MONÓLOGOS DE ARGONAUTAS/1 – «SINOPSE teatralizada de Romeu e Julieta» – por Fernando Lobo

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Vera, ainda bem que a encontro aqui na loja do boticário. Que desgraça, meu Deus! Isto só pode ter sido uma praga do Demónio! Faça figas, faça figas e bata três vezes no tampo de madeira deste balcão. Como? Não me diga que ainda não sabe o que se passou com os dois únicos herdeiros dos Capuletos e dos Montecchios? Ó mulher, qual casamento de Páris com Julieta, qual carapuça! Vê-se logo que a D. Vera foi ultrapassada pelos acontecimentos. Veja bem que aqueles dois adolescentes, dois anjos, morreram-de-morte-matada, sim, é como se costuma ironizar na minha terra sempre que não se percebe porque é que quando alguém morre por Amor e é enterrado como morto, mas porque afinal não morre, e ao acordar do efeito letárgico do elixir que havia tomado para não casar com o pretendente, de quem não gostava, se depara com o homem da sua vida jazendo em seu regaço por ter ingerido um veneno mortífero… Sr. Boticário, desculpe, sente-se bem? É que de repente ficou pálido? Ah, pois teve uma repentina quebra de tensão… Por norma acontece a pessoas muito impressionáveis. Dou-lhe um conselho: se é muito sensível, tome um chá de camomila, olhe, desses que habitualmente me receita, sempre que vou a velórios. Mas, D. Vera, ainda bem que aqui está…. Óptimo. Mas, como eu ia dizendo, nesta sinopse invertida, a Julieta vendo o Romeu morto à séria, não foi de modas, em pleno mausoléu, com o punhal que o seu amado, minutos antes, tinha matado o Páris, enterrou-o no peito, e, ai Sr. Boticário!, como dizia o poeta, “ambos partiram desta terra descontente em busca do assento etéreo”. Como?! Ah, o poeta que citei não disse a coisa bem assim? Mas, oiça, mais palavra, menos palavra, mais soneto erudito ou redondilha menor, a história repete-se e os crimes também. Uma coisa vos digo: Que esta tragédia só aconteceu dado à rivalidade dos antepassados destas duas famílias – uma discórdia doentia entre famílias poderosas de Verona! E o Príncipe não fez nada para evitar estas mortes? Desculpe lá, Sr. Boticário, mas o que é que o homem podia fazer quando eles são primos, sobrinhos e enteados uns de outros? Pense: Numa rixa, Tebaldo, sobrinho de Lady Capuleto, assassina Mercúrio, que, por sua vez, é parente do Príncipe e amigo de Romeu. Romeu, num ápice, vinga a morte de Mercúrio, dando uma estocada mortal em Tebaldo, logo de seguida, o Príncipe, com mão de veludo – já sabe como é que as coisas se passam entre as famílias poderosas e o poder dominante, não é… –, desterrou o jovem para Mântua (quer prior sentença para quem está cego de amor?). Como sabem, eu até nem sou de intrigas, mas está aos olhos de toda a gente que aquele triste e arrepiante desfecho amoroso, que aconteceu esta noite no mausoléu da família dos Capuletos, que a esta hora está para lá cheio de guardas, pajens, pais da falecida Julieta, Montecchio, pai de Romeu, de Romeu que falece quase ao mesmo tempo que a própria mãe. Ai, ai, D. Vera, veja bem que, segundo as más-línguas, até o Frei Lourenço está lá no cemitério a ser interrogado pelo Príncipe de Verona! O Frei Lourenço?! Sim, esse concorrente dos boticários. Foi ele que, à socapa, casou Romeu e Julieta antes desta se casar oficialmente com o conde Páris. Depois, depois, D. Vera, é aquilo que há momentos atrás vos disse: O Frei ao querer ajudar uma paixão arrebatadora, meteu-se em sarilhos. E dos grandes. Eu não sou de intrigas, como sabeis, mas o franciscano até engendrou bem a coisa: A Julieta toma o veneno, o tal do sono letárgico, que a põe como morta durante umas horas, logo aparentemente morta, não há casamento mas enterro e, enquanto a coisa vai acontecendo, Frei Lourenço indigita Frei João a deslocar-se a Mântua para entregar uma carta a Romeu dando-lhe conta do sucedido e, que depressa, regressasse, em segredo, a Verona para os braços da sua amada. E agora?! Perguntam-me vocês? Então, agora a história – qual laboratório plástico do caos cénico – encarregar-se-á de juntar os cacos de duas famílias lambendo as feridas da tragédia que, daqui a muitos anos, os nossos netos, de tão distanciados que estão deste triste acontecimento, serão bem capazes de contá-lo aos filhos como de uma comédia se tratasse. Bom, Sr. Boticário, agora embrulhe-me um pacote de chá de absinto, que está na hora de entrar em cena. Diga, diga D. Vera… Qual é o meu papel nesta trama? É o de Ama.

Fernando Lobo

TSL/BVQ, 17 Março 2012

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