A Eslováquia: uma grande preocupação para a Europa – por Radovan Geist

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

A Eslováquia: uma grande preocupação para a Europa

SLOVAQUIE

Radovan Geist, Social Europe, Março 2016

1

Radovan Geist

Os resultados das eleições eslovacas assinalam um grande problema – para o país e para a UE como um todo. O sucesso de um partido fascista é um sintoma de uma sociedade que se sente cada vez mais frustrada com as suas elites políticas.

Se não fosse o sucesso desse partido fascista LS NS (O partido do Povo – A Nossa Eslováquia), as discussões do período pós-eleitoral seriam dominadas por um já bem conhecido tom: quem vai com o poder, por quanto e durante quanto tempo. Apesar do choque momentâneo, a maior parte da classe política tentará regressar o mais cedo possível a essa telenovela política, toda ela bem familiar. Conhecem o texto e poderiam representá-lo muitíssimo bem.

Por agora, o mainstream está decidido em colocar os fascistas dentro de um gueto político. Pode-se perguntar se isto é baseado em valores, ou no medo e e nas tácticas políticas. Vamos apenas esperar que ninguém vá mudar de posição. Não porque isolar extremistas diminua a sua popularidade – dependendo das circunstâncias, isto poderia muito bem ser de outra forma. Mas porque simplesmente ninguém quer fazer acordos com os fascistas. Parada total.

O ritual da dança

As negociações sobre o futuro governo já começaram. O Smer-SD de Robert Fico fez a primeira tentativa, e não foi bem sucedido. Agora é a volta de Eurocéptico e do partido anti-imigrantes Richard Sulik, que tentarão construir um governo de centro-direita. Devido a uma personalidade divisória e a uma fragmentação política a sua tarefa não é fácil: um governo teria que compreender uma combinação do Partido Nacional Eslovaco e Most Hid que tem um forte apoio entre a minoria húngara, ou um partido político imprevisível de uma oligarca controversa Boris Kollar. Ou ambos. Se isso falha, Fico poderia voltar ao jogo do poder negociando mesmo alguma forma de governo provisório. .

Antes que nós vejamos um novo executivo, poderia esperar-se algumas danças rituais para justificar as alianças que foram ditas apenas há algumas semanas atrás como sendo inimagináveis.

Um grande problema

Imerso nas suas esperanças e nos seus conflitos mesquinhos, os partidos da maioria da classe política, os do mainstream, poderiam facilmente perder de vista um problema bem mais grave que provocou este mal-estar em primeiro lugar. Pode haver muitas razões individuais diferentes para que um povo vote num partido fascista. Contudo, o seu sucesso foi tornado possível por uma insensibilidade crescente à intolerância e ao ódio e por uma atmosfera do desespero.

O grosso da classe política até aqui no poder andou num jogo de sedução repetidamente com os racistas e com muitos dos velhos preconceitos. As vítimas mais frequentes eram os ciganos mas a crise da migração colocou em evidência “outros igualmente perigosos ”. A retórica vitriólica do anti-imigrante não é um domínio exclusivo do governo (mesmo que Fico tenha consolidado intencionalmente estes temas e os tenha tentado capitalizar eleitoralmente ), muita da chamada oposição do mainstream também os seguiu. Este alarmismo pôde directamente não ter dado a Kotleba os seus 8 por cento (de acordo com as sondagens à boca das urnas, simplesmente 8,1 por cento dos seus eleitores lhe deram o seu apoio ao discurso do medo em face dos imigrantes ou do terrorismo), mas contribuiu para a sua reduzida sensibilidade sobre a intolerância, o ódio e o extremismo.

O segundo factor é uma atmosfera do desespero moldada numa cólera sem visibilidade, cega. Um sentimento crescente de que o país esteve sequestrado por oligarcas e pelos seus amigos nas elites políticas – à esquerda e à direita – e as eleições são apenas uma comédia, com pouco significado no exercício real do poder. Combinados, estes factores dão pouca esperança que a subida da extrema-direita seja um fenómeno provisório, fortuito.

O problema da recuperação permanece

A Eslováquia assumirá muito provavelmente a presidência da UE com um governo instável, seja ele com Smer, ou anti-Smer. Se as coisas forem bem, ele pode sobreviver até Dezembro de 2016, mas todos os parceiros da coligação estarão a manter um olho sobre a possibilidade de eleições antecipadas e sobre as suas possibilidades de sucesso. Combinado com o apoio da Administração do Conselho de Ministros apenas isto pôde ser bastante para impedir uma ainda maior instabilidade qualquer que ela seja e qualquer que seja a sua origem.

Não espere nenhuma mudança substancial na situação em curso. Depois da última cimeira sobre a migração, Fico anunciou já que nenhum acordo com a Turquia quanto à recolocação dos refugiados se aplicaria à Eslováquia, porque já apresentaram de facto uma contestação contra o Conselho sobre as quotas de emigrantes de facto ( Conselho a que deve presidir desde Julho ).

O projecto da integração europeia está a desintegrar-se bem à frente dos nossos próprios olhos . As forças pró-europeias estão a perder a esperança que a situação pode ser salva na sua forma actual e começam a centrar-se sobre o salvamento do que de tudo o que possa sobrar. Se for considerado necessário, a periferia “incómoda” poderia rapidamente ser sacrificada. Que argumentos é que nós temos preparado para dizer que não deve ser assim?

 

Radovan Geist – Big Trouble For Europe In Slovakia. Texto disponível em:

https://www.socialeurope.eu/2016/03/big-trouble-europe-small-country/

Leave a Reply