HOJE, A ITÁLIA. AMANHÃ SE VERÁ QUEM SE SEGUE – 14. OS BANCOS QUE METEM MEDO, OS BANCOS DO TERROR – 2ª PARTE – por VINCENZO COMITO

Falareconomia1

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

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Os bancos que metem medo, os bancos do  terror  2ª Parte

Vincenzo Comito, Banche da paura

Sbilanciamoci.info, 1 de Fevereiro de 2016

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Os problemas postos pelo sistema bancário depois da crise de 2008, os recentes acontecimentos do sistema financeiros italiano e o arranque atormentada da união bancária europeia. Uma análise em 3 partes.

(continuação)

Vincenzo Comito

comito - II

As dificuldades dos bancos foram transferidas, no decorrer destes últimos anos, por um lado sobre os cofres públicos e, por outro lado, sobre os trabalhadores do sector, embora os dirigentes das grandes instituições, responsáveis da grande parte dos problemas criados tenham saído praticamente indemnes; alguns deles, no máximo, foram demitidos das suas funções mas com indemnizações milionárias. Entretanto o sistema dos incentivos, tão perverso no seu tempo, está longe de ser reformulado  como é de resto necessário.

.Desde o rebentar da crise até hoje perderam-se assim cerca de 600.000 postos de trabalho no Ocidente. Nos últimos cinco anos somente na Europa já desapareceram 225.000 postos de trabalho e apenas em 2015 os grandes grupos bancários europeus anunciaram 130.000 reduções de empregos (Chocron, 2015). Um tal cálculo resulta quer do desaparecimento de dezenas de milhares de postos de trabalho quer da reestruturação do perímetro das atividades à nível geográfico ou sectorial.

A inovação tecnológica e o desenvolvimento do home banking contribuíram também para a redução dos efectivos.

Bancos universais e bancos de investimentos

O modelo do banco universal prevê que oa instituições além de desenvolverem  a atividade da banca comum, tomam também participações nas empresas, desenvolvem actividades de trading, especulam, por conta própria nos mercados, desenvolvem a consultadoria financeira para os seus clientes quanto à captação de fundos nos mercados, actuam nos processos de emissão de títulos, de fusões e de aquisições.

Nos Estados Unidos tal modelo não se pôde afirmar senão em tempos recentes devido ao facto da  lei Glass Steagall Act de 1933 ter  imposto a separação entre as atividades de banco comum e os bancos de investimento. Mas em 1999, sob a presidência Clinton, a interdição foi levantada.

Mas por agora tudo parece reposto, pelo menos em parte, em discussão:

Aparece claramente que o modelo do banco universal é aberto hoje a inconvenientes difíceis de ultrapassa: de um lado, a hipótese ilusória que combinando as diferentes actividades numa só instituição se reduzem  os seus custos, por outro lado, a tomada de consciência de que a atividade de banco comum e a de banco de investimento são duas actividades completamente diferentes que exigem diferentes competências e talentos (Reed, 2015).

O banco d einvestimento tornou-se uma actividade cada vez mais difícil. Basilea III e o próprio governo dos EUA aumentaram as exigências em capital próprio e em liquidez para o desenrolar de muitas destas atividades; entre outras coisas, as novas regras exigirão um nível de meios próprios muito mais elevado que anteriormente,  sobretudo para as actividades de trading, a especulação, embora a concorrência pressione sobre as margens de lucro. Por outro lado, uma tal profissão exige que se façam muitas coisas diferentes em muitos lugares ao mesmo tempo e isto tornou-se muito difícil (Gaper, 2015).

Ultimamente assistiu-se assim a um proliferar de projetos de reestruturação por parte dos grandes bancos europeus, até porque estes obtêm uma rentabilidade que, para além de estar em queda, é mesmo inferior à dos bancos dos Estados Unidos. Os novos requisitos de capital empurram-nos para se concentrarem nas atividades leves em capital (consultoria sobre fusões e aquisições e em ajudar os clientes a obterem capitais sobre o mercado) e a abandonar as outras actividades  (trading em particular Outras institutuições continuam a fazer de tudo mas em menor escala (Noonan, 2015). Por fim, há de qualquer modo um tema comum para os bancos de investimento europeus: recuo, reforma (Gapper, 2015).

A reforma

Rapidamente depois de rebentar a crise de 2008 não havia quase nenhum homem político no Ocidente que não tivesse prometido uma profunda reestruturação do sistema. Por exemplo, Nicola Sarkozy declarava em Setembro de 2008: “a crise deveria levar à uma reestruturação de grande amplitude em todo o sector bancário mundial” (Jorion, 2015).

Mas os bancos tomaram milhares de milhões que serviram para que eles se mantivessem de pé e depois, de imediato,  começaram a criticar os governos porque estes queriam mudar as coisas. E com efeito as coisas não foram praticamente nada mudadas. Isto, embora desde há alguns anos que se tem verificado uma vaga de escândalos o que continua a mostrar à opinião pública uma face muito pouco atractiva do sector bancário.

O debate sobre como alterar o sector bancário tinha-se concentrado sobre muitos pontos. Sublinhava-se assim a necessidade de serem aumentadas as bases de capital próprio e os níveis de liquidez; que se dividissem as atividades de bancos comuns e as de bancos de investimento; que fossem redimensionados as Instituições bancárias e financeiras  too big to fail; que se pusessem sobre controlo uma série de operações muito discutíveis; que fossem redinsionados os sempre e cada vez mais vastos negócios de gestão de fortunas, os hedge funds, os fundos privados de investimentos, o shadow banking;que se reforçasse o papel das autoridades de controlo; que se interviesse  sobre o perverso sistema de remunerações dos gestores do sector. E a lista poderia continuar.

Mas os bancos procuraram, com um considerável sucesso, pôr o seu veto a toda e qualquer estratégia que não fosse a reconstrução do sistema num modo sensivelmente idêntico ao que já existia antes da crise.

De qualquer modo com Basilea III foram lançadas  as regras mais apertadas no que diz respeito à solvabilidade e à liquidez das instituições bancárias. Mas segundo muitos especialistas os novos parâmetros, bem melhores que os precedentes, são para muitos deles ainda  não satisfatórios.

 Nos Estados Unidos em do 2010 foi aprovada a lei Dodd-Frank, em que os seus objetivos eram os de endurecer as regras de solvabilidade para os bancos, de isolar as atividades desenvolvidas por conta própria, de reforçar os poderes dos reguladores. Mas cinco anos depois da adopção das novas regras, graças à sabotagem do partido republicano, ao insuficiente desejo de intervenção dos controladores, bem como à mesma fraqueza das regras, não há muita coisa que tenha sido sensivelmente alterada.

De toda a maneira, na Europa fez-se comparativamente muito menos. Até um certo ponto em Bruxelas tinha sido confiado à comissão Liikanen um estudo sobre o que se deveria fazer; a análise, largamente cheia de lacunas, previa, de toda a maneira, a separação nítida entre atividades de banco comum e as actividades de e banco de investimento. A proposta não passou.

Em todo caso agora o vento no nosso continente parece estar a mudar e muito, mas  a favor do sistema bancário. Em especial, regressam em pleno esplendor os processos de titularização e o mercado dos derivados, multiplicam-se na Grã-Bretanha os sinais de uma viragem decisiva. Foi reduzida a tributação sobre muitas operações financeiras. A FCA, o organismo encarregado do controlo dos mercados, estava a começar a fazer um trabalho positivo, multiplicando as sanções contra os operadores na bolsa e em especial contra os bancos. Assim ao seu diretor não será renovado o contrato e mesmo que mostre ter  a intenção de querer seguir a mesma linha será enviado para casa. E poderia-se continuar na lista dos erros que se estão a fazer. (Albert, 2016).

Porque é que na Europa as reformas não vão em frente

Podem-se citar dois casos que mostram claramente os mecanismos através dos quais as tentativas de reforma do sistema na Europa são sistematicamente bloqueadas:

Em Janeiro de 2014 Michel Barnier, que era então o Comissário europeu encarregado das questões financeiras, tinha estabelecido um projecto dito “de separação bancária” em que o objetivo era o de dividir as atividades de mercado das actividades de banco comum O projecto teria atingido cerca de trinta instituições. Mas rapidamente houve um levantar de escudos de protecção, e mesmo o governador do Banco da França o julga como um esquema irresponsável. Entretanto Barnier abandona o cargo e o novo Comissário, um Britânico, é bem mais mole.  Primeiro são eliminados da lista os bancos britânicos, seguidamente obtêm-se isenções para a Alemanha, a Itália e os EUA; e, por fim, o texto é esvaziado de quase toda a sua substância e permanecem na rede, até ao momento, unicamente três instituições. (Gresillon, 2016).

Entretanto a crise de 2008 tinha dado uma nova força à velha ideia de James Tobin para uma taxa sobre as transações financeiras. Os chefes de estado e de governo tinham-na aprovado no G20 de Cannes no mês de Novembro de 2011. Na Europa 11 países tinham-se  declarado de acordo para pô-la em acção. Até ao fim de Dezembro de 2011 a Comissão produzia um projeto que previa uma tributação de uma vasta gama de produtos financeiros, com os 0,1% de alíquota para as acções e as obrigações e os 0,01% para os produtos derivados. A taxa teria podido proporcionar entre 34 e 37 mil milhões de euros por ano e teria redimensionado em 3 três quartos as transações sobre os derivados. Mas o lobby bancário, ajudado mesmo pela oposição da Grã-Bretanha e, seguidamente, depois da rertirada do governo francês que se alinhava sensivelmente às posições do lobby bancário, obtinha a confirmação de parte vencida. Decorrem ainda em Bruxelas as discussões, mas estas orientam-se agora para uma taxa à alíquota muito reduzida e isentando certas transações, e a sua aplicação é reenviada para 2017.

Assim pode-se, por fim, afirmar que a Europa está-se a movimentar-se   para uma posterior expansão da esfera financeira em  detrimento da economia real. (Baranes, 2015).

(continua)

Textos citados neste artigo

-Albert E., « 2016, année de la contre-attaque de la City, Le Monde, 13 gennaio 2016

-Baranes A., La finanza al potere e l’Europa contromano, www.sbilanciamoci.info, 12 dicembre 2015

-Chocron V., Suppressions de postes massives dans les grandes banques européennes,www.lesechos.fr, 31 dicembre 2015

-Gapper J., Europe’s banks face a difficult global retreat, www.ft.com, 21 ottobre 2015

-Gresillon G., Dix petits nègres au pays de la banque, www.lesechos.fr, 4 gennaio 2016

-Jorion P., Sept ans après, les banques fragiles et impunies, Le Monde, 18 dicembre 2015

-Noonan L., Regulatory changes force investment banks into « capital light » acrivities,www.ft.com, 13 dicembre 2015

-Reed J., We were wrong about universal banking, www.ft.com, 11 novembre 2015

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Ver o original em:

Banche da paura/2

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