
São notáveis as inúmeras páginas que o perspicaz Edward W. Said dedicou ao grande Joseph Conrad.
Conrad, fascinava Said em muitos aspectos pela complexidade e profundidade de uma obra literária e uso da língua, aparentemente simples.
Said (por sua vez situado num frutífero e sucedido “out of place”) parte do autor de Coração das trevas uma e outra vez como ponto de início de algum dos mais interessantes ensaios do crítico literário e analista cultural.
Said, dentro das suas próprias chaves e percurso pessoal, tomava Conrad como exemplo do migrante que se adapta a uma nova língua e cultura, convertendo-se não apenas num exemplo de estilística, narrativa e temática, quanto num autor de sucesso; sem perder – e mesmo servindo-se disto – de uma constante de alienação que flui da linguagem nova adquirida aos conteúdos, personagens e temáticas apresentadas.
Comum a emigrados, exilados que se tornam utentes competentes em uma língua nova adquirida, é essa sensação autocrítica de desequilíbrio. A consciência de uma competência que nunca pode sacudir um sentimento de alienação a respeito do novo idioma, do novo universo cultural, um estranhamento a respeito da sua – normalmente admirada – nova “pátria”.
Resulta curioso como a necessidade de ser aceite pela comunidade receptora pode derivar num fenómeno em diversas fases e segundo as necessidades, de mímese, de camuflagem, de identificação. A obsessão pelo detalhe, pela perfeição no domínio da língua combina assim com uma consciência punçante da estrangeirice.
O fenómeno é concorrente com outros aspetos da vida do emigrante: quanto mais esforço na substituição maior a consciência da perda (da linguagem, das raízes, dos costumes, das lembranças) e ao mesmo tempo a consciência da presença delas – dos elementos que se quer dissimular ou apagar – na nova realidade que se está a construir. Sentimento de perda e de culpa que se incrementa quando se traspassa os limites do irremediável, do ponto ou decisão de não retorno, em forma de angústia existencial.
Mas o que acontece quando a saudade e a consciência da alienação, da não pertença, os elementos gritantes do alheio, são empregues como marcas, como reivindicação da própria voz? quando a voz alienada e estranhante, aos olhos e ouvidos dos membros da comunidade receptora, evidencia propositadamente essas presenças em vez de pretender as mimetizar em formas padrões?
Negritude, feminismo, homossexualidade, lúmpen, popularismo, regionalismo compartilham com as literaturas e manifestações culturais emergentes de antigos espaços coloniais ou minorizados essa vontade e energia de ser, de existir e ser parte nas comunidades receptoras, mas sendo diferente.
Neste sentido talvez convinha analisar ou tratar de interpretar a diferente leitura (em positivo contraste) que alguns escritores e ativistas da Galiza tratamos de fazer da “Lusofonia” e do “Acordo Ortográfico”, entendidos desde uma posição de rara marginalidade intemporal, ou dessa consciência de alheamento, como espaços simbólicos receptores, e mesmo como espaços novos comuns, capazes de nos integrar e nos que desenvolver futuros.
