CARTA DO RIO – 90 por Rachel Gutiérrez

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Já muito longe das hortênsias e azaleias de Gramado, desmascaradas as ilusões do Carnaval, a vontade é de recitar com Manuel Bandeira “Vou-me embora pra Pasárgada…”

Não há notícias boas. A aparente alegria popular deixou um rastro de sujeira, de mal-estar e de apreensão com um futuro tão escorregadio quanto a lama e os dejetos do desastre ambiental de Mariana.

O governo, como se tivesse despertado de um longo sono letárgico, finalmente organizou um “mutirão”, com 200 mil militares do exército e das demais forças armadas, capitaneados pela Presidente e por 27 dos 39 ministros, para combater o que já estava aí há muitos anos e vinha se agravando nos últimos meses, isto é, o ambiente propício para o mosquito Aedes Aegypti e as epidemias que provoca. 350 cidades foram visitadas e seus moradores receberam panfletos e ouviram recomendações para manter suas casas, pátios e vasos de plantas limpos, sem águas paradas que se transformem em criadouros de mosquitos. A televisão também tem veiculado com frequência essas recomendações.

E o Sr. Marcelo Castro, nosso Ministro da Saúde, em uma de suas improvisadas e imprudentes entrevistas, afirmou que podemos voltar a ter otimismo porque a produção de uma vacina está prevista para daqui a mais ou menos um ano, o que é contestado pelos cientistas também entrevistados, que prevêem um mínimo de 3 anos para que alguma vacina, devidamente testada,  esteja disponível para ser aplicada na população.

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Ora, sabemos que a melhor vacina e a mais urgente é o saneamento básico. E o Brasil, num ranking de saneamento entre 200 países, ocupa o 112º lugar! Sabemos ainda que mais da metade da nossa população (sim, a metade dos nossos 200 milhões e 400 mil habitantes!) não tem acesso à coleta de esgoto; que 6 milhões de brasileiros não têm banheiro; que os milhões que vivem nas periferias das grandes cidades não contam nem com água, esgoto ou eletricidade; e que a falta de coleta de lixo expõe diariamente 30 milhões de brasileiros ao Aedes Aegipti, que transmite a dengue, a chikungunya, a zika e a síndrome de Guillain-Barré. Esta última afeta o sistema neurológico e provoca paralisia que pode levar à morte.

A nossa Viagem dos Argonautas publicou em 27 de janeiro de 2014, um pequeno texto meu sobre o Rio de Janeiro, cujo título, de minha responsabilidade – “A Cidade tem Mau-Hálito” –  me pareceu agressivo e feio. Mas, que fazer? Essa era a realidade “daquele então”, como dizem os espanhóis, triste realidade que não se modificou até hoje.  Preocupada naquele momento com a proximidade do Campeonato Mundial de Futebol, eu perguntava: “Como é que vamos receber multidões de turistas, atletas, visitantes, torcedores do mundo inteiro…?(…)” E finalizava com esta afirmação: “Enquanto todos os quiosques das praias, assim como os bairros e o centro da cidade não tiverem banheiros públicos higienizados e mantidos limpos pela prefeitura, não poderemos nos considerar civilizados nem teremos condições de receber quem quer que seja nesta Cidade Maravilhosa que, infelizmente, sofre de um desagradabilíssimo mau-hálito.”

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E agora estamos às vésperas das Olimpíadas.

É importante que se mobilize toda a população, sim, essa mesma população que acaba de festejar um Carnaval muito diferente do que já se chamou folia, folguedo, explosão de alegria. Multidões ocuparam as ruas das grandes metrópoles. Porém, só no Ceará, 55 cidades cancelaram a festa popular para não esbanjar seus parcos recursos. E uma crônica de Álvaro Miranda, no jornal O Globo de sábado 13, pinta um quadro pouco animador sobre o festejado carnaval de rua: “turmas de jovens gritando no metrô frases desconexas, sem cantar uma música de carnaval nova ou antiga. E claro, invariavelmente, com um litro de vodca na mão.” E descreve roubos, brigas, violência que nada têm de carnavalescas. Entre outras, refere-se à “situação insólita de um policial que teve sua arma furtada durante o desfile de um bloco.” Segundo o jornalista, tudo se passa agora “(…) como se uma pretensa ‘evolução’ dessa festa consistisse na simples movimentação sem sentido, sem música e sem dança, dessas turbas gigantescas de jovens bêbados, drogados ou brigões.”

Enquanto isso, como se uma outra síndrome de Guillain-Barré tivesse paralisado a própria política, vemos que se arrastam os  graves processos contra o Presidente da Cãmara e contra o Presidente do Senado… E como escreveu também no Globo, no mesmo sábado 13, o arquiteto e urbanista Luiz Fernando Janot: “Em paralelo, assistimos aos resultados da inconsequente gestão federal, estadual e municipal que levou a nação brasileira a um endividamento desmedido e, consequentemente, a um estado econômico falimentar. A maioria dos investimentos em serviços públicos essenciais – saúde, educação, transporte, infraestrutura e segurança pública – foi destinada, prioritariamente, a atender aos interesses políticos partidários e aos lobbies das grandes empresas. Instituiu-se, como regra do jogo, um pacto sinistro de conivência mútua que está sendo difícil de ser desarticulado.”

E como se nada disso bastasse para recitarmos com Manuel Bandeira “Vou-me embora pra Pasárgada”, o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, que se diz despreocupado com o Zika Vírus durante as próximas Olimpíadas, não toma conhecimento de que os atendentes das denúncias de focos de mosquitos costumam dar um prazo de 5 dias para comparecer aos locais, quando infectologistas recomendam a quaisquer  agentes de endemias o prazo máximo de 3 dias. Esse mesmo prefeito apoia como candidato à sua sucessão seu secretário, um deputado federal que também ocupou as páginas dos jornais no dia 13. Vejamos: “O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, enviou ao Supremo Tribunal Federal (STF) pedido de abertura de inquérito para investigar o secretário–executivo da prefeitura do Rio de Janeiro, Pedro Paulo (PMDB), por lesão corporal. Ele é acusado de ter agredido a ex-mulher, Alexandra Marcondes Teixeira…” Novas notícias do domingo 14 procuram rebater a denúncia da mulher “revelando” que teria sido ela a agressora ou a provocadora da agressão. Quantas vezes já vimos a vítima ser transformada em culpada? O caso requer todos os esclarecimentos possíveis. Afinal, desde as décadas de 70 e 80 do século passado, aprendemos que o privado também é político.

Como tem afirmado repetidas vezes o jornalista e escritor Fernando Gabeira, o Brasil vive uma crise ambiental, política, econômica e moral.

 

 

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