EDITORIAL – Estamos entregues à bicharada

Diário de Bordo - IITemos por diversas vezes referido casos que demonstram que a comunicação social exerce uma pedagogia desonesta ao serviço de um sistema que concentra cada vez em menos mãos o poder económico e político,  que a função da comunicação social deixou de ser a de informar, mas a de formar uma mentalidade colectiva padronizada que marginalize os que se querem furtar a essa padronização, ao pensamento único, ao politicamente correcto, ao estúpido lugar comum elevado à condição de sabedoria. Noam Chomsky, um norte-americano, ou seja um homem que nasceu no coração desse império onde se fabricam as trevas da alienação, definiu as estratégias que o poder impõe. Vamos, em síntese, repeti-las.

Uma das mais bem utilizadas pelos media  consiste em desviar a atenção do público dos problemas importantes e das mudanças decididas pelas elites políticas e económicas, inundando-nos com futilidades, pormenores e episódios da vida de actores, futebolistas e  impedindo-nos de nos interessarmos por temas essenciais, da política e da ciência; inventar problemas ou inflar a importância de questões menores e depois apresentar soluções; ameaçar com medidas inaceitáveis, desmenti-las e indo aplicando-as; apresentar as decisões impopulares como “dolorosas, mas necessárias”; exercer um  discurso didáctico, como se dirigido a crianças ou deficientes mentais, apresentando como óbvias conclusões mais do que discutíveis implantando ideias, desejos, medos e temores, compulsões, induzindo comportamentos; complicar a explicação das tecnologias, alimentando, sobretudo na televisão, a mediocridade´, a piada ordinária – o índice de literacia sobe, mas a vulgaridade  e a mediocridade aumentam, promovendo entre público a ideia de que é «giro» ser estúpido, vulgar e inculto… em Portugal, há quase 50 anos, o Zip-Zip era um programa de sucesso, apesar de abordar temas de cultura – o analfabetismo era elevado e o número de estudantes do ensino universitário não chegava a 30 mil… – hoje, com cerca de 20% da população com formação superior, campeiam programas imbecis em tal quantidade que nem merece a pena falar num ou noutro; fazer acreditar que cada um é culpado pela sua desgraça, por falta causa de inteligência ou de força de vontade e de assertividade. Em suma, nos  últimos 50 anos, os avanços acelerados da ciência têm gerado crescente brecha entre os conhecimentos do público e os dominados e utilizados pelas elites dominantes. Graças à biologia, à neurobiologia e à psicologia aplicada, o “sistema” possui um conhecimento avançado do ser humano, tanto de forma física como psicologicamente. O sistema conhece melhor o indivíduo comum do que ele  se conhece a si mesmo.

Conclusão: estamos entregues à bicharada.

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