O DEVSIRME – por NUNO SANTA CLARA

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Dificilmente o leitor comum decifrará este termo.

Nada mais natural: é uma palavra turca e, embora existam alguns vocábulos dessa língua no português corrente (iogurte ou quiosque, por exemplo) não será de esperar encontrar muitos conhecedores do idioma turco entre nós; e eu sou um deles.

Então, porquê esta quase provocação?

O devsirme (palavra cuja pronúncia correta desconheço) foi um sistema introduzido no Império Otomano como forma de contornar o poder das elites tradicionais, que detinham o monopólio do exercício das armas (tal como na nossa Idade Média), através de um corpo de tropas profissional, e de origem nem turca, nem muçulmana.

Baseava-se na incorporação de crianças, de origem cristã, normalmente originárias dos Balcãs (gregas, búlgaras, sérvias, albanesas, etc.) em estabelecimentos próprios, onde eram educadas, convertidas ao Islão, e incorporadas num corpo de tropas altamente especializado e profissionalizado – os Janízaros.

Ser janízaro, ao contrário do se pode pensar, era uma excelente oportunidade para subir na vida. Muitos deles, apesar da humilde proveniência, alcançaram os mais elevados postos no exército e na governação otomana. A progressão na carreira fazia-se por mérito, e não por nascimento, como na Europa da mesma época. E muita da cultura dos janízaros passou para o lado cristão, como as bandas militares. Quer Mozart, quer Beethoven, escreveram uma Marcia alla turca.

Ora, devsirme significa recolha, ou captura. De início, a base do sistema era a guerra: os filhos dos vencidos pertenciam aos vencedores, como sucedera com o Império Romano, ou com a escravatura resultante das guerras tribais africanas incentivadas pelos traficantes europeus. Essa economia de guerra pressupõe um estado permanente de guerra, o que não é possível.

Mais tarde, o sistema evoluiu para uma forma de tributo: os povos subjugados tinham de contribuir com um certo número de jovens para o estado otomano. Também aqui nada de novo: na mitologia grega, Atenas ficara obrigada a enviar cada nove anos sete rapazes e sete raparigas para Creta, a fim de serem devorados pelo Minotauro. Se este existiu ou não, é questão secundária; o importante é a existência de um tributo em seres humanos.

Mas o devsirme tinha uma virtude: permitia a ascensão social de jovens que, ficando nas suas terras, estavam condenados à miséria. Daí que o sistema evoluiu ao ponto de os próprios pais se interessassem em garantir um bom futuro aos filhos. E assim, nas Balcãs, uma situação de servidão passou a ser uma saída airosa. A ponto de começarem a aparecer turcos muçulmanos entre os candidatos a janízaros.

Isto, apesar de tudo, é o lado melhor; pior é a venda de filhos sabe-se lá para que fins. Basta lembrar a história dos ballets rose, em que mães se prostituíam junto com as filhas menores, para uso e abuso de gente altamente colocada – algo que se passou bem entre nós, e não há muito tempo…

Mais uma vez, nada de novo. Na época do devsirme, na Europa, os pais pagavam aos mestres para que os filhos aprendessem uma profissão. Magnífica antecipação: entre nós, a destruição do ensino técnico, no século XX, seguida da destruição (planeada) do ensino oficial, no século XXI, está a levar à mesma situação…

A notícia recente de que cerca de 10.000 menores refugiados estão desaparecidos relança esta questão. Estes desamparados estão à mercê de todas as contingências, as melhores como as piores. Quantos caíram já nas garras de oportunistas, quer para a exploração de trabalho infantil, quer (pior ainda) para as fantasias e aberrações dos DDT (Donos Disto Tudo), idênticos aos que (relembremos) consideravam que abusar das crianças da Casa Pia era um direito adquirido, defensável até em tribunal…

Assim, no mesmo espaço geográfico, ou seja, no antigo Império Otomano, temos um fenómeno inverso ao devsirme, na sua fase final, em dois aspetos. Primeiro, a migração faz-se da Ásia para a Europa; segundo, não há esperança palpável de melhoria… Em vez de uma forma de progressão social e garantia de futuro, temos as mais negras expetativas.

É certo que o caso Madie é mais mediático. Tem o seu lado policial, misto de Agatha Christie e Sherlock Holmes, a trama internacional e o contraponto entra a polícia portuguesa e inglesa.

Mas 10.000 desaparecidos…

 

Nuno Santa Clara

 

Obrigado ao Hélder Costa

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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