Ensina-se a Criança a barricar-se na sua inocência com muros feitos sem a menor fresta…
A escola ensina os efeitos nocivos do álcool, do tabaco, do açúcar, do sal, da droga, ensina a denunciar os colegas que se portam mal, os adultos…
Treina-se a Criança na arte de bem combater toda a ameaça ou pseudo-ameaça
A Criança tem medo, revolta-se, aprende a viver de olho aberto para a Vida, para a desconfiança…Ainda o gato não está escaldado e já tem medo da água fria.
O “homem do saco” rouba os meninos que se portam mal, o “papão” não deixa “o meu menino descansar”.
Onde estão os bandos de meninos e meninas que corriam, pelos passeios, da escola até casa, a ver quem chegava primeiro.
Tinham medo que o cigano cortasse o cabelo às meninas, que corriam nervosamente e riam, riam às gargalhadas da traquinice feita no recreio e a pensarem ” a mim ninguém me agarra”.
A Criança não corre em bando, foi ensinada a desconfiar do Homem que vai na rua. Será pedófilo? Vai ser “abusador”? Vai-lhe dar droga?
Aquele colega mais velho vai fazer bullying com ele na escola?
A Criança tem medo de ficar sem os pais. Eles podem morrer por causa dos cigarros, no hospital…
Já é tarde quando o pai chega a casa. Virá bêbado? A mãe onde está?
Sabem que há mães que matam os filhos. Porquê, será que eles se portavam assim tão mal? Tinham fome e a mãe não tinha dinheiro?
A Avó, de neto órfão, ameaça mandá-lo para o “colégio”.
Vê na televisão crianças como ela, a chorarem fugindo da guerra…
Às vezes no bairro parece guerra. Aparecem uns homens com armas e desatam aos tiros, mas depois param e chega a Polícia.
Há crianças que se sentam na areia a ver o mar que matou o seu pai pescador…
E agora? A mãe já não remenda as redes, está deprimida a viver à custa dos vizinhos…
Para quando o fim deste estado de sítio em que as crianças se encontram?