A CRIANÇA E O ESTADO DE SÍTIO por Luísa Lobão Moniz

 

olhem para  mim

A Criança vive em verdadeiro estado de sítio.

A aprendizagem da vida anda de pernas para o ar.

 Ensina-se a Criança a barricar-se na sua inocência com muros feitos sem a menor fresta…

A escola ensina os efeitos nocivos do álcool, do tabaco, do açúcar, do sal, da droga, ensina a denunciar os colegas que se portam mal, os adultos…

Treina-se a Criança na arte de bem combater toda a ameaça ou pseudo-ameaça

A Criança tem medo, revolta-se, aprende a viver de olho aberto para a Vida, para a desconfiança…Ainda o gato não está escaldado e já tem medo da água fria.

O “homem do saco” rouba os meninos que se portam mal, o “papão” não deixa “o meu menino descansar”.

Onde estão os bandos de meninos e meninas que corriam, pelos passeios, da escola até casa, a ver quem chegava primeiro.

 Tinham medo que o cigano cortasse o cabelo às meninas, que corriam nervosamente e riam, riam às gargalhadas da traquinice feita no recreio e a pensarem ” a mim ninguém me agarra”.

A Criança não corre em bando, foi ensinada a desconfiar do Homem que vai na rua. Será pedófilo? Vai ser “abusador”? Vai-lhe dar droga?

Aquele colega mais velho vai fazer bullying com ele na escola?

A Criança tem medo de ficar sem os pais. Eles podem morrer por causa dos cigarros, no hospital…

Já é tarde quando o pai chega a casa. Virá bêbado? A mãe onde está?

Sabem que há mães que matam os filhos. Porquê, será que eles se portavam assim tão mal? Tinham fome e a mãe não tinha dinheiro?

A Avó, de neto órfão, ameaça mandá-lo para o “colégio”.

Vê na televisão crianças como ela, a chorarem fugindo da guerra…

Às vezes no bairro parece guerra. Aparecem uns homens com armas e desatam aos tiros, mas depois param e chega a Polícia.

Há crianças que se sentam na areia a ver o mar que matou o seu pai pescador…

E agora? A mãe já não remenda as redes, está deprimida a viver à custa dos vizinhos…

Para quando o fim deste estado de sítio em que as crianças se encontram?

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