAN-LUC GRÉAU

Gréau - petróleo Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

jean luc gréau
Jean-Luc Gréau

Petróleo barato, o falso bom negócio – A baixa do preço do petróleo vai agravar a crise

Jean-Luc Gréau, Pétrole pas cher, la fausse bonne affaire – La baisse du prix du pétrole va aggraver la crise

Revista Causeur.fr, 26 de Novembro de 2015

Jean-Luc Gréau foi conselheiro do MEDEF – Mouvement des entreprises de France, a central dos patrões de França.

Para os nossos economistas bem-pensantes ou não pensantes, a baixa do petróleo é providencial (1). Nos seus sonhos, os mais loucos, os povos ocidentais, um tanto espalmados pelas crises destes últimos anos, reconquistam com efeito algum poder de compra e reencontram a confiança. A retoma americana vai reforçar-se, a melhoria das perspectivas na Europa vão instalar-se em forma de uma certa duração e tudo irá pelo melhor e no melhor dos mundos.

No plano dos factos e quanto a isto não há nada que seja mais verdade mas também não há nada que seja mais falso.

De um lado, a baixa do preço do petróleo atinge tanto “os consumidores finais” – de combustíveis automóveis, como os da nafta para uso doméstico ou da electricidade produzida a partir do petróleo ou do gás – como atinge igualmente as empresas. A baixa do preço do barril foi particularmente sentida pelos Americanos, infinitamente menos matraqueados pelo fisco que os Europeus (2), dinamizando de passagem a venda de automóveis além-Atlântico. A remissão da crise automóvel europeia, em países sinistrados como a Espanha ou a Itália, deve também algo à queda dos preços nas bombas de abastecimento. As margens das empresas, que consomem grandes quantidades de combustíveis na indústria e nos transportes, melhoraram, de modo que uma parte das feridas procedentes das crises recentes pode ser curada por esta via curada ou pelo menos tratada. Este fenómeno produziu-se no momento em que a zona euro se afligia para tentar sair do marasmo procedente das falências dos países do Sul.

Por outro lado, a baixa dos preços do petróleo não deve ser encarada com o olhar de um míope.

Porque de duas coisas uma: ou esta queda resulta de uma correcção de preços anteriores que eram exagerados ou então ela traduz a redução do ritmo de crescimento do sistema económico mundial a partir de um dos seus grandes centros, a China (3) . É, segundo tudo parece dar a entender, a situação que se vive desde o verão 2014. A baixa do petróleo é apenas o fenómeno mais visível da baixa no mercado das matérias-primas.

Obnubilados pelas curvas do desemprego e pelos números da produção nos Estados Unidos e na Europa, os analistas esquecem o resto do mundo. Com uma excepção apenas: a China, da qual engoliram as estatísticas económicas traficadas pelas autoridades de Pequim. Contra toda a evidência, os zeladores da mundialização raciocinam ainda como se cada grande parte do mundo pudesse evoluir sem estar a sentir o impacto das dificuldades ou das crises que se manifestam nas outras partes do mundo (4).

Para avaliar o risco de agravamento e de extensão da redução do ritmo de crescimento corrente, é necessário à partida examinar as condições segundo as quais se verifico uma queda dos preços.

Deflação dos preços ou manipulação?

Quando os preços do petróleo se reduziram brutalmente no decorrer de 2014, gritou-se logo por manipulação dos preços. Para uns, eram os Estados Unidos, ajudados pela Arábia Saudita, que teriam iniciado esta queda a fim de enfraquecer a Rússia com quem estariam em choque por causa dos problemas havidos com a Ucrânia e a Síria. É verdade que os preços do barril são tratados principalmente em Wall Street nas salas de trading dos grandes bancos de negócios, com a Goldman Sachs à cabeça. Além disso, a Arábia Saudita teria contribuído para a situação recusando reduzir as quantidades produzidas, ou mesmo aumentando-as. Para outros, os Sauditas teriam desempenhado um papel decisivo nessa descida. Riade teria querido aplicar um golpe mortal à indústria do petróleo e à exploração do gás de xisto, fazendo reduzir o preço do barril abaixo a partir de 60 dólares, valor este que é o mínimo exigido para que seja rentável a exploração das referidas jazidas nos Estados Unidos. Com o objectivo de manter o poder saudita sobre a potência americana.

Não conhecemos o fim desta história. Quaisquer que tenham sido as intenções dos protagonistas, os seus objectivos não são atingidos. Putin, posto de joelhos economicamente, mantem o seu apoio aos separatistas ucranianos e intervém doravante directamente no conflito sírio. A indústria do petróleo e do gás de xisto deixou de investir mas os excedentes aparentes de produção não se reabsorvem à escala mundial. A deflação dos preços está hoje bem para além de uma correcção.

A caminho da Estagdeflação?

Muitos dos meus leitores em Causeur são demasiado jovens para terem vivido este episódio crucial da nossa História de pós-guerra, conhecido sob o nome “de estagflação ”. Para falar simples, a expressão significa o fim desencantado “dos Trinta Gloriosos”.

Recordemos os seus principais elementos. Os preços do barril de petróleo foram multiplicados por seis em Dezembro de 1973 pela decisão dos grandes países produtores alinhados sobre a Arábia Saudita (5). A este aumento brutal acrescem-se os seus efeitos aos da inflação salarial. Os salários, que aumentavam de 12 a 15% no ano em países como a França ou os Estados Unidos, aceleram ainda a sua corrida sob o efeito do aumento dos combustíveis (não esqueçamos que os salários estavam indexados, ou mesmo sobre-indexados sobre os preços ao consumo). De imediato, as empresas reduzem os seus investimentos e começam a despedir pessoal. A fórmula “estagflação” aparece e marca as mentalidades de então.

O que se acreditou na altura ser apenas um episódio pontual, um episódio sem amanhã, com efeito desencadeou o facto de se começara pôr em causa o paradigma dos Trinta Gloriosos. A guerra do Kippour, o aumento do preço do petróleo, a redução do ritmo económico no Ocidente, os primeiros défices orçamentais constituíram os primeiros traços de um paradigma económico totalmente inédito e imprevisto. Esta crise também permitiu a subida em força da ideologia neoliberal que ainda hoje permanece no poder, apesar das crises múltiplas que têm abalado o sistema ao longo destes últimos anos.

Se acreditarmos nas lições da História, mais vale levar a sério os acontecimentos económicos actuais que formam um contexto simétrico e oposto ao verificado em meados dos anos 70. É no Ocidente que a recessão se manifestou, é no mundo emergente e na China que ela se instala ou ameaça instalar neste momento. Era num contexto de aumento desenfreada dos preços que os nossos dissabores tinham começado, é num contexto de estagnação dos preços que evoluímos actualmente. Resumamos: os países produtores de matérias-primas são estrangulados por uma baixa que atinge todos os mercados de referência: não só o do petróleo e do gás, mas também o do carvão, minério de ferro, cobre, etc.

Com excepção da Índia, os países emergentes sofrem uma redução do seu ritmo de crescimento ou até uma recessão. Estes fenómenos acrescentam-se às dificuldades que a China já não consegue disfarçar e que se conjugam com os efeitos discretos da baixa dos salários verificada em países como os Estados Unidos, a Alemanha ou o Japão, os problemas da competitividade obrigam. Por outras palavras, a retoma americana e a remissão europeia estão à mercê do que se passa noutros lugares no mundo.

Hoje, a redução do ritmo de crescimento ou de recessão na produção coincide com a estagnação ou a baixa dos preços. Mais de quarenta anos depois da estagflação, eis-nos pois perante a chegada da “ estagdeflação”.

*Photo : Flickr.com.

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  1. O barril, ainda cotado acima dos 100 dólares há dois anos, caiu para valores entre 40 e 50 dólares.

  2. A taxa sobre o galão de gasolina, que difere segundo os Estados, é muito inferior à nossa taxa sobre os carburantes.

  3. Veja-se “um krach made in China”, Causeur n°28, de Outubro de 2015. ↩

  4. Tal François Hollande, que declarou a 24 de Agosto que a economia mundial está “suficientemente sólida” para que o seu crescimento esteja e “apenas ligado à situação na China”.

  5. Aumento decidido no dia seguinte ao do desencadear da guerra do Kippour em Outubro de 1973.

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Jean-Luc Gréau, Revista Causeur, Pétrole pas cher, la fausse bonne affaire -La baisse du prix du pétrole va aggraver la crise.

Disponível apenas em acesso pago em : http://www.causeur.fr/petrole-deflation-crise-35564.html#

 

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