No imaginário mito-cultural das civilizações ocidentais encontramos certas entidades de simbologia maligna, como por exemplo Lúcifer, a Serpente, Satanás, o Diabo. Este último provém de um termo grego, diabolos, que significa acusador, separador, aquele que provoca a desunião, caluniador, e é recorrente no Novo Testamento para designar o máximo espírito do mal, oposto a Deus e independente dřEle.
A Serpente, por sua vez, simboliza na cristandade, desde o Génesis (ao seduzir e enganar Eva levando-a a comer o fruto proibido), o supremo Mal, como vemos no Apocalipse: …a serpente antiga, que se chama Diabo e Satanás (Apocalipse 12, 9). No mesmo Génesis, porém, a serpente identifica-se com a Sabedoria, ao ser considerado o mais sagaz de todos os animais (Génesis 3,1) ŕ o que é confirmado por Jesus quando recomenda aos discípulos: Sede prudentes como as serpentes e simples como as pombas (Mateus 10, 16).
Esta última acepção entronca numa antiga tradição suméria, egípcia, grega, para a qual a serpente é enunciadora de oráculos e símbolo de unidade e de imortalidade ŕ a serpente renova-se mudando de pele, tal como o espírito evolui ao ir ocupando e abandonando sucessivos corpos, de acordo com a doutrina da reencarnação seguida por influentes correntes na Antiguidade.
Na cristandade, dois grupos gnósticos de relevo, os Ophitas (do grego ophis, serpente) e os Naassenos (do hebraico nâhâsh, serpente), prestavam culto à serpente, como manifestação da Sabedoria do Logos. O Uraeus, que adornava a coroa de Osíris e dos faraós do antigo Egipto, é formado por duas serpentes, e simboliza a realeza, a sapiência, a razão e a autoridade divinas. Duas serpentes entrelaçadas em torno de um bastão formam o caduceu, símbolo que já encontramos na antiga Suméria, há mais de 4500 anos: na Antiguidade clássica foi considerado como atributo de Hermes, e também de Asclépios (em latim: Esculápio), filho de Apolo e deus da medicina. As duas serpentes entrelaçadas do caduceu lembram a dupla hélice das cadeias de ADN, o que nos faz pensar na esfíngica premonição dos Antigos sobre a representação simbólica da saúde, da vitalidade, do renascimento ŕ e da perpetuidade da vida.
Mas não só na Suméria, no Egipto ou na antiga Grécia: na faixa da costa atlântica, no território que hoje é ocupado por Portugal e onde floresceu uma misteriosa civilização, há milhares de anos, a que António Quadros chama Ŗpovo dolménicoŗ, foram encontrados numerosos petróglifos e gravuras serpentiformes, sobretudo nos dólmenes portugueses, o que levou o antropólogo e arqueólogo A. A. Mendes Correia a considerar que o culto da serpente era corrente nessa região. A confirmá-lo, recordemos o poeta latino Rufo Festo Avieno (séc. IV d. C.), que no seu poema Orae Maritimae [ŖOrlas Marítimasŗ], inspirado em antigas tradições fenícias, chama a este território Ophiussa, terra das serpentes (do grego ophis, serpente).
Que enigmas entrelaçam o Portador da Luz, a Serpente, a antiga Ophiussa e a sabedoria gnóstica num só mistério de renovo de vida, de sabedoria, de luz e de imortalidade? Que relação se pode descortinar entre estes enigmas iniciáticos e o equívoco satanismo de um Jacques Cazotte, de um Baudelaire, de um Randolph Paschal Beverly, de um Ernest Gengenbach, de um Raul Leal ŕ entre tantos outros? Eis umas perguntas cuja resposta mereceria uma reflexão mais detida.
ANTÓNIO DE MACEDO
[Abril de 2014]

