O desmantelamento do euro avança na Finlândia – por Laurent Herblay

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

O desmantelamento do euro avança na Finlândia

Laurent Herblay (son site)

 

Decididamente, a UE e o euro não são mais do que castelos de cartas. Enquanto que Londres prepara um referendo sobre a saída da máquina europeia, na Finlândia, na qual um dos seus ministros já tinha indicado em 2012 que o país “não se agarrará ao euro a qualquer preço”, põe-se de novo a questão de estar ou não no euro.

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As razões das dúvidas de Helsínquia

A priori, é surpreendente que a Finlândia se interrogue se não será mais interessante abandonar o euro. Com efeito, eis um pequeno país, vizinho da Rússia e sensível à sua área de influência, que põe em questão a sua pertença a um clube mais povoado e mais rico que o seu incómodo vizinho. Vejam como tudo isto diz muito sobre todos os problemas que põe esta união monetária contranatura. Como o resumiu muito bem Romaric Godin há algumas semanas no jornal La Tribune , o país está a atravessar uma vaga de austeridade drástica que provocou já uma greve geral em Setembro, a primeira desde 1956. Com efeito, o governo procedente das últimas eleições anunciou querer reduzir de 5% o custo do trabalho e toda uma série de medidas de baixa das prestações sociais na linha das poções da Troika.

É necessário dizer que a situação económica do país é difícil, dado que o seu PIB desceu de 0,3% desde 2010 enquanto que o da zona euro progrediu de 2,9% sobre o mesmo período. A produção industrial desceu de maneira contínua desde há dois anos e meio. O desemprego aproxima-se dos 10% e apresenta o mais forte aumento da zona euro. Os capitais deixam o país. Razão: uma progressão do custo do trabalho de 8,9% em 5 anos, enquanto que a produtividade recuou, diminuindo fortemente a competitividade do país, tanto mais que muitos países da zona euro praticaram uma desvalorização interna. A nova maioria propôs-se levar a cabo a mesma política, acoplada com uma austeridade orçamental. Mas o quarto ano de recessão poderia empurrar o país para a situação de pôr em causa a sua participação no euro.

A armadilha da moeda única

É certo, a situação económica da Finlândia tem também uma estreita relação com os insucessos de Nokia, antigo líder do telemóvel, que passou ao lado da revolução dos telefones ditos inteligentes, ao ponto de acabar por vender esta actividade à Microsoft. Mas mais profundamente, isto demonstra uma das falhas essenciais da moeda única, que impõe uma mesma política monetária a países diferentes, e que empurra, como se podia esperar a partir dos anos 1990, os países para uma corrida mortífera para o mínimo social admissível. Antes do euro, os países ajustavam a sua competitividade pelo valor da sua moeda. O euro transferiu a carga do ajustamento para os ombros dos assalariados, que devem aceitar, no melhor dos casos, as baixas das prestações sociais, e no pior dos casos, terem de aceitar as baixas de salários, como em Espanha ou como na Grécia (- 22% para o SMIC).

Mas esta corrida ao mínimo social é uma corrida sem fim. Primeiro, é necessário ter presente que existe perto das nossas fronteiras países onde o salário mínimo mal ultrapassa os 100 euros por mês, na África do Norte ou na Europa do Leste. E pior ainda, a África e os países menos desenvolvidos na Ásia descem ainda mais nesta corrida ao mínimo social se necessário. Certamente, os países europeus constituem entre si os seus principais parceiros nas trocas comerciais mas a entrada da Europa do Leste pôs uma pressão no sentido da baixa dos salários, particularmente bem explorada por Berlim, que também traçou uma via mortífera para os países ditos desenvolvidos, a baixa do custo do trabalho, até ao horror social dos mini‑jobs e da explosão da pobreza no crescimento de um modelo que não é modelo para ninguém, se o analisarmos mais detalhadamente.

Mas para a Finlândia, o ajustamento a efectuar é extremamente importante, depois de ter perdido a sua locomotiva económica. É por conseguinte bem lógico que o país acabe por se levantar a questão de um regresso à moeda nacional que lhe permitiria ajustar-se de maneira bem menos dolorosa.

Laurent Herblay (do seu site-Novembro de 2015), republicado por Agora Vox, Le démontage de l’euro avance en Finlande. Texto disponível em :

http://www.agoravox.fr/actualites/international/article/le-demontage-de-l-euro-avance-en-174621

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