No Brasil, país muito especial, para Portugal, e não só, um país excepcional à escala mundial, reina uma enorme agitação, centrada neste momento nas acusações que pesam sobre Lula da Silva, ex-presidente da grande república. É difícil exprimir em poucas palavras os sentimentos que esta situação nos desperta, a nós que vivemos deste lado do mar. Os progressos que o Brasil parecia ter tido nos últimos anos, mesmo a quem achava que estavam assentes em bases pouco seguras, eram uma fonte de contentamento. Agora o sentimento que predomina em quem escreve estas linhas é o de desolação.
Claro que há questões que são básicas. Em primeiro lugar, é preciso dizer que o combate à corrupção é fundamental em qualquer país do mundo, pequeno ou grande, e que ninguém está acima da lei. Quando há indícios de que houve abuso de poder, ou prevaricação (as duas coisas estão muito próximas), é essencial que o assunto seja investigado, e sabemos bem que quanto mais poderoso é, ou tenha sido, o suspeito, mais difícil é chegar à verdade. O suspeito tem com certeza todo o direito à defesa, e só deve ser considerado como culpado depois do julgamento estar devidamente concluído, mas, quanto mais poderoso seja, ou tenha sido, quanto maiores sejam, ou tenham sido, as suas responsabilidades, mais obrigação tem de se sujeitar à avaliação judicial e, claro, ao julgamento da opinião pública. Com certeza, que o oposto também é verdadeiro, os adversários políticos do suspeito também têm a obrigação de mostrar a devida contenção, e de não procurar obter ganhos políticos com uma eventual demonstração da culpabilidade deste.
Tememos muito que estejam a acontecer falhas de todos os lados neste processo. Não nos arrogamos em julgadores. Sabemos que o que ficou dito no parágrafo anterior é considerado como utopia inatingível por muita gente (infelizmente, pela grande maioria, lamentamos dizê-lo). Simplesmente, consideramos ser necessário dizê-lo. Por outro lado, os brasileiros sabem que estes problemas não acontecem só no seu país. Acontecem em todo o mundo. Neste caso, parece-nos claro que Dilma cometeu um grave erro ao convidar Lula para o seu governo, e ele um maior ainda ao aceitar. Gostaríamos que nos provassem que estamos enganados sobre este assunto. A oposição política, se está de boa fé, não deveria sistematicamente recorrer a manifestações de rua. Também aqui gostaríamos que nos provassem que a intenção não tem sido pressionar para influenciar uma sentença ou obter ganhos políticos que nada têm a ver com o combate à corrupção.
A prevenção é essencial para o combate à corrupção. A regulação sobre incompatibilidades entre o exercício do poder político e o do poder económico é uma falha à escala mundial. Em épocas de grandes mudanças, mesmo quando ocorrem progressos em sectores essenciais da sociedade, os problemas resultantes desta falta de regulação tendem a agravar-se exponencialmente. Dizê-lo não é aceitá-los, é sim alertar para lançar e aprofundar o combate a essas incompatibilidades. Mesmo que a conclusão seja ter de haver uma mudança radical na nossa vida política, social e económica.
É possível que Lula e Dilma tenham, pelo menos, contemporizado com o facto de elementos do seu – um partido de resistência à ditadura e com um programa progressista (em boa parte cumprido) – se terem deixado contaminar pela epidemia corruptiva, há muito em curso no país, sobretudo entre os “grandes mentores” da actual contestação. Infelizmente, é doença que não tem poupado quase nenhuma das organizações revolucionárias ou independentistas, que têm conseguido chegar ao poder, varrendo ditaduras, colonialismos e fascismos mais ou menos disfarçados.
A recente manobra do governo brasileiro para subtrair Lula a uma eventual detenção parece confirmar a cedência à utilização de métodos vulgarizados, com semelhantes e ainda (muito) piores intenções, em numerosos e democratíssimos países. Basta estar atento ao que se passa pela Europa, onde a simples ascensão dos mais medíocres quadros partidários a importantes cargos no “aparelho europeu” (sem esquecer o famigerado “eurogrupo”, que não se rege por quaisquer normas escritas e democraticamente aprovadas, cujas reuniões são secretas e cujos debates e decisões não constam de qualquer acta) e uma multidão de ex e futuros serventuários do gigante Goldman Sachs domina a maioria dos lugares-chave das instituições europeias, para se perceber que a corrupção frutifica em toda esta estrutura e o dinheiro enche bolsos e paga favores de maneiras bem mais sofisticadas que “mensalões”. Ou recordar que a crise da “bolha imobiliária” nos EUA levou ao encerramento de uma única entidade financeira, o Lehman Brothers (foram só estes?), e se satisfez com umas quantas condenações individuais, na boa linha de que “é preciso mudar alguma coisa, para que tudo fique na mesma”… E não esquecer como os regimes progressistas que emergiram, nos últimos anos, na América Latina, vêm sendo afastados – claro que mui democraticamente – do poder: seguidinhos, sucessivamente, pouco a pouco, os países que incomodavam o vizinho de cima, no mapa das Américas, reentram no “bom-caminho”, põem os trabalhadores na linha, olham com muito mais afecto “para as empresas” (a traduzir por “grandes empresas” e “multinacionais”; e cf. declarações recentes de representantes do patronato luso sobre a ausência de tal afecto, por parte do actual governo “esquerdista”).
Mas, porque uso eu, apesar de quase convencido da fraqueza dos dirigentes do PT, a palavra “parece”?
Primeiro, porque a própria comunicação social é hoje, generalizadamente, refém do poder difuso, anónimo e intermediado dos “mercados” e seus serventuários. Então no Brasil, seria preciso não conhecer o papel dos principais “media” na instauração e manutenção da ditadura, agora acrescentado com o domínio de fanáticos religiosos “evangélicos”, tão reaccionários como corruptos, que se vêm substituindo aos tradicionais populismos “apenas ideológicos” e não reparar no modo como, por estes dias, a “crise” tem sido abordada (e vendida aos “media” internacionais, incluindo os portugueses), para afastar a desconfiança perante qualquer notícia que esses “media” difundam.
Segundo, porque me preocupa ainda mais o estranhíssimo papel desempenhado por diversas entidades judiciais que, a exemplo do que já por cá assomou, perderam toda a vergonha, comprometendo as suas credibilidade, isenção e objectividade com o desnudamento leviano de posições ideológicas claramente coincidentes com as dos “contestatários”. Assim debilitando a própria confiança na idoneidade das investigações, condenações passadas e futuras, enfim, o prestígio de todo o aparelho judicial brasileiro. O que me leva, mesmo, a discordar de que um jornalista refira deliberações “da Justiça brasileira”, e não, como os factos impõem, de um determinado tribunal ou juiz, claramente identificados.
A “mudança radical na nossa vida política, social e económica”, como refere o editorial é, efectivamente, a única saída. Mas, estará ela à vista, num futuro próximo? Há algum indício dela, no momento actual? Por mim, reconhecendo os esforços heróicos de quantos, contra a grande maré neo-liberal e amoral que afoga o Mundo, vão resistindo e lançando pequenas lâmpadas de razão e justiça numa época em que as sombras se adensam assustadoramente, vou tendo cada vez mais dúvidas de que os seres humanos entendam que a sua própria sobrevivência, como espécie, depende dessa mudança, antes de que novas catástrofes, ainda mais terríveis do que aquelas que mergulharam nas trevas grande parte do passado século, lhes mostrem o caminho, da maneira mais impiedosa.
É possível que Lula e Dilma tenham, pelo menos, contemporizado com o facto de elementos do seu – um partido de resistência à ditadura e com um programa progressista (em boa parte cumprido) – se terem deixado contaminar pela epidemia corruptiva, há muito em curso no país, sobretudo entre os “grandes mentores” da actual contestação. Infelizmente, é doença que não tem poupado quase nenhuma das organizações revolucionárias ou independentistas, que têm conseguido chegar ao poder, varrendo ditaduras, colonialismos e fascismos mais ou menos disfarçados.
A recente manobra do governo brasileiro para subtrair Lula a uma eventual detenção parece confirmar a cedência à utilização de métodos vulgarizados, com semelhantes e ainda (muito) piores intenções, em numerosos e democratíssimos países. Basta estar atento ao que se passa pela Europa, onde a simples ascensão dos mais medíocres quadros partidários a importantes cargos no “aparelho europeu” (sem esquecer o famigerado “eurogrupo”, que não se rege por quaisquer normas escritas e democraticamente aprovadas, cujas reuniões são secretas e cujos debates e decisões não constam de qualquer acta) e uma multidão de ex e futuros serventuários do gigante Goldman Sachs domina a maioria dos lugares-chave das instituições europeias, para se perceber que a corrupção frutifica em toda esta estrutura e o dinheiro enche bolsos e paga favores de maneiras bem mais sofisticadas que “mensalões”. Ou recordar que a crise da “bolha imobiliária” nos EUA levou ao encerramento de uma única entidade financeira, o Lehman Brothers (foram só estes?), e se satisfez com umas quantas condenações individuais, na boa linha de que “é preciso mudar alguma coisa, para que tudo fique na mesma”… E não esquecer como os regimes progressistas que emergiram, nos últimos anos, na América Latina, vêm sendo afastados – claro que mui democraticamente – do poder: seguidinhos, sucessivamente, pouco a pouco, os países que incomodavam o vizinho de cima, no mapa das Américas, reentram no “bom-caminho”, põem os trabalhadores na linha, olham com muito mais afecto “para as empresas” (a traduzir por “grandes empresas” e “multinacionais”; e cf. declarações recentes de representantes do patronato luso sobre a ausência de tal afecto, por parte do actual governo “esquerdista”).
Mas, porque uso eu, apesar de quase convencido da fraqueza dos dirigentes do PT, a palavra “parece”?
Primeiro, porque a própria comunicação social é hoje, generalizadamente, refém do poder difuso, anónimo e intermediado dos “mercados” e seus serventuários. Então no Brasil, seria preciso não conhecer o papel dos principais “media” na instauração e manutenção da ditadura, agora acrescentado com o domínio de fanáticos religiosos “evangélicos”, tão reaccionários como corruptos, que se vêm substituindo aos tradicionais populismos “apenas ideológicos” e não reparar no modo como, por estes dias, a “crise” tem sido abordada (e vendida aos “media” internacionais, incluindo os portugueses), para afastar a desconfiança perante qualquer notícia que esses “media” difundam.
Segundo, porque me preocupa ainda mais o estranhíssimo papel desempenhado por diversas entidades judiciais que, a exemplo do que já por cá assomou, perderam toda a vergonha, comprometendo as suas credibilidade, isenção e objectividade com o desnudamento leviano de posições ideológicas claramente coincidentes com as dos “contestatários”. Assim debilitando a própria confiança na idoneidade das investigações, condenações passadas e futuras, enfim, o prestígio de todo o aparelho judicial brasileiro. O que me leva, mesmo, a discordar de que um jornalista refira deliberações “da Justiça brasileira”, e não, como os factos impõem, de um determinado tribunal ou juiz, claramente identificados.
A “mudança radical na nossa vida política, social e económica”, como refere o editorial é, efectivamente, a única saída. Mas, estará ela à vista, num futuro próximo? Há algum indício dela, no momento actual? Por mim, reconhecendo os esforços heróicos de quantos, contra a grande maré neo-liberal e amoral que afoga o Mundo, vão resistindo e lançando pequenas lâmpadas de razão e justiça numa época em que as sombras se adensam assustadoramente, vou tendo cada vez mais dúvidas de que os seres humanos entendam que a sua própria sobrevivência, como espécie, depende dessa mudança, antes de que novas catástrofes, ainda mais terríveis do que aquelas que mergulharam nas trevas grande parte do passado século, lhes mostrem o caminho, da maneira mais impiedosa.