O povo é giro. O povo é óptimo. E é convicto – mesmo que só quinquenalmente ou de decénio em decénio. O povo gostou, o povo votou no Cavaco, o povo voltou a nele votar, encantado e suspirante, depois do primeiro quinquénio. Até que começou a ouvir dizer (já lá para o fim do decénio e do mandato) que o seu índice de popularidade fenecia, que murchava, enfim, essas coisas que o povo não compreende muito bem, mas há felizmente quem compreenda por ele. E até lhe explique.
Deixou-se enredar o povo, quase estupefacto (então um senhor que era tão sério, tão inspirador de confiança, que era tão único e tão austero, o que lhe aconteceu?) mas de repente vieram as eleições e então o povo já não teve de pensar muito (as dores de cabeça que isso faz – pensar!) porque apareceu um senhor ainda mais melhor óptimo, um senhor que afinal o povo conhecia que se fartava e à brava, da televisão – que é a sua biblioteca, a sua enciclopédia, a sua razão de viver e cultivar-se, como se sabe – um senhor que apesar de sorridente e bem disposto, era bem vestido, lia duzentos e vários livros por semana e explicava tudo da política (essa coisa misteriosa que felizmente há quem no-la explique) isto durante anos. E anos e anos e anos. Um senhor esperto. Simpático.
E de repente, ele e o futuro presidente eram uma e a mesma pessoa, milagre da santíssima dualidade – algo que o próprio previamente explicaria ao indeciso povo, através de abraços, palmadas nas costas, bicas, pasteis de nata, conversas de coisa nenhuma, patuscadas, passeios de táxi e uso de roupa assim mais parecida com a do povo.
O povo rendeu-se. O povo, aliás, não queria outra coisa, cavaco morto marcelo posto, eis o homem que nos convém, vamo za ele, toca a votar e já está.
E já esteve. Hoje é o nosso presidente da república, o presidente de todos nós. Abriu as portas do palácio e deixou o povo acorrer, trazer a avó e os netinhos, o cão e o papagaio, pisar a relva, deitar papeis pró chão, esfregar-se por momentos naquela palacetada toda, por uma vez na vida. Momento históricos, a lembrar pequenas liberdades de passadas monarquias, que sempre apostaram no povo com estas traquinices, apesar de o fecundar e o explorar com toda a competência.
Há uma coisa que o povo – de dentro da sua habitual e consagrada sabedoria, toda ela feita de provérbios, máximas, dogmas e mais recentemente de televisão – há uma coisa que o povo ignora (ele também não pode saber de tudo, que diabo) e que é a grande, a enorme diferença entre este presidente e o outro, o já esquecido aníbal, recolhido e só que estará, na Travessa do Possolo a limpar a marquise de alúmínio e o pó aos cãos de louça da entrada: é que este presidente, este marcelo, este marcelino pão e vinho – é inteligente. E o outro era estúpido. Além de sacana.
Quem o diz não sou eu. É aquela parte do povo que nunca na vida votou no outro e também não votou nem votaria neste, nem por nada, nem que lhe pagassem. Aquela parte do povo com algum esclarecimento e conhecimento, alguma inteligência e alguma cultura, que, malgré tout, existe sempre e sempre existiu. E que sempre ou quase sempre foi minoritária, como a História nos ensina a cada passo.