BISCATES – MANIPULAR ATRAVÉS DA LINGUAGEM – por Carlos de Matos GOMES

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O novo golpe de estado

Nos anos 60 e 70 o golpe de Estado era essencialmente um putsh militar. O grupo ou grupos que dominavam o poder, quando viam ameaçados os seus interesses, utilizavam as suas forças armadas para assaltarem e tomarem o Estado, em seu nome. A opinião pública não contava, mas havia sempre qualquer coisa a dizer. O objectivo era garantir a honra da pátria, a sua liberdade e independência, afastar a ameaça do comunismo, para os satélites dos EUA e do capitalismo para os da URSS. A manipulação da linguagem precedia o golpe militar na fase da desestabilização e justificava a nova ordem (a dos interesses dominantes) imposta e exercida pelos militares durante uns tempos a seguir.

O que os novos golpes de estado do século XXI têm de novo é apenas a substituição da ordem militar imposta após o golpe pelo caos imposto pelos mestres do jogo. Penso que a passagem da ordem militar para o caos, tenha sido a grande mudança estratégica dos donos do mundo que se reúnem nos selectos palácios do Clube de Bilderberg, ou em Davos. A manipulação da linguagem mantem-se como elemento constante do golpe de estado.

A manipulação da linguagem assume um papel ainda mais relevante na execução de golpes de estado nas sociedades abertas, onde as novas tecnologias trouxeram problemas ao controlo até agora exercido pelos meios de comunicação convencionais e à utilização de tropas.

Um pouco de atenção e sentido crítico são essenciais para desmascarar a manipulação através de palavras-chave, muito aliciantes. A mais utilizada na preparação dos novos golpes de estado é: Liberdade. Foi em nome da Liberdade que o Iraque foi invadido, a Líbia, agora a Síria. Foi em nome da Liberdade que a Alqaeda foi criada e os seus terroristas apelidados por Reagan como «combatentes da Liberdade», as «primaveras árabes» floriram em nome da Liberdade, assim como, anteriormente, a guerra dos Balcãs, e as revoluções de veludo. Em todas elas, à manipulação da linguagem em nome da Liberdade, sucedeu o Caos.

A palavra talismã dos novos golpes é Liberdade. Uma palavra talismã tem o poder de prestigiar as palavras que dela se aproximam e desprestigiar as que se opõem ou parecem opor-se a ela. Hoje aceita-se como óbvio (o manipulador nunca demonstra nada) que a censura, todo tipo de censura, o que incluiu a crítica e a contra-argumentação se opõe sempre à liberdade. Logo, as palavras dos que censuram, ou criticam os que utilizam a palavra liberdade estão desprestigiadas.

O manipulador dos termos talismã sabe que intimida ao introduzi-los num discurso. Contestá-lo é ser exposto à crítica e a ser acusado de inimigo da liberdade, da democracia, da transparência. Intimidado, aceita o que lhe é proposto. A mera utilização desses termos hipervalorizados, leva as pessoas comuns (e mesmo intelectuais prestigiados) a encolherem-se: “É melhor não contestar porque o que está em jogo é a liberdade e serei acusado de anti-democrata, de radical, ou de corrupto”.

Casos recentes são paradigmáticos da manipulação da linguagem com o objectivo de criar condições para um golpe do novo tipo.

O impeachment da presidente do Brasil e o julgamento de 17 opositores em Angola. As palavras talismã lá estão distribuídas em abundância, a ausência de explicações também: o que pretendem os manipuladores da linguagem? Quem são? Quem está por detrás do impeachment de Dilma (que interesses)? Que regime pretendem – acabar com a corrupção no Brasil? Os manipuladores dão a cara e dão resposta? Não. Falam em liberdade e em democracia!

Quem está por detrás dos 17 opositores? Alguém acredita que eles são o melhor e o mais eficaz grupo de cidadãos que a sociedade angolana produziu para implantar a liberdade e a democracia em Angola? Parece que sim.

Todos os brasileiros têm o direito de reclamar contra a corrupção. Os 17 opositores e todos os opositores ao governo de Angola têm todo o direito de exigir liberdade e democracia. Mas cada um dos brasileiros e dos angolanos tem o dever de recordar que de boas intenções está o Inferno dos golpes de estado cheio.

Quanto aos portugueses, recordo o assalto e incêndio ao consulado e à embaixada de Espanha, durante o PREC, em 1975. As palavras talismã que foram manipuladas na altura não podiam ser mais apelativas: Liberdade e Justiça. O motivo não podia ser mais mobilizador: lutar contra a morte pelo garrote de democratas espanhóis executados pela ditadura de Franco. Os reais objectivos são hoje conhecidos: a manipulação fazia parte do processo de desestabilização das relações entre a Espanha e Portugal, dando a Espanha o pretexto para invadir Portugal e acabar com a liberdade e com o regime democrático que estava em construção.

Por detrás da manipulação estavam fascistas espanhóis e portugueses, serviços secretos e a extrema-direita francesa, por exemplo. Felizmente houve no governo espanhol e no governo português gente capaz de ver para além da manipulação. Já agora, quem esteve do lado da manipulação foi Durão Barroso, que seria primeiro ministro português. O mesmo Durão Barroso que também esteve envolvido na manipulação de linguagem a propósito de “armas de destruição em massa”, que ele e Paulo Portas viram, que serviu para justificar a “gloriosa” invasão do Iraque.

1 Comment

  1. Muita saúde e longa vida ao autor que nos presenteia com estes preciosos momentos de prosa!
    São autênticos momentos de lucidez e honestidade nesta manipulação/regime quase totalitário em que vivemos.

    Bem haja!

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