A construção da memória coletiva (os tópicos, referentes, lugares, símbolos marcos geográficos, linguísticos e políticos) têm muito a ver com o sucesso, consolidação, periferização ou marginalização da presença individual dos agentes que a conformam.
O estudo da peripécia vital, das aspirações, dos espaços de socialização, dos projetos, das renúncias, silêncios e das atuações, dos reconhecimentos e preterições dos intelectuais num espaço onde colidem dous ou mais projetos indenitários ou nacionais, sempre revela e destaca o contexto conflituoso em que se desenvolvem os textos, os discursos, as ideias; e também – o que é importante para a emissão e recepção dos discursos – as posições que se ocupa no tempo e fora deste depois, ao serem utilizados e re-utilizados na procura ou conformação de cânones e autoridade.
Ao longo de todo o século XIX, especialmente da sua segunda metade e à par que se constrói o espaço nacional espanhol e com ele o público de masas, configura-se a cultura galega moderna em dupla via.
Uma que transita pelo espaço central e potenciado da cultura “nacional” e “nacionalista” espanhola em construção acelerada e continuada; e outra que ocupa os espaços do permitido, do tolerado até o marginal, conformando o espaço folclórico, regional e nacional da cultura “nacional” e “nacionalista” galega, construída espasmodicamente no caldo das reações contra os excessos jacobinos e laminadores da primeira.
Se as caraterísticas da primeira são a estatalização e a construção desde arriba da nação (história, literatura, mass média, sistema educativo, administração, simbolismo, estatuário, museus, lugares de memória…), as da segunda são a regionalização, periferização, marginalização, e a construção alternativa desde as bases da arqueologia, da etnografia, da literatura popular, do consuetudinário, do folclore, ambas em pugna pela generalização dos elementos conservados daí simbolizados dentro de um corpus e inventados que se pretende generalizar ao conjunto. Por dizer mais simplesmente: na primeira há dinheiros, promoção e possibilidades de sucesso profissional diversificado e na segunda há voluntarismo, ativismo, amadorismo e cotização individual em tempo ou em dinheiros.
Entre ambas pervaga (tão prototípicos nos usos de mimetismo, hibridação, concorrência e ambivalência) a sequência de literatos, historiadores, funcionários e políticos galegos com projeto pessoal planificado e sucesso em Madrid. Uma espécie que não passa de moda, como também não passa aquela icónica cantiga do Vicente Araguas:
… muda a súa cor
é un gran burgués
o camaleón…
