A GALIZA COMO TAREFA – passou a romaria – Ernesto V. Souza

Carlos Calvo Varela, jornalista, antropólogo e preso político por causa de rocambolescos acasos e da errática estratégia propagandista dos governos conservadores, é, hoje por hoje, e como temos destacado nestas páginas um dos mais notáveis observadores da delirante quotidianidade que conforma a realidade psicológica, política e social dessa Galiza ainda fincada no mundo e tempo labrego ancestral que a articula, e confrontada à modernidade urbana, global, estatal que a desloca desde há quando menos 2 séculos dos seus eixos.

Na análise do confronto entre a construção de uma possível nação espanhola desde o Estado, em perspetivas centralistas e a fortíssima e plural etnicidade galega, Carlos situa uma e outra vez a necessidade de elaborarmos culturalmente, de dar sentido desde abaixo e em coletivo, a realidade. De construirmos os espaços e ferramentas necessários para desenvolver alternativas e críticas à interpretação da realidade, à canalização do pensamento que o Estado e o Capitalismo hegemonizam  desde o sistema educativo, a administração, os mass média, as maquinarias e artefatos culturais.

Destaca Carlos, e o diálogo não deixa pontada sem fio, numa recente entrevista a Arnaldo Otegui, publicada na revista Luzes:

Ahora que tanto se habla de Gramsci, se quejaba Raul Zelik en una entrevista, parece que nadie valora la hegemonía cultural construida en el País Vasco con las cooperativas, fiestas populares, escuelas de euskara, etc… ¿Existen atajos a ese trabajo de hormiguita para transformar la sociedad? No existen atajos, quienes deseamos construir una sociedad alternativa debemos partir de la aceptación del principio de realidad. Ese principio nos llevará a reconocer que el capitalismo nos lleva décadas de ventaja en el terreno ideológico, en el terreno de los valores y los principios. Esa realidad no puede ser cambiada desde el optimismo de la voluntad sino desde el pesimismo de la inteligencia. Hay que combinar ambas actitudes, la realidad nos puede condicionar al pesimismo pero la voluntad les conducirá siempre al optimismo. La batalla ideológica es la más importante de las batallas, junto con la puesta en marcha de experiencias alternativas (de consumo, de vida…) y el ejemplo de nuestra coherencia entre lo que defendemos y lo que hacemos.

O 24 de fevereiro, com uma rara unanimidade, a Galiza celebrou o “Dia de Rosalia”, a rede buliu e também as praças, colégios e jornais. Festividade sem feriado, defendida pelo mundo das artes, a cultura e a escola, reivindicada pelo BNG e demais partidos na oposição e fora do Parlamento, e assumida pelo conjunto do associativismo galego, mas com negativa do atual Governo autónomo da Galiza, que, porém, calhou na sociedade.

A unanimidade que a figura e Rosalia de Castro levanta nos galegos desde a edição dos seus celebrados Cantares Gallegos (1863) é inquestionável. A comunhão com o espírito coletivo e popular da sua obra poética conforma per se um fenómeno identitário de proporções extraordinárias e emoções coletivas. Unicamente no caso do recente passamento de Xosé Neira Vilas, pudo-se contemplar como o espírito da Galiza canta e chora, como heróis, aqueles escritores que souberam se colocar do lado dos humildes e dos sem voz, para cantar também na sua língua.

Passou o dia e passou a romaria, diz o dito, passou o dia de Rosalia, mas este ano deixa alguns momentos formidáveis, entre eles estes vídeos promovidos pela AGAL, nos que pode enxergar-se uma Galiza viva, criativa, universal :

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