A COMISSÃO EUROPEIA A PREPARAR UMA NOVA CRISE – 9. O SHADOW BANKING É UMA ESPÉCIE DE AMIBA FORA DE CONTROLO – por MARC ROCHE

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Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

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A Comissão Europeia a preparar uma nova crise 

9. O shadow banking é uma espécie de amiba fora de controlo

 

Marc Roche, Le shadow banking est une espèce d’amibe hors de contrôle”

Finance Watch, 

 

Correspondente  em  Londres do Le Point, o especialista ‘do jornalismo de investigação financeira’ bate-se também na ONG Finance Watch contra a finança da sombra que escapa à toda e qualquer regulação e através de quem  virá a próxima crise. Marc Roche descreve assim o duplo rosto do City, o primeiro tem a ver com  uma finança doravante regulamentada, e o segundo, “opaco” e “tóxico”, que continua a tratar os seus negócios através dos paraísos fiscais da Coroa.

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Uma crise sistémica  nunca se dá onde se  espera que se dê nem quando se espera.  O perigo reside actualmente na existência de múltiplas bombas ao retardador: rompimento da bolha imobiliária chinesa; riscos excessivos assumidos e que se devem à  superabundância da liquidez  criada pelo quantitative  easing dos bancos centrais; falência de um hedge fund com reacção em cadeia; opacidade da titularização dos empréstimos aos estudantes, etc. Uma certeza: o acidente, se tiver de  ocorrer, virá  do shadow banking que funciona  na mais total das opacidades. A confiança sobre os mercados financeiros é extremamente precária.

Este verão, foi suficiente   uma queda das acções chinesas para provocar um sentimento de pânico geral. Ora a ausência dos bancos centrais neste momento, excepto  no que se refere à injecção maciça de liquidez   que se assemelha cada vez mais a uma fuga para a frente,  não foi o menos inquietante de todos eles. No mundo da finança, não terá verdadeiramente mudado.  Se inegáveis progressos forem realizados no controlo do banco de  retalho, o shadow banking permanece em contrapartida uma zona totalmente não controlada. Se acreditarmos que as crises ocorrem todos os oito  anos, como se diz e às vezes, então é mesmo  tempo de pôr o dinheiro da sua reforma ao abrigo…

O desenvolvimento fora de qualquer regra do sector off-shore

Há na finança,  de um lado um sector regulamentado, e de outro lado o shadow banking que o  não  é. O grau de regulamentação  do primeiro sector, que agrupa as actividades de banco de retalho, a gestão de carteiras, de fusão-aquisições – aproximadamente as actividades standard, ditas “atividades baunilha” – é mais ou menos elevado de acordo com os países, mas com as novas exigências em fundos próprios,  a redução das actividades sobre fundos próprios e a limitação dos bónus, progressos foram feitos, ainda que isso esteja  frequentemente sobre o modo “ dois passos à frente , um passo a trás”. Mas paralelamente, desenvolveu-se todo um sector off-shore que não é, de forma alguma,  regulamentado.

“Os famosos bancos universais, que oferecem toda a panóplia de serviços, têm tendência a colocar no shadow banking todas as actividades que preferem esconder aos reguladores”. À escala internacional, o shadow banking tem uma dimensão enorme porque se desenvolveu  particularmente nos países emergentes, com a China à  cabeça. Ora o shadow banking, no qual há de tudo e não importa o  acumula todos os defeitos: opacidade, ausência de regulamentação, etc. é uma espécie de amiba sem contornos bem definidos, fora de controlo, que se adaptam  às situações mais diversas, e que vai por conseguinte engrossando ao contrário do sector bancário tradicional que se reduz e isto  a medida que os bancos reduzirem a dimensão do seu balanço…

O regresso em força da desregulamentação

O que foi feito em matéria de regulação na Grã-Bretanha, com a lei Vickers, pode parecer ser o que se fez de mais avançado no  Ocidente. É talvez assim verdade sobre o papel, mas esta lei ainda não foi  adoptada e o perímetro de  santuário  das atividades bancárias é  ainda  objecto de ásperas negociações apoiadas numa forte e desenfreada   campanha  promovida pelo lobby bancário.

Ao ponto que John Vickers ele mesmo se declarou inquieto com o destino que ia   talvez reservar ao seu projecto. Tanto mais quando  desde a vitória dos conservadores em Maio passado, os ventos estão mais virados a favor da  redesregulamentação da City. Para David Cameron e George Osborne, o Ministro das Finanças, a preservação dos interesses da  City sempre foi essencial, mas entre 2010 e 2015, os conservadores, que têm constituído uma coligação com os liberais-democrata, tiveram que pôr em surdina a sua vontade de refazer um big bang   e ter em conta a hostilidade da opinião pública para com a finança… Estes travões parecem agora levantados, como se tem  visto recentemente com a destituição por George Osborne do patrão da Financial Conduct Authority, este último que tem dado mostras de firmeza impondo muito pesadas multas aos infractores  e normas muito restritivas.

A atracção das competências, ponto fraco dos bancos centrais

Os bancos centrais existem  para se ocupar  da política monetária e do controlo da inflação. É a sua missão em  todos os países.

Depois da crise de 2008 que revelou as graves lacunas da regulação, os governos decidiram, ao mesmo tempo ao nível europeu e ao nível  nacional  confiarem  a tarefa da regulação bancária aos que salvaram o planeta financeiro injectando massivamente  liquidez, os bancos centrais.  O problema é que os bancos centrais não estão melhor equipados para assegurar a  regulação  bancária  e velar pela sua aplicação. Os bancos privados continuam a atrair os melhores elementos e os diplomados mais brilhantes, terreno sobre o qual a função pública desvalorizada, quer seja o Banco da Inglaterra ou  outras instâncias de regulação, não estão  em condições de rivalizar.

Tão bem assim que nos jantares na  cidade de  Londres, apesar da crise, ser-se  banqueiro é  resto muito mais agradável que  ser regulador. As condições de trabalho, a remuneração e o estatuto continuam fazer a diferença. A situação é paradoxalmente um tanto diferente nos Estados Unidos onde, apesar dos defeitos do sistema, se vêem  brilhantes personalidades de Wall Street irem servir o Estado, como é o caso  de Gary Gensler, um antigo de Goldman Sachs que se tornou um  procurador da alta  finança, presidente na  Commodity Futures Trading Commission (CFTC). Um perfil que não se encontra de modo nenhum  na Europa, onde se vêem  raramente os banqueiros passarem para a função pública, os casos que se conhecem suscitam mesmo a reprovação da opinião, como se vê  com o exemplo de Emmanuel Macron chegado a à Bercy proveniente do departamento fusões e aquisições do banco Rothschild.

“Os banksters” e os outros

A finança abrange muitas especialidades do ponto de vista profissional: não há realmente nada de comum entre o banqueiro de detalhe de uma agência na  província, o gestor de  muito grandes  fortunas, o perito em fusões e aquisições ou o trader que especula sobre as matérias-primas. Tantos “knowhow” – e  remunerações – diferentes. A noção “de banksters” visa sobretudo o shadow banking, esta finança da sombra que não é regulamentada e que pratica uma especulação que só é  proveitosa  para os  bancos em detrimento da colectividade. Enquanto que na finança “baunilha”, as leis devem ser respeitadas, e se não o forem, há multas doravante colossais. Multas que seja dito mesmo que de passagem que não  são pagas  directamente pelos banqueiros, mas sim pelos  accionistas, a responsabilidade pessoal do banqueiro sobre a sua própria  fortuna só fica comprometida num só país, a Alemanha.

Os paraísos fiscais, sempre muito bem presentes

Os paraísos fiscais estão na  base do shadow banking. São as zonas do não-direito  da finança internacional onde as grandes fortunas podem esconder a sua riqueza via trusts, onde os  hedge funds fazem a maior parte  das   suas transacções ao abrigo de olhares incoveenientes.  Os hedge funds são  apresentados  certamente à uma certa supervisão por parte dos reguladores, mas estes últimos são incapazes de ir ver que se passa nas ilhas Caimões e noutros lugares off-shore onde os hedge funds realizam  a maior parte das suas transacções.

É-se forçado a reconhecer que os governos continuam de maneira bem hipócrita a proteger os paraísos fiscais. No G20 de Londres em 2009, Gordon Brown tinha expresso  a sua intenção de combater estes lugares off-shore. Seis anos depois, não existe sempre menos de uma trintena de off-shores  com os quais a  City faz mais ou menos directamente negócios. Mas os lugares off-shore sob pavilhão britânica  não são os  únicos: sobre o continente europeu, há, para citar apenas um,  tem-se o Mónaco.

Os dois rostos da City

A  City tem dois rostos. De um lado, o rosto ameno de uma finança que foi regulamentada e que é mais transparente em termos de fusão-aquisições e de bónus; do outro, o rosto opaco e tóxico da gestão de fortunas,  por exemplo dos oligarcas russas e dos multimilionários chineses cujos negócios são tratados via os  paraísos fiscais da coroa. No sector financeiro, a limitação dos bónus faz-se sentir. Terminado o champanhe, as prostitutas, a cocaína… os financeiros já  não vivem seguramente sob o mesmo nível de vida dos anos 2000, e os costumes refizeram-se de forma sensata . Não obstante os bónus continuam a fazer viver uma cidade como Londres. O imobiliário, a  arte, pessoal de manutenção, escolas privadas, serviços de saúde privados, etc.: os bónus criaram verdadeiramente  uma economia paralela que faz viver muita gente.

Tornou-se quase impossível hoje fazer jornalismo de investigação financeira. À  imprensa faltam cada vez mais  meios financeiros e esta é  apoiada, particularmente na França,  por grupos industriais, o  que nos faz levantar a questão da sua  independência. Ao mesmo tempo, a comunicação dos bancos ficou quer muito restritiva, quer muito abundante, mas sobre assuntos que são de pura diversão. Aquando das entrevistas, os dirigentes  são acompanhados pelos seus agentes de comunicação – frequentemente  antigos jornalistas – e pelos seus advogados que controlam a sua expressão.

Não há assim tanto  tempo, no início dos anos 2000, os bancos era muito menos sofisticados na sua abordagem das relações públicas. As fontes de informação põem problemas muito agudos: os que falam não sabem, e os que sabem não falam… As informações saem pelo canal de lançadores de alertas, ou seja sobre uma forma de delação que também não deixa de ser um  problema. E seguidamente por  experiência, as verdadeiras divulgações não são muito numerosas: apenas  três ou quatro lançadores de alertas puseram em dia as coisas realmente substanciais.

Necessário uma contra-especialização  para se  sair do pensamento único

Finance Watch exerce a função indispensável de contra-lobby. Há em  Bruxelas um  muito  forte desequilíbrio entre o peso do lobby financeiro e a pobreza em meios e especialistas  das ONG financeiras. Quando por exemplo, eu escrevia no Le Monde sobre  os mercados das matérias-primas  e, em especial, sobre os  diamantes,  não havia em  Global Witness, uma ONG especializada, senão uma só pessoa para seguir este sector, sem dúvida  o mais opaco  da finança. Os jornalistas que trabalham que tem acesso ao  meio financeiro vivem banhados numa espécie de pensamento único  que até cega um pouco.

Face ao  monolítico do lobby bancário, não há mais contra-poder  verdadeiramente constituído:  as agências de notações são criticadas e com toda a razão; os analistas bancários são dependentes do seu empregador; as políticas, bem como os reguladores, são capturados pelos interesses financeiros. Os meios de comunicação social têm necessidade de  contra-especialistas  independentes que, sem serem militantes, sejam  capaz de desconstruir  os argumentos do lobby bancário. Assim quando este último denuncia o excesso de complexidade da regulamentação,  é realmente essencial poder ouvir uma ONG como Finance Watch dizer de maneira bem sustentada  que a regulação é, pelo contrário, insuficiente.

 

Marc Roche

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http://www.market.ch/fr/finance/details/article/marc-roche-finance-watch-le-shadow-banking-est-une-espece-damibe-hors-de-controle.html

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