Continuamos a deixar-nos infantilmente guiar pelo calendário litúrgico das igrejas cristãs, com destaque para a católica romana. Nem os mais macabros acontecimentos da actualidade desviam as igrejas cristãs um milímetro do seu rigoroso cumprimento. As fastidiosas encenações litúrgicas são para elas a única realidade. Por maléfica influência delas, acabamos, muitos de nós, a fazer dos macabros massacres destes dias outras tantas encenações litúrgicas. Sem nos apercebermos de quão cínicos, cruéis, obscenos somos. Enchemos os locais dos massacres de ramos de flores, velas, cartazes, símbolos. A prova provada de que ainda não descolamos do Infantil, onde a fé religiosa-cristã nos mantém. Temos medo, muito medo, de crescer de dentro para fora e de vivermos a História como se Deus não existisse. Perante a macabra realidade, corremos logo a matá-la com ritos, encenações litúrgicas laicas e missas, sempre as mesmas, presididas por clérigos de topo, a negação viva, eles próprios, do Ser Humano. Sem advertirmos que nelas nos são servidas overdoses de anestesia que nos leva a cair nos braços uns aos outros, sem depois querermos saber mais uns dos outros, até ao próximo massacre. O calendário cristão é o que há de antropologicamente mais absurdo e opaco. Transforma a cruel e sádica realidade, em mera encenação. Até a cruz, instrumento de tortura do mais cristão dos impérios, o romano, é sadicamente convertida em símbolo de redenção-salvação do mundo. O que perfaz a entronização-canonização do absurdo-grotesco-estúpido-imbecil. São assim as sucessivas páscoas cristãs, impostas pelo calendário católico romano. Negadoras, todas elas, da realidade-verdade histórica. Só a páscoa de Jesus Nazaré, o filho de Maria, ocorrida numa sexta-feira de Abril do ano 30 em Jerusalém, nos faz PASSAR de cristãos a seres humanos. Ao praticá-la, saímos do infantil em que a fé religiosa-cristã nos mantém e enfrentamos desarmados as causas económicas, políticas, ideológicas-teológicas dos múltiplos massacres. Como mulheres, homens ontologicamente habitados por Deus, mas historicamente sempre sem-Deus, por isso, maieuticamente religados uns aos outros. Totalmente empenhados na edificação de um mundo outro integralmente humano, de cada um segundo as suas capacidades, a cada um segundo as suas necessidades. É esta a páscoa que vivo e vos desejo.
P.S.
Segundo o calendário cristão católico, hoje, sexta-feira santa, é simultaneamente o dia da anunciação do anjo a Maria a dizer-lhe que, daqui a 9 meses, dará à luz um filho, o mesmo, cujo enterro é encenado ao início desta noite nas ruas da velha cidade de Braga e outras cidades da Europa. Querem absurdo maior do que este?