A IDEIA – textos e escolhas de António Cândido Franco – MANUEL DE CASTRO – A ESPINHA ÚNICA, META FÍSICA, INSULTANTE DA POESIA – 4 – por FERNANDO J. B. MARTINHO

ideia1Em termos de tradição próxima, penso que a poesia de Manuel de Castro, nas suas linhas essenciais, se situa na continuidade do surrealismo, no entendimento que era, por exemplo, o de um António Maria Lisboa, para o qual a obra literária não se esgotava na experiência estética, e, antes, se identificava totalmente com um destino, sua afirmação e realização. À semelhança do que se passa com outros seus colegas do Gelo, há no seu surrealismo uma componente trágica, que Cesariny, como sabemos, teve dificuldade em aceitar. Por outro lado, Manuel de Castro não deixa de dialogar, digamos assim, com orientações próprias do tempo que lhe coube, como, por exemplo, o experimentalismo e o que se tem designado como a orientação barroquizante de alguns poetas do período. Há, no livro inédito Chuva no dia de finados, um conjunto de textos apresentados como Poemas experimentaisŗ. É, por outro lado, visível em muitos dos seus textos o cuidado posto na factura do poema, o trabalho de linguagem, a preocupação de alcançar determinados efeitos rítmicos. Estou a pensar, para dar um exemplo, na preferência que manifesta em vários poemas pelo verso trimembre, assente em adjectivos que procuram traduzir a complexidade do que está a exprimir: (noite) estática rígida fantásticaŗ; tudo me é inodoro, insípido, insulso e está tudo informe, impuro, amalgamado.

Encerro com a referência a dois poemas que fazem parte dos muitos dispersos incluídos em Bonsoir, Madame: um, O arquivo, vindo a público no jornal A Planície, de Moura, em 1962, e o outro A espinha do peixe, publicado no suplemento literário do Diário Ilustrado, em 1961. O primeiro é um extraordinário exercício de observação da atmosfera asfixiante de um serviço burocrático que o poeta terá conhecido, e um registo fiel das sensações auditivas e visuais que terá experienciado na modorra entediante de um trabalho rotineiro. No final do quadro, que parece retirado do Livro do Desassossego, então praticamente desconhecido, acrescenta-se à personagem da Bibliotecária-Chefe, outras três personagens que vêm mansamente perturbar a tepidez suave das horas/ escorrendo pelos vidros foscos das altas janelas, o antigo chefe e duas monjas pedintes que vêm regularmente informar-se/ de um processo há muito arquivado. O segundo é uma reflexão entre irónica e metafísica à volta de uma simples espinha de peixe, que, ao mesmo tempo, põe em acção a imaginação do poeta, de modo a recuperar o que houve de vida palpitante no peixe, para terminar com uma cruel e seca nota de desencanto niilista. Transcreva-se integralmente o poema, em homenagem a um poeta que Bonsoir, Madame veio recolocar no lugar cimeiro que por direito é o seu na poesia portuguesa da segunda metade do século passado: Do peixe ficou só a espinha. Não era fome. Não era Deus./ (O prato era redondo e mirava como um olho através do cílio/ o seu doirado filete circular.) No centro, essa espinha única,/ metafísica, insultante. Escutava os «eu bem dizia» burgueses/ com o insolente sorriso das suas vértebras. Ondulara num/ corpo vivo,/ contorcera-se nas malhas, frenética,/ sofrera o sacrifício do fogo,/ fora apreciada, beijada, sorvida;/ anteriormente vibrara nos estremecimentos eróticos do peixe;/ agora estava em ordem; apenas quatro ou cinco passos/ entre um gato e um esgoto,/ até final dissolução.

FERNANDO J.B. MARTINHO

[texto lido em 13-12-2014

na apresentação do número 73/74 da revista A Ideia

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