Em meio a tantos e tão graves acontecimentos que abalaram o país nos últimos dias, prefiro escrever sobre o livro que mencionei na semana passada: A UTILIDADE DO INÚTIL, do filósofo italiano Nuccio Ordine.
Concebido como um manifesto contra o excessivo utilitarismo dos tempos modernos, em curtos capítulos, um pouco à maneira de Eduardo Galeano, Ordine recolhe e revela o pensamento de incontáveis críticos do primado do ter sobre o ser desde a Grécia e a Roma clássicas até os nossos dias, sem ordem cronológica, ao sabor de livres associações, como uma flânerie ziguezagueante.
Acredito que assim como a poesia depende das águas de um lago sereno, como o de Narciso, onde o mundo e o poeta se descobrem refletidos, a filosofia depende daquele famoso otium cum dignitate (ócio com dignidade) dos antigos. Pois o filósofo que escreve aos sábados no segundo caderno do jornal O Globo (Márcio Tavares do Amaral) veio enriquecer minha leitura e minha reflexão ao abordar pensadores menos consagrados, que seriam de um “segundo time”, como Lucrécio, Sêneca, Montaigne e Pascal.
Montaigne (1533-1592), segundo Ordine, sabia bem que “várias das suas qualidades ‘não desprezíveis’” eram “completamente inúteis ‘num século muito depravado’.”!) E o cita:
As próprias qualidades, de que posso jactar-me, são inúteis neste século, a simplicidade de meus hábitos seria tachada de covardia e fraqueza; minha fé e meus escrúpulos, de superstição; minha franqueza e liberdade de atitude seriam julgadas importunas e ousadas.
E o italiano acrescenta que o mesmo Montaigne também afirmou que nada é inútil na natureza, nem mesmo as inutilidades.
É claro que isso nos remete à famosa frase do químico Lavoisier (1743-1794) que, dois séculos depois de Montaigne, afirmou: Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma. E o extraordinário é que eu fui criada ouvindo de minha mãe esta outra frase, um tanto folclórica e gauchesca, que ela aprendera com seu pai, o avô que não cheguei a conhecer: Guarda o que não presta para teres o que precisas! Só agora, pensando na “utilidade do inútil”, percebi que aquilo que tanto intrigou a minha infância é de uma profunda sabedoria. Pois eu me perguntava: como pode ser que o que não presta é o que preciso? Se não presta, não preciso! Crianças tendem a ser parmenídicas, isto é, discípulas inconscientes de Parmênides, para quem o que é, é, e o que não é, não é. Mas a vida é heraclítica, pois, como diz Heráclito, o que não é, vem a ser, e o que é, deixa de ser…( tudo se transforma).
Deixemos os primórdios da filosofia e voltemos às inutilidades: uma delas é a que dá título à primeira parte do livro de Ordine: a útil inutilidade da literatura. Dom Quixote, por exemplo, que deu em todas as línguas o adjetivo quixotesco, (como Madame Bovary deu bovarismo), é um sonhador contumaz, alguém que luta ridiculamente contra moinhos de vento, que pensa na honra acima de tudo e transforma em grande dama (Dulcinea del Toboso) uma simples camponesa. Mas o Quixote também encarna o sonho, a dignidade humana, a honradez, o heroísmo, a defesa amorosa do ideal, a pureza e a bondade. Dom Quixote não existe, mas talvez exista cada vez que defendemos tudo o que transcende as mesquinharias do mundo do mercado e do consumo, quando nos elevamos acima da ganância e da busca do poder pelo poder, quando olhamos para os nossos semelhantes com respeito e solidariedade, quando somos generosos. E quando nos permitimos sonhar. No mundo atual, tudo isso parece quixotesco e, ao mesmo tempo, sentimos que é cada vez mais necessário.
Inúteis, no sentido de pouco ou nada lucrativos são todos os saberes, as artes, os valores da amizade e da cordialidade, inúteis, mas absolutamente necessários, são pequenos momentos de silêncio, de olhar o céu, de ver a natureza, de enxergar o Outro que está diante de nós e cujo olhar pode nos dizer muito mais do que todos os tablets, ou todas as mensagens condensadas nos celulares. Inútil pode parecer conversar horas a fio com um amigo, mas como é bom!
Outro dia, vi um camelô que vendia, numa rua de Copacabana, um brinquedo que já vem programado para fazer bolhas de sabão. O brinquedo é novo, mas as bolhas são as mesmas e continuam mágicas. Inutilidades necessárias são brinquedos simples como esse, que ainda pode alimentar a imaginação e a capacidade de se surpreender de uma criança. Comprei-o e o trouxe para um amiguinho de quatro anos, que é meu vizinho. Ele adorou.
Nos tempos em que vivemos, menos que qualquer escrita, a poesia também não dá dinheiro, mas continua necessária. Agora mesmo, enquanto escrevo esta carta, um amigo psicanalista acaba de me enviar por email a montagem marota de um vídeo no qual Silvester Stallone, no papel de Rambo, declama um poema de Carlos Drummond de Andrade, aqueles emocionados e emocionantes versos sobre a cidade natal do poeta mineiro: Itabira. A boutade é muito estranha, mas o poema resiste.
Acho, portanto, que vem a calhar ouvirmos, na voz do próprio poeta Drummond, sua Confidência de Itabirano.