CARTA DO RIO 87 por Rachel Gutiérrez

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De Montevidéu, fomos à nossa fronteira, singrando o pampa dos muitos verdes e dos largos horizontes. Sant’Ana do Livramento, tantos anos depois, parece menor, estranha, diferente. A casa que foi nossa está muito desfigurada. “O que eu sou hoje é terem vendido a casa”, diz o triste verso de Fernando Pessoa. Mesmo assim, felizes lembranças da infância me invadiram: as matinês intermináveis no Gran Cine América, de Rivera, o footing na Avenida Sarandi, muito apreciado pelas já adolescentes, os sorvetes e as mil hojas da Confeitaria City. E foi pura alegria termos podido rever queridos e calorosos amigos. Também a de termos ido almoçar no velho Clube Campestre, fundado pela Companhia Armour na década de 1920, belo patrimônio da cidade atualmente em boa fase de revitalização. Reencontrar os pagos teve, sim,  muito encanto.

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Depois, partimos para Porto Alegre, a caminho da Serra. Hospedamo-nos  no centro, na parte histórica e, para nosso gáudio, muito perto da Casa de Cultura Mário Quintana, onde a alma do poeta tudo ilumina e perfuma. A Casa é o antigo Hotel Majestic, ( cuja construção foi iniciada em 1916, terminada em 1926 e complementada em 1933 ) que, depois de tombado pelo patrimônio histórico, tornou-se o local privilegiado que hoje abriga tanto o acervo do poeta quanto a Biblioteca Érico Veríssimo, a Discoteca Pública Natho Henn, as Galerias Xico Stockinger e Sotero Cosme, o teatro Bruno Kiefer e várias outras salas e espaços culturais.

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Numa das entradas do andar térreo, em letras grandes, acolhem-nos alguns dos mais famosos versos do poeta:

            O Mapa

Olho o Mapa da cidade

Como quem examinasse

A anatomia de um corpo…

 

(É nem que fosse o meu corpo!)

 

Sinto uma dor infinita

Das ruas de Porto Alegre

Onde jamais passarei…

 

Há tanta esquina esquisita,

Tanta nuança de paredes,

Há tanto moça bonita

Nas ruas que não andei

( E há uma rua encantada

Que nem em sonhos sonhei… )

 

Quando eu for, um dia desses,

Poeira ou folha levada

No vento da madrugada,

Serei um pouco do nada

Invisível, delicioso

 

Que faz com que o teu ar

Pareça mais um olhar,

Suave mistério amoroso,

Cidade de meu andar

( Deste já tão longo andar… )

 

E talvez de meu repouso.

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Nos meus tempos de estudante, muitas vezes vi o poeta andarilho, em sua cordial simplicidade, conversando pelas esquinas ou nos cafés de Porto Alegre. Mas só dele me aproximei no Rio quando, nos anos oitenta do século passado, veio aqui receber um prêmio e lançar um livro. E desse breve encontro guardamos, minha irmã e eu, uma foto – com ele! –  no momento do autógrafo.

Anos após sua morte, para a apresentação de um livro meu na grande Feira que Porto Alegre promove desde 1955, comovida com sua lembrança, aconteceu-me este poema:

Mario Quintana

 poeta da singeleza

de uma rua e cataventos

de leveza tão alegre

que em outros tempos cantaste;

 

tempos em que a cidade

ouvia teus lentos passos…

 

poeta, já não ressoam

teus passos nestas calçadas,

 

ressoam, sim, os teus versos

e suavemente florescem

nos jacarandás da praça,

em cada esquina e nas cores

do poente sobre o rio

 

que sempre morre e renasce.

 

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