Uma segunda carta a uma amiga minha sobre o dinheiro que não posso colocar nos cofres-fortes de um banco porque o não tenho – por Júlio Marques Mota IV

Uma segunda carta a uma amiga minha sobre o dinheiro que não posso colocar nos cofres-fortes de um banco porque o não tenho

júlio marques mota

Júlio Marques Mota

 

(conclusão)

Terminado esta viagem de leitura pelos meandros dos homens de Draghi, da senhora Merkel e da opaca finança percebemos, eu, a minha amiga e muitos outros, que temos de nos unir e em conjunto derrubar do poder todo este bando de salteadores e muito rapidamente antes que nada fique para se poder levantar o dinheiro mesmo dos cofres fortes dos bancos. O desejo de rapina é elevado. Novas leis eles poderão fazer. Lembre-se que há três anos, cito de memória, o próprio FMI admitia a hipótese de um assalto ao bolso de cada um, de uma só vez, e que ironia nesta expressão, na ordem dos 10% enquanto que os franceses de Sarkozy admitiam a hipótese de o assalto ser de 17% sobre a conta bancária de cada um. Para este senhores, minha querida amiga, tudo é possível, o mesmo é dizer que nenhum cofre lhes é capaz de resistir, a menos que todos nos façamos o nosso dever, democraticamente portanto.

Aliás, uma bela imagem deste capitalismo de parasitas e de hospedeiros chupados até ao tutano, que somos nós todos, é-nos dada por Michael Hudon numa entrevista a propósito do seu livro:

Entrevistador- O título do seu livro – Killing the host: How Financial Parasites and Debt Bondage Destroy the Global Economy – é uma metáfora. Assim, é sobre o capital financeiro parasitário que na verdade está a escrever. O senhor explica a finança parasitária sobrevive, essencialmente, alimentando-se do que podemos chamar a economia real. Será que pode desenvolver esta analogia um pouco mais? O que isso significa? Como é que a finança se comporta como um parasita face ao resto da economia?

MH: Os economistas nestes últimos 50 anos têm usado o termo “economia do host” para um país que permite a entrada de investimento estrangeiro. Este termo aparece na maioria dos livros tradicionais. Um acolhimento implica um parasita. O termo parasitismo foi aplicado para financiar por Martin Luther e outros, mas em geral no sentido de que você só falou sobre: simplesmente tomar algo a partir do host.

MH: Os economistas durante os últimos 50 anos têm usado o termo “host economy- economia do pais de acolhimento ou ainda economia do pais hospedeiro” para significar um país que permite a entrada de investimento estrangeiro. Este termo aparece na maioria dos livros tradicionais. No nosso caso, um hospedeiro implica um parasita. O termo parasitismo foi aplicado à finança por Martin Luther e outros, mas em geral no sentido de que se falo acima, parasita é simplesmente viver do que tira ao hospedeiro.

Mas isso não é como estar a falar de parasitas no sentido biológico a viverem na natureza. O parasitismo biológico é mais complexo, e é precisamente por essa razão que é uma melhor e mais sofisticada metáfora para a economia. A chave é saber como é que um parasita tira para viver seja o que for do hospedeiro. O parasita tem enzimas que entorpecem o sistema nervoso do hospedeiro assim como o seu cérebro. Então, se este dá uma ferroada no hospedeiro ou se lhe mete as suas garras dentro, há um anestésico soporífero para bloquear o hospedeiro de sentir os efeitos do ataque a que foi sujeito. Em seguida, o parasita envia enzimas ao cérebro. Um parasita não pode tomar seja o que for do hospedeiro a menos que ele tenha controlo sobre o seu cérebro.

O cérebro nas economias modernas é o governo, o sistema educacional e a maneira como os governos e as sociedades levam a que os seus modelos de políticas económica se comportem. Na natureza, o parasita faz o hospedeiro pensar que o invasor, o parasita, é o seu bebé, faz parte do seu corpo, para convencer o hospedeiro, na verdade, a proteger o parasita sobre si mesmo.

É assim que o sector financeiro tem tomado o controlo sobre a economia. Os seus lobistas e advogados académicos persuadiram os governos e os eleitores de que eles precisam de proteger os bancos e que têm mesmo necessidade de os resgatarem quando estes se tornam excessivamente predadores e estão à beira do colapso. Os governos e os políticos estão persuadidos de que devem salvar os bancos em vez de salvar a economia, como se a economia não pudesse funcionar sem os bancos que foram deixados nas mãos de privados para fazer o que quiserem, livres de regulação séria e até mesmo de serem levados a tribunal se cometerem fraudes. Isto significa poupar os credores- os 1% mais ricos- não os restantes 99 % endividados.

Pois bem, hospedeiro, a sociedade a ser sugada sistematicamente pelo parasita, a alta finança, e o grave é que via governo, via manipulação pelos media prostituídos, se pretende bloquear o cérebro, segundo a metáfora e, desta forma, num sistema totalmente desordenado hospede e hospedeiro, sociedade e finança, podem ser conduzidas em conjunto ao abismo. Impedir essa marcha triunfal para o abismo é obrigação de todos os democratas, o dever a que acima me referia, sob pena de não ficarmos sequer cá para contar a história dessa mesma queda.

Coimbra 13 de Março de 2016.

Júlio Marques Mota

Uma segunda carta a uma amiga minha sobre o dinheiro que não posso colocar nos cofres-fortes de um banco porque o não tenho – por Júlio Marques Mota III

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