PORTUGAL NA GRANDE GUERRA – por Maria Estela Guedes

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Era ainda tenente o autor das «Memórias do Capitão» quando partiu para a França, a 16 de maio de 1917, de acordo com ofício dirigido ao comandante do Regimento de Cavalaria nº 9, conservado no seu processo individual, no Arquivo Geral do Exército, em Chelas. Passava de uma guerra a correr para uma guerra parada, nas trincheiras, arriscando-se a ficar sem cabeça se a erguesse acima delas. Essa imobilidade, acrescentada à declaração do médico militar, assinada no Porto a 6 de junho do ano anterior, segundo a qual era portador de doenças que exigiam tratamento, somada ainda à passagem de temperatura tropical para o enregelamento nos campos da Flandres, devem ter pesado muito no sofrimento do jovem tenente, que o mesmo é dizer, de todos os soldados.

Com efeito, ele partia para um frio intolerável depois de regressado do forno do sul de Angola, na orla do deserto, onde fizera a guerra de 14 numa frente bem menos conhecida, caracterizada por campanhas de permanente mobilidade, através de regiões inóspitas, sem água de fonte ou poço em que o militar pudesse dessedentar-se, apesar de ricas em água, dada a proximidade do Cunene, com as apetecíveis cataratas de Ruacaná no itinerário.

Segundo documento do Arquivo Geral do Exército, «Fez parte do esquadrão de Cavalaria nº 9, comandou primeiro um pelotão deste esquadrão de vigilância na linha Otchingau – Suvar – Buct – Driept e a seguir os auxiliares boers. Executou vários reconhecimentos, mesmo no território da Damara e em regiões sublevadas, e tomou parte nos destacamentos da Dongoena, Naulila e Ngiva. Em todos os serviços se houve com inteligência, muita dedicação e valentia». E porque tal se verificou, e já na implantação da República tinha dado estupendo sinal de si, bom aluno que fora em Coimbra de Sidónio Pais, no lote dos seus castigos e louvores figura uma medalha de prata comemorativa das operações no Sul de Angola, em 1914-1915 (O.E. nº1, 1ª série, de 18 de janeiro de 1917).

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Comecemos então pelo princípio, abandonando o discurso do Arquivo Geral do Exército e seguindo o nosso próprio itinerário mental. Para o fim deixamos um excerto das «Memórias do Capitão», em que ele próprio conta como foi a guerra na Flandres.

O exército alemão, seduzido, a meus olhos, pelo manancial do Cunene nafronteira de Angola com territórios então sob bandeira alemã, áridos, e lembremo-nos de que a flora da região é coroada pela Welwitschia mirabilis, espécie do deserto de Moçâmedes, que deve agora chamar-se Namibe, os “boches”, em léxico de soldado, puseram-se a caminhar para norte causando massacres e razias. A desculpa para a invasão de território português, tão fascinante que merece ser estudada num projeto que estude as realidades e mitos da cartografia portuguesa, é a de que a linha de fronteira atravessada não estava definida politicamente, isto é, vamos simplificar, não havia mapas, e não havia porque decerto aquela região não fora contemplada nas cimeiras de partilha de África pelas potências europeias. E tanto os mapas não existiam que vemos Sarmento Pimentel a desenhar os das regiões cujo reconhecimento lhe fora atribuído em missão militar.

“Naulila” é sintética designação dos problemas da invasão alemã dada por um dos correligionários de Sarmento Pimentel, Augusto Casimiro, no seu opúsculo publicado com chancela da Seara Nova. A Seara Nova não foi apenas uma revista, ela instituiu-se como corpo político e nessa condição chegou a fornecer elementos para governo, entre os quais Augusto Casimiro e Sarmento Pimentel.

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Naulila foi um tremendo desastre e uma vergonha para Portugal, habituado a pelejar contra povos sublevados de África que pouco mais teriam que arcos e flechas. Na expectativa de batalhas afins, os portugueses deram de caras com um exército armado com o que de mais sofisticado existia na época e verificou-se um autêntico massacre, com pavorosas cenas, como a narrada por Sarmento Pimentel da sua chegada a Naulila: os corpos dos soldados, mal enterrados, tinham sido desenterrados pelo vento.

Sarmento Pimentel não participou destes acontecimentos atrozes, chegou depois deles. Ele participou numa segunda leva militar, sob o comando do general Pereira d’Eça, e foi incumbido, na qualidade de Comandante dos Auxiliares Boers, de sucessivas missões de reconhecimento, mesmo em território da Damara (sudoeste africano ocupado pela Alemanha), e em regiões sublevadas, e tomou parte nos destacamentos de Dongoena, Naulila e Ngiva. As ordens recebidas para reocupação das posições exigiam medidas drásticas, difíceis hoje de comentar, ao menos por mim, mesmo com o argumento de que certas populações indígenas continuavam insubmissas. Pelos relatórios do então alferes Sarmento Pimentel, integrados pelo General Pereira d’Eça no seu próprio relatório, «Campanha do Sul de Angola em 1915», vemos que ele cumpriu ordens como a de “Cair sôbre a Dongoena, razeando a região entre o forte da Dongoena e o Humbe”. Chegaram a abater seiscentos numa dessas razias.

Angola foi uma provação duríssima, com etapas em que o alferes, para chegar mais depressa ao destino, avançou sozinho a corta-mato pelo interior de um sertão que pela primeira vez seria mapeado, para chegar roto, sujo, esfomeado, desidratado, pois a água do cantil onde já ia!, irreconhecível pelos camaradas, que tiveram de lhe dar umas calças e uma camisa das deles. E o que tinham para lhe dar de comer? Julgo que me esqueci.

Mal chega à metrópole, doente, deprimido, de rastos, é aliciado pelo general Gomes da Costa e lá vai ele para a Flandres, com antigos companheiros, entre eles um médico militar com quem intentará uma revolta anos mais tarde, à qual chamei “A revolta dos bibliotecários”, por ter à frente intelectuais que trabalhavam na Biblioteca Nacional: Jaime Cortesão. Mas para mim já chega de batalhas, passo agora a palavra ao tenente Sarmento Pimentel, ele mesmo nos dirá como era a guerra na Flandres.

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