UMA CARTA DE UM VELHO QUE SOU EU A UMA AMIGA MINHA A PROPÓSITO DE DINHEIRO – por JÚLIO MARQUES MOTA – I

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júlio marques mota

Coimbra, 7 de Março de 2016

 

Minha amiga

Diz-me: amanhã, vou colocar todas as minhas poupanças num cofre, no banco!

Diz-me agora que não vai fazer  nenhum depósito. Inversão do papel de um banco, portanto.  Grosso modo, de um ponto de vista técnico, podemos dizer que  um banco serve para receber depósitos e conceder créditos. O que o banco faz então é combinar maturidades diferentes, de depósitos de curto prazo, por exemplo, com créditos de longo prazo. Terá sido assim, desde o tempo em que os ourives em Londres passaram a emitir certificados de dívida, como moeda, o que terá acontecido por volta de 1640!

A minha amiga vai pois   alugar um cofre, pagar, digamos 200 euros ao ano, para esconder o dinheiro dos apetites da alta finança e vai então blindá-lo na toca do lobo!  Esta história do dinheiro guardado num cofre de um  banco mas escondido desse mesmo  banco é qualquer coisa do mais aberrante  que alguma vez alguém há anos atrás poderia imaginar. Um pontapé no cú da lógica, no do capitalismo também, mas dramática é, nesse sentido  igualmente,  toda esta história que passo agora a contar.

Mas ainda  mais espantoso do que aquilo que vai fazer amanhã  é  assistir  à cena de um homem muito bem vestido rodeado de polícias a entrar num banco em Lisboa. Um homem com um fato de bom corte, de bom tecido. Possivelmente um Savile Row, uma camisa de elegante padrão, uma Pancaldi, quem sabe, com uns sapatos de meter inveja a um rico, possivelmente uns J.M Weston, um homem cercado de polícias bem armados. Preso, ele? Acusado de assaltar a caixa multibanco  à entrada do banco? Que aconteceu? Que fez este homem para ir preso, interrogaram-se todos os presentes naquele dia e naquele banco  e,  todos  quero aqui  dizer  os clientes e os funcionários presentes.  Não, não vai preso, isto é afinal   um assalto e os polícias  são falsos polícias, foi o que a seguir  pensaram, por falta de referências seja do que for. E se assim pensaram,  todos como tal se  comportaram.  Todos se assustaram e esperaram ouvir Assalto, mãos ao ar. Pensando bem e com o medo da morte dentro da cabeça todos instantaneamente levantaram os braços.  Para quem  estivesse de fora, que raio de manifestação seria aquela, num banco, lá dentro! De esquerda, de direita?

Mas, na  cabeça dos que acabaram de entrar, do homem muito bem vestido e ainda melhor calçado,  dos polícias que o acompanharam, em todos eles o seu rosto exprimia apenas espanto : estamos num país de cágados, foi o que estes pensaram. Estejam descansados, disse o graduado da polícia. Somos polícias e não há aqui nenhum desrespeito à lei. Foi o que acalmou uns e outros, clientes e empregados do banco.

Que se passou, afinal? Simples. O homem, gente avisada, gente desconfiada  de tudo o que é Instituição Europeia, gente acautelada do  dinheiro que era seu, tem medo, medo de o colocar no sistema financeiro. Um homem que sente não ter nenhum sentido pagar para depositar o dinheiro e que lata, sem depois ter nenhuma  garantia de que o vai receber, porque a directiva da União Europeia assim o diz. Um homem que sente não ter nenhum sentido receber dinheiro por lhe terem concedido um  crédito. Nem para depositar, nem para levantar, nada lhe parece ter sentido neste plano das taxas de juro negativas. Este homem sente que  está transitoriamente num mundo de loucos. O melhor,  pensa então, é blindar o dinheiro num cofre do próprio banco.

De resto, a alternativa, no melhor dos casos pode ser a indicada por este extracto bancário:

Velho - I

Não vale a pena colocar dinheiro no banco, pelo que se vê, até porque se pode perder como se tem estado a ver. Colocando o dinheiro no cofre do banco, a probabilidade de ser saqueado pelas Instituições é agora nula, a probabilidade de ser saqueado pela ganância desenfreada da alta finança que resulta da desregulação  financeira que tem sido promovida  pelas Instituições  é igualmente nula, a probabilidade de ser apanhado num golpe, num roubo, declarado pelo senhor  Carlos Costa por ordem do senhor Draghi para tapar um buraco do banco que os seus serviços não viram, também ela é zero. Para isso paga à autoridade, a polícia, para que com a sua presença valide um facto: o de que não há nenhuma autoridade governamental e por isso o que se estava a passar. Não há autoridade e porque a não há, é que o nosso homem bem vestido e ainda melhor calçado precisa de colocar o dinheiro num cofre e não num depósito ou numa aplicação financeira. Porque não há autoridade, coloca o dinheiro fora de circulação sem diminuição da massa monetária portuguesa e porque não há autoridade cumpra-se a ordem da autoridade. De repente, assim somos enviados a um dos  paradoxos de Zenão: sou cretense e todos os cretenses são mentirosos. Aqui seria cumpra-se porque sou autoridade e estou a  garantir que não há autoridade, não há lei, que  tudo é permitido.

Todos os grandes teóricos da política económica e da politica monetária tout court  rebolar-se-ão ou de riso ou de raiva perante o que se está a passar. Pagar por depositar dinheiro no  banco, receber por levantar dinheiro no banco, fere toda a lógica, mas persiste-se. Além do mais, tudo isto  significa que não se pode confiar mais em nenhuma instituição, seja ela internacional seja ela nacional.

Relembremos aqui o golpe de Carlos Costa, relembremos aqui uma outra amiga minha. Na primeira divisão do Banco BES em Banco Bom e Banco Mau, esta minha amiga ficou com obrigações seniores no Banco Bom, obrigações seniores e com uma divida sob hipoteca de uma casa. O que ganhava de um lado pagava a casa pelo outro. Mas confiou em Portugal, confiou no Passos Coelho, confiou no Cavaco Silva.  As obrigações foram emitidas sob legislação portuguesa e eram obrigações seniores.  E que se passou?

Exemplo da valorização do Banif, o tal banco que dava lucros, segundo Passos Coelho: já mediram o nariz deste político face ao de Pinóquio?

Velho - II

Velho - III

Que se passou com estes títulos ditos seniores do BES?

Cinco emissões de obrigações seniores do BES e que até então tinham  sido atribuídas ao ” banco bom” são realocados durante a noite, sem aviso, ao “banco mau “. Os detentores destas obrigações  perderam  80% do  seu dinheiro entre a noite de 29 de Dezembro e a manhã de 30 de Dezembro.

Como Bloomberg referiu,  este é “um perigoso precedente ” – na verdade, não é muito diferente do precedente quase conseguido  pelo governo da Áustria. Aqui está o problema em poucas palavras: o governo, ou melhor, o BCE, de repente “descobriu” – e isso não deve realmente surpreender ninguém – que o buraco financeiro que tinha sido criado no  BES é realmente muito grande e muito maior do que até aí se tinha considerado.  De acordo com a Bloomberg, isso levou  a que  o governo de Portugal tenha optado pela  expropriação instantâneas – um presente surpresa de Ano Novo para os obrigacionistas do  BES, por assim dizer:

Se é o proprietário de qualquer  um desses cinco títulos na terça-feira, então estava a ser-lhe devido dinheiro  pelo Novo Banco, o bom banco. Na quarta-feira, foi-lhes  dito que os seus títulos havia sido transferidos para o BES, o banco mau. O Banco de Portugal  seleccionou cinco dos  52 títulos seniores do Novo Banco , no valor de cerca de 1,95 mil milhões de euros (US $ 2,1 mil milhões), e transferiu-os  – tapando um buraco  de 1,4 mil milhões de euros no balanço do banco  “bom”  que tinha sido  revelado em Novembro pela testes de stress  do Banco Central Europeu sobre a instituição.”

O principal problema com esta decisão deve ser visto como muito óbvio: mais uma vez, o governo  escolheu arbitrariamente vencedores e perdedores. Os obrigacionistas seniores não são tratados pari passu – certos tipos de títulos de repente parecem conferir diferentes direitos de propriedade do que os outros – apesar do facto de que todos esses títulos fazerem parte da classe de “obrigações bancárias seniores”.

Do dia para a noite, sem ter feito coisa nenhuma, uma pessoa pode passar de rica a pobre e, mais ainda, a ser depois executada por dívidas e cair na rua, como um sem‑abrigo.

Velho - IV

E a minha amiga agora vêm-me agora contar essa história mais simples, a de que  levou o seu dinheiro para um cofre do banco. No  fundo é uma história igual à do nosso homem bem vestido e ainda melhor calçado. E talvez tenham ambos razão.  O que se conta acima é uma evidência. Bom,  mas poderia investir em títulos, dir-me-ão.  Onde? Não, em Portugal é que não,  diria o nosso homem bem vestido e ainda melhor calçado. Olhem o BES, olhem o Banif. Olhem o exemplo que se acaba de contar,  diria o nosso homem bem vestido e ainda melhor calçado se estivesse a ler este texto . E em títulos no estrangeiro? Não, também não.

E porquê?

Tentemos  adivinhar o sentido da sua resposta a partir de alguns exemplos.

Investir em títulos da dívida pública de França:

Depositar dinheiro em França, um país que desde há anos é sustentado pela mão do BCE como contrapartida, quem sabe, dos serviços de Sarkozy à senhora Merkel por causa da modificação dos Tratados,  quem sabe, por causa dos silêncios do senhor Hollande ao senhor Draghi?  Instabilidade total a prazo é o que se pode esperar, credibilidade vizinha de zero para este país e quando se perfila que a classe política aí  reinante vai cair de podre. E depois? Bom, a natureza e os homens também, tem medo do vazio. Portanto não.

Investir em títulos da dívida pública de Itália:

Investir no  país governado por um crápula que viciou a democracia italiana a partir de encontros com um outro crápula menor, Berlusconi, no palácio deste em Arcore, colocar aí dinheiro corria o mesmo  risco que os aforradores italianos agora na miséria. Houve já quem se suicidasse. Não, o nosso homem o nosso homem bem vestido e ainda melhor calçado, ama a vida, não a morte. Em Itália é que não.

Colocar o dinheiro num país onde nem a Constituição é para de respeitar pelos políticos mais relevantes seja  eles Napolitano, Berlusconi, Renzi, que a mudam a seu belo prazer?

Como dizia alguém: “Berlusconi pode ser um convicto criminoso, mas ele não era nenhum pária – em vez disso, era o interlocutor natural do novo líder, um político que se tinha retirado para a oposição, mas que não se situava colocado fora da política e, mais ainda,  estava à frente do segundo maior partido no país. O caminho a seguir seria o de fazer  um acordo com ele. Em suma, Renzi estava a ter negociações  confidenciais com Berlusconi, e os dois homens tinham  chegado a acordo sobre as mudanças constitucionais e eleitorais a serem levadas  a um Parlamento  ao qual nem um nem outro pertenciam, num pacto que passaria por cortar na  maioria de Letta . E então o primeiro-ministro? Em tweets como um adolescente a querer acalmar  uma namorada prestes a ser abandonada, Renzi escreveu-lhe: ‘Enrico, está calmo, pois ninguém te quer tirar do teu cargo ”). Um mês depois, ele tinha derrubado   Letta e instalou se   como o mais jovem primeiro-ministro de Itália.”

Depois dizia esse mesmo alguém:

“Único, no entanto, é o espectáculo de um assembleia  composta por  deputados cujos lugares  são devidos a uma legislação revogada como sendo  um abuso inconstitucional sobre os direitos dos cidadãos e, apesar disto , não só  continuarem  a sentar-se e legislar imperturbavelmente, mas também a redigir  a própria Constituição, depois de destituídos! . Nos anais do direito público, não se viu até agora nada que lhe seja  comparável. Mas na Itália, o Tribunal Constitucional é imperturbável.  Explicando que ‘a continuidade do Estado’ estaria  em perigo se a ilegalidade do Porcellum pusesse   em causa a legitimidade do Parlamento por ele eleito e, por isso apenas,  o Tribunal já autorizou o  Parlamento  a mudar a Constituição. De acordo com a lógica de  Alice no  país das maravilhas, se amanhã um governo defraudasse as  eleições fortemente  ou proclamasse  um estado de emergência suspendendo as  liberdades civis, poderia estar  errado, mas deve continuar em acção , pois caso contrário a existência contínua da República poderia estar em risco  – a doutrina dos dois corpos do rei, o corpo político e o corpo natural, actualizada para os pós-modernos”.

Não, em Itália   é que não. De resto que nos diz Renzi, que o mercado é que deve decidir. Ora, os mercados tem sido o que se tem vistos e é a eles que Renzi quer entregar o governo de Itália? O nosso homem bem vestido e ainda melhor calçado nesses mercados é que agora não confia. De resto, acaba de ler no blog A viagem dos Argonautas sobre um ataque especulativo de três hedge funds americanos contra o banco mais velho do mundo o MPS:

“Daí a tarefa dos hedge funds: apostar na baixa dos títulos, apostar na subida dos   CDS  para a  Itália na convicção de que  uma ruptura ou uma resolução de MPS levaria ao aumento dos spreads italianos, e para comprar os  títulos degradados do MPS que, se a aposta for ganhadora,  teria levado  a  preços extremamente convenientes   sobre os referidos créditos degradados “cobertos” pela garantia do Estado via a CDP (Cassa Depositi e Prestiti (CDP SpA)). Neste ponto, no entanto, ainda há um pequeno problema: a proibição da venda a descoberto imposta pela Consob, organismo equivalente à  Comissão do Mercado de Valores Mobiliários de Portugal. Problema fácil de contornar através da compra num dos bancos ‘market makers’ na Bolsa de Valores Italiana de opções de venda sobre as acções de MPS. A este nível,  o banco deve “cobrir-se” para as opções que vendeu, e como formador de preços de  mercado pode vender títulos a descoberto  sem nenhuma penalização  para se garantir   sobre  as opções de venda compradas pelos  Hedge Fund.

Na segunda-feira iniciou-se a operação e na Bolsa o título MPS  caiu. Ao mesmo tempo o spread da Itália começa a subir , com saltos que atingiram os vinte pontos  registados na sessão de terça-feira. O dia de quarta-feira talvez tenha sido o pior  dia: o título desce cerca de 22%. No final, o MPS vale apenas um pouco mais  que 1.5 mil milhões de euros . O terceiro banco do País vale quanto uma empresa como  Iren, a multiutilidade   (fornecedor de gás e electricidade)  do Noroeste. Pouco mais que Cerved, que fornece dados e informações sociais e vale metade das penas de ganso de Montcler.”

Tudo esclarecido e o primeiro-ministro Matteo Renzi vem-nos dizer no dia seguinte: Beleza, é o mercado! É ele que deve decidir o que deve ser feito ao MPS!

Investir num país entregue à ganância  dos mercados   quando estes estão disfuncionais é coisa que o nosso homem bem vestido e melhor calçado não irá fazer.

(continua)

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